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08/06/2015


60. 

A LEI BIOLÓGICA DA RENOVAÇÃO











Com a vida, o transformismo da estequiogênese e da evolução dinâmica acelera ainda mais seu ritmo. 













trajetória daquele devenir fenomênico, que estudamos nas fases $ \gamma $ e $ \beta $, torna-se a linha de vosso destino. Matéria e energia não nascem e morrem tão rapidamente, não mudam com essa velocidade. 

A vida tem que nascer e morrer sem jamais deter-se, sem possibilidade de parar esse movimento mais rápido, inexoravelmente batido por um ritmo mais veloz de tempo. O equilíbrio da vida é o equilíbrio do voo, em que a estabilidade está condicionada à velocidade. 

Vimos que a estabilidade das combinações químicas de um metabolismo que se renova sempre é a característica fundamental do fenômeno biológico. Nascer e morrer, morrer e nascer, essa é a trama da vida. A constituição cinética da substância se exterioriza e aparece cada vez mais evidente, à proporção que a evolução ascende até sua forma mais alta, a vida. 

matéria é tomada num turbilhão cada vez mais veloz, que a permeia em sua essência mais íntima, para que possa responder aos novos impulsos do ser e tornar-se meio de desenvolvimento do novo princípio psíquico da vida, $ \alpha $.

Parece-vos uma fraqueza da vida, essa fragilidade, essa contínua necessidade de reconstrução, para suprir sua contínua dispersão e desgaste; mas essa é sua força. Parece-vos que não sabe manter-se numa estabilidade constante. Ao contrário, esse transformismo mais rápido é a primeira condição de suas capacidades ascensionais, um poder absolutamente novo no caminho da evolução. 

Na vida, o espasmo da ascensão se torna mais intenso, rapidíssimo. O turbilhão psíquico nasce e se desenvolve cada vez mais poderoso, de forma em forma; a veste da matéria se torna cada vez mais sutil; o pensamento divino se torna cada vez mais transparente. É necessário reconstruir, continuamente, vossos corpos, e só uma troca ou recâmbio constante pode sustentá-los. 

Esta, que parece vossa imperfeição, constitui vosso poder. Neste ritmo rápido tendes que viver: 

juventude e velhice, sem jamais parar. 

Mas nessa corrida é indispensável experimentar continuamente, provar, assimilar, avançar espiritualmente, esta é a vida.

Poder existir à custa de uma renovação contínua significa tão somente ter que marchar, cada dia, na grande estrada da evolução. Vós vos prendeis à forma; acreditais que sois matéria; quereríeis paralisar esse maravilhoso movimento; para prolongar a ilusão de um dia, gostaríeis de parar a marcha estupenda. 

Mas possuís, além da juventude do corpo, a inexaurível e eterna juventude de uma vida maior, não a terrena. Naquela sois indestrutíveis, eternamente novos e progressistas, sois jovens, não no corpo caduco, mas no espírito eterno. Não deis importância às alvoradas e aos crepúsculos de um dia, pois cada crepúsculo prepara nova aurora. É lógica simplicíssima, evidente lei de equilíbrio esta, pela qual tudo o que nasce, morre, mas também tudo o que morre tem de renascer.

Não vos iludais a vós mesmos; não percais um tempo precioso no esforço inútil de tentar parar a vida. A beleza da mulher deve servir à maternidade; a força do homem é feita para desgastar-se no trabalho. Só quando não tiverdes fraudado a Lei, mas houverdes criado de acordo com sua ordem, vosso tempo “não será passado” e não tereis lamentações. Se pedis o absurdo, tereis que colher ilusões. 

Colocai-vos no movimento, não na imobilidade. Desembaraçai vosso pensamento do passado que vos prende. Superai-o. O passado morreu e contém o menos. Interessa o futuro, que contém o mais. A sabedoria não está no passado, mas no futuro. Só vossa ignorância pode fazer que acrediteis na possibilidade de violar e fraudar a Lei, de deter-lhe o caminho fatal. Se parais, o pensamento cristaliza-se, o tédio vos persegue, a satisfação de todas as necessidades, de todos os desejos vos torna ineptos; ócio significa morte por inanição. 

O repouso só é belo como pausa, como consequência de um trabalho anterior e condição de novo trabalho. A necessidade de evoluir, imposta pela Lei, está gravada no mais profundo instinto de vossa alma: a insaciabilidade. 

A insatisfação que permanece no âmago de todas as vossas realizações, qualquer desejo satisfeito que vos faz debruçar para outro horizonte mais amplo, o descontentamento que vos atormenta logo que parais, o ilimitado poder de ambicionar, inato em vosso espírito, tudo vos diz que sois feitos para caminhar. 

Isso pode constituir ânsia e ilusão, mas é estrada de progresso, é o esforço da ascensão. A centelha, que guia vossa vida, sente a Lei, mesmo sem o saberdes; segue-a com seu instinto profundo, indelével, que jamais conseguireis fazer calar. Isso não é condenação nem ônus de ilusões. 

Moveis-vos de acordo com a Lei, criai substancialmente, e sentireis quanta alegria vos inundará o espírito! Ao invés, que tristeza sutil vos prende quando vosso tempo é desperdiçado! Ocasiões perdidas, posições estacionárias: o universo caminhou e ficasteis parados em vossa preguiça. A alma o sente, entristece-se e chora. Então gritais: 


Vanitas vanitatum



Mas vão sois vós: a vida não é vã. Não desperdiceis vossas energias, não pareis à beira do caminho, não adormeçais enquanto a vida está desperta e caminha; se cada dia tiverdes sabido criar no espírito e na eternidade, se tiverdes dado a cada ato esse objetivo mais alto e mais substancial, tereis caminhado com o tempo e não direis: 

o tempo passou! 

Tereis renovado vossa juventude com vosso trabalho e não tereis envelhecido tristemente. Então não direis mais da vida: 

vanitas vanitatum.

Realizai o trabalho oferecido por vosso destino e não invejeis quem está no ócio. Vós, humildes, não invejeis os ricos e poderosos, porque eles têm outros trabalhos a fazer, outros problemas a resolver, outros pesos a suportar.

Ninguém repousa verdadeiramente. Não há parada para ninguém no caminho da vida. Mas considerai-vos todos soldados do mesmo exército, encarregados de trabalhos diferentes, coordenados ao mesmo objetivo. Não invejeis aqueles cuja aparência os apresenta felizes: a verdadeira alegria não se usurpa, não se herda. Aquilo que não se ganhou não dá satisfação, não se aprecia e se desperdiça.

A alma quer a sua alegria, sua propriedade, fruto de seu trabalho; só isso é apreciado, só isso traz prazer. As vantagens gratuitas não trazem satisfação. A Lei distribui alegria e dores acima de vossas partilhas humanas, com profunda justiça. Como poderíeis ser felizes, se vossas vidas fossem mais substanciais! Por que acumular, com qualquer meio, se tudo deverá ser deixado? 

Considerai antes a vida como campo de adestramento, onde estais para temperar vossas forças, para provar vossas capacidades, para aprender novos caminhos, para aprofundar vossa consciência. Estais no mundo para construir não na areia, mas para edificar-vos a vós mesmos.

Não busqueis o absurdo de querer prender-vos definitivamente numa matéria instável e caduca; a troca que a vida a submete, não permite que sua imagem resista um instante. Desprezai a miragem das formas. O que existe fica e sobrevive à renovação contínua dos meios, o que verdadeiramente importa sois vós, vossa personalidade espiritual. Não façais do mundo um fim, pois é apenas um meio. 

Não invertais as posições e as funções. Não vos transformeis de senhores em servos. Caminhai. Lançai-vos à grande correnteza. A vida é feita para correr e avançar. Triste é o lamento do tempo perdido no sono, do tempo que não trouxe nenhum progresso e vos deixou para trás, estacionários; triste é o choro da alma que se vê iludida em sua maior necessidade, em que a Lei fala e exprime-se. 

Avançai, se não quiserdes que a correnteza vos ultrapasse e vos abandone. Sede insaciáveis, como Deus vos quer, trabalhando substancialmente, criando no bem, na eternidade.

Como podeis ser tão crianças, para acreditar que num universo tão perfeito a felicidade possa ser usurpada por vias transversas, com meios injustos? Trabalhai: procurai vossas alegrias, conquistai-as com vosso trabalho. 

Vossa alma jamais se alegrará com as maiores conquistas se não forem vossas, se não forem produto de vosso esforço, testemunho e medida de vossa capacidade. Mais que o resultado exterior, a alma quer a demonstração de seu íntimo poder, quer a prova de sua sabedoria progressiva, quer o obstáculo para poder vencê-lo, quer a prova constante de seu valor íntimo e indestrutível.

O resultado prático, concreto, na economia da vida, é quase um produto secundário e de refugo. Por isso, a Lei não cuida dele e, logo que sai das mãos do homem, abandona-o à mercê de forças de ordem inferior. Como é triste ver vosso contínuo esforço inútil para realizar-vos num mundo ingrato e rebelde, para imprimirdes na matéria o sopro de vossa alma eterna! 

Que trágico espetáculo, o inconciliável contraste entre a vontade e os meios, entre o pensamento e sua realização! Por causa dessa correspondência inadequada, dessa incurável impotência da matéria, as maiores almas, muitas vezes abatem-se exaustas aos pés de seus ideais, altos como rochas, cujos cimos resplandecem fora da Terra.

Terra móvel e vã, que recolhe a ruína de todas as vossas grandezas humanas! E como podeis ainda insistir no doloroso jogo, ou concluir tristemente que nascesteis apenas para colher ilusões?

Concebei a vida não mais na superfície, mas em sua realidade mais profunda, e se dissipará a condenação aparente; construí no espírito, que mantém eternamente as impressões, e vossas aspirações encontrarão eterna expressão.

Este ritmo mais rápido da vida, cuja essência e origem vimos no estudo dos movimentos vorticosos, manifesta-se nas formas orgânicas como uma permuta química contínua. Tal como a vida psíquica é um veículo em marcha, que avança de curva em curva, de estação em estação, sem possibilidade de parar, assim a vida orgânica é uma renovação contínua; o material de que é constituída é uma corrente. 

Esse material, no entanto, no seu conjunto, é sempre o mesmo, move-se circulando de organismo em organismo. A vida é feita de unidades comunicantes, ligadas em indissolúvel vínculo por contínuas permutas do material constitutivo. Como um rio, em que sempre mudam as águas, assim o ser se mantém, na mudança dos elementos constitutivos, sua própria individualidade.

A lógica vos indica a presença de um princípio superior e diferente de cada uma das partes componentes, porque o mesmo material é plasmado diferentemente, individualizado em diferentes formas específicas, de acordo com a natureza do ser, que dele se apropria. 

O organismo superior é uma verdadeira sociedade de células, com funções distintas, mas há uma coordenação de funções de cada uma das unidades menores diante das maiores; há uma subordinação do interesse individual ao coletivo. 

Os organismos superiores são agrupamentos associados, semelhantes à sociedade humana, em que existe um poder central dirigente. As unidades componentes nascem e morrem, de uma vida menor englobada no âmbito da vida maior. Basta o fato de que ela permanece constante, para demonstrar a existência em vós de uma individualidade superior e independente. 

Vede como à vida e ao seu desenvolvimento está subordinado todo o transformismo dos materiais tomados na sua circulação; à vida maior são oferecidas em holocausto, como a um interesse superior, todas as vidas menores que a atravessam e nela se sustentam. 

Contínuos nascimentos e mortes menores, coordenados num organismo que, por sua vez, nasce, morre e se coordena em organismos coletivos mais amplos; que, por sua vez, nascem e morrem, sejam espécies animais ou famílias, povos, civilizações, humanidades. 

A vida se organiza coordenando em unidade, de acordo com o princípio das unidades coletivas.

Embora a substância viva e morra continuamente, a vida jamais se extingue. Renovar-se é sua condição. A vida e a morte são apenas fases dessa renovação, a vida e a morte da unidade menor constituem a permuta da unidade maior de que ela é parte orgânica. 

Nessa rede de leis, nas quais ocorrem os fenômenos e nas quais a matéria está presa, não há lugar para absurdos, como seria o fim de qualquer unidade menor ou maior. 

Ao contrário, tudo se reagrupa em unidades coletivas e coordena a própria evolução, na evolução das unidades superiores, de que é o elemento constitutivo (lei dos ciclos múltiplos).



05/06/2015


59. 

TELEOLOGIA DOS

FENÔMENOS BIOLÓGICOS

(Teleologia = Estudo da Finalidade)





A vida: 

panorama sem limites. 

Filha da energia onipresente, a vida está em toda a parte no universo, nascida do mesmo princípio universal e diferentemente desenvolvida, como resultante exata do impulso determinante e das reações das forças ambientais. 






Pambiose, não por transmissão de esporos ou de germes por via interplanetária e interestelar, mas pela onipresença da grande mãe, a energia — o princípio positivo, ativo que se une à matéria, princípio negativo e passivo. O germe do psiquismo desceu como raio do céu nas vísceras da matéria, que o estreitou em seu seio, num profundo amplexo, envolvendo-o em si, dando-lhe um corpo, uma veste, a forma de sua manifestação concreta.
 
Vós mesmos sois esse fenômeno, mas sabeis que — desde as limitadas plagas do universo — a vida irmã, filha da mesma mãe, responde. Cada planeta, cada sistema planetário, cada estrela está plena dela, nas mais variadas formas, com meios e finalidades diversíssimos. 

Abandonai vosso piedoso antropomorfismo, que vos considera centro do universo e únicos filhos de Deus; abri os braços de par em par a todas as criaturas irmãs, afinai com elas vosso canto e vosso trabalho de ascensão. Subir, subir — eis a grande paixão de toda a vida — para um poder e uma consciência que não aceitam limitações. Mesmo em vossa Terra, desde os primeiros microorganismos, esta é a aspiração constante, a vontade tenaz da vida.
 
Olhai em torno de vós. O panorama da vida terrestre, só por si, é imenso. A profusão dos germes, a potencialidade das espécies é tão grande que, sem a reação dos germes e espécies opostas ou concorrentes, uma só delas bastaria para invadir todo o planeta. A vida é tão frágil, tão vulnerável e, no entanto, tão poderosa, que é praticamente indestrutível. 

Observai os tesouros de sabedoria, como são profusos em suas formas. Quanta perspicácia sutil, que requintes de astúcia, que resistência de meios, que complexidade de arquitetura na construção orgânica, que economia e exatidão na divisão do trabalho e, ao mesmo tempo, que elasticidade! Vedes sintetizada na vida a mais alta sabedoria da natureza. 

Como seria possível que fenômenos reveladores de tão profunda inteligência e sabedoria, diante das quais a vossa se desorienta, tivessem acontecido assim, irracionalmente, e fossem filhos do acaso? 

Como a ciência lógica e racional pôde ser tão vergonhosamente míope, a ponto de não perceber o grande conceito que transborda sobre todos os fenômenos da vida e sua finalidade superior, que tudo explica e dirige? 


Que desastre quando quiseram trazer essas aberrações para o campo ético e social! O materialismo, se por um lado auxiliou o despontar de uma pseudo-civilização mecânica, atrasou de um século o progresso espiritual da humanidade.
 
Olhai em torno de vós. Do protozoário ao homem, da célula ao mais complexo organismo, é sempre idêntica essa febre de ascensão, essa vontade indestrutível de viver. Indestrutível porque sabe superar qualquer obstáculo, vencer qualquer inimigo, triunfar de todas as mortes. 

Em toda parte um supremo instinto de luta, para sustentar o fenômeno máximo, cuja conservação despendem-se prodigamente todos os recursos e inteligências da vida. Em seu redor a natureza trepidante acumula todas as suas conquistas e todas as suas defesas. 

Se existe uma lógica na natureza, como vo-lo demonstra cada fato, como seria possível que, diante da finalidade suprema, falhasse essa lógica, renegando-se, quando em todas as ocasiões mostrou-se presente, com indomável vontade e assombrosa sabedoria?
 
Vós vos perdeis no pormenor; o particular vos afoga. Observais o átimo fugitivo, não a totalidade do fenômeno no tempo. Desanima-vos o choque da dor, a falência de um caso. No dédalo da grande complexidade fenomênica, vossa consciência não sabe orientar-se: sente-se impotente diante da compreensão das grandes causas. 

Então dizeis: 

por que, por que viver? 

O animal, como o homem inferior, cuja consciência não sabe ultrapassar o nível da vida física, não faz essa tremenda pergunta. Mas ela assinala o primeiro despertar do espírito, sob o chicote da dor. 

Os choques atômicos e dinâmicos, neste nível, tornam-se paixão e dor. Com o mesmo cálculo exato de forças, determinam-se fenômenos e criações de ordem psíquica. Quando o ser se pergunta por que? então surgiu na vida uma criatura nova: o espírito. Na dor ele evoluirá gigantescamente.
 
Por que viver? Por que sofrer? Não! Não basta o círculo de vossas coisas humanas: paixões, ilusões, conquistas e dores, para dar uma resposta. A alma sente que, com essa pergunta, assoma às pavorosas e abismais distâncias do infinito, e treme.
 
As vossas filosofias, a ciência e as próprias religiões não sabem dar-vos uma resposta convincente; não vos sabem dizer o porquê de certos destinos obscuros, que parecem sem esperança, em seres puros e inocentes, destinos de condenação que parecem acusar a inconsciência na criação e a injustiça na Divindade. 

Não sabem dizer-vos o porquê de tantas disparidades e deficiências físicas e morais, de meios materiais e espirituais. Então acusais loucamente. Revoltais-vos com a revolta cega do homem cego que tateia nas trevas. Um triste abalo, e permanece a dor, não vencida, individual e coletivamente. Assim desenrola-se o fio de vosso destino e vós não sabeis. A sorte dos inconscientes vos guia: a de subir ignorando as leis da vida.
 
Levantai-vos! eu vos digo. Ensino-vos nova luta, mais elevada que essa fútil e vil que diariamente vos subjuga e vos atira inutilmente contra vosso semelhante. Ensino-vos a guerra santa do trabalho: do trabalho que cria a alma, uma construção eterna. Ofereço-vos como inimigo, não vosso semelhante e irmão, mas leis biológicas que tendes que superar; ensino-vos a conquistar novos graus da evolução e a realização, em nosso planeta, de uma lei super-humana, da qual estão banidos vileza, traição, egoísmo, agressividade. 

Demonstro-vos que vossa personalidade, pela própria lógica de todos os fenômenos é indestrutível; que, pelos princípios vigorantes em todo o universo, existis para o bem e a felicidade; que o futuro vos espera a todos, para cada um subir até ele, de acordo com seu trabalho. As respostas tremendas aos grandes “por quês”, eu ofereço-vos naquela atmosfera de límpida logicidade, em que nos movimentamos sempre neste escrito, no qual cada fenômeno tem uma explicação natural. 

À mente humana falta o sentido das supremas finalidades, num mundo de fome espiritual e de perturbação geral; num momento de desorientação catastrófica eu venho dizer a palavra da bondade e da esperança. Não a digo apenas com os conceitos da fé que destruísteis: digo-a com os princípios da ciência, em que vos habituasteis a acreditar.
 
Aí, onde o mundo admira e venera o que vence por qualquer meio, chamo a meu lado o homem mais sofrido e desventurado e lhe digo: “Amo-te, meu irmão; admiro-te, criatura eleita”. Onde o mundo apenas respeita a força e despreza o fraco que jaz derrotado, eu digo ao humilde e vencido: tua dor é a maior grandeza da Terra, é o trabalho mais intenso, a criação mais poderosa; porque a dor faz o homem, martela sua alma, plasma-a e levanta, lança-a para o Alto, para Deus. 

Que grande homem pode igualar-te? 

Que triunfador das forças da Terra jamais realizou uma criação verdadeiramente eterna como a tua?
 
Não maldigas a dor. Não conheces suas longínquas raízes; não sabes qual foi a última onda, impulsionada por uma infinita cadeia de ondas, que constituiu o teu presente. Num universo tão complexo, no seio de um organismo de forças regido por uma lei tão sábia, que nunca falhou definitivamente, como podes acreditar que teu destino esteja abandonado ao acaso, e o desequilíbrio momentâneo, que te aflige e te parece injustiça, não seja condição de mais alto e mais perfeito equilíbrio? 

Deus é tudo: 

não apenas o bem. 

Não pode ter rivais nem inimigos: é um bem maior que o mal, que ele compreende e constrange a alcançar seus objetivos. Como podes acreditar, mesmo ignorando as forças que agem em ti, que estejas abandonado ao acaso? 

Não! Seja que o chames Pai, com a palavra da fé; ou cálculo de forças, com a palavra da ciência; a substância é a mesma: estais vigiado por uma vontade e uma sabedoria superiores; um equilíbrio profundo te dirige. Lembra-te de que, no organismo universal, as palavras “acaso” e “injustiça” constituem um absurdo.
 
Não pode haver erro nem imperfeição, senão como fase de transição, como meio de criação. A lei da vida é alegria e o bem, mesmo que para realizar-se integralmente seja necessário atravessar a dor e o mal. Repito: 

“Felizes os que sofrem. Os últimos serão os primeiros”.

Deus vê os espíritos, mede substancialmente as culpas, proporciona as provas às forças e, no momento exato, diz:
 
basta, repousa! 

Então a terrível tempestade da dor transforma-se em serena paz, em que brilha a consciência alegre da conquista realizada; abrem-se, então, as portas do céu e a alma contempla extasiada; das tempestades emergem seres elevados a um grau mais alto de evolução. Não maldigas. 

Se a natureza — tão econômica até em sua prodigalidade, tão
equilibrada em seus esforços — permite essa derrota, como biologicamente é a morte, e uma tal falência de tuas aspirações, como a dor, isto não pode significar, na lógica do funcionamento universal, senão fenômenos que não são nem perda nem derrota, mas incluem, escondidos neles, uma função criadora.
 
A dor tem uma função fundamental na economia e no desenvolvimento da vida, especialmente em seu psiquismo. Sem sofrimento o espírito não progrediria. Por isso a dor é a primeira coisa de que vos falo ao ingressardes na vida. Ela é aí colocada como fato substancial, pois é o esforço da evolução, a nota fundamental do fenômeno biológico. 

A dor, produzida pelo choque das forças ambientais opostas ao eu, excita-lhe como reação todas as atividades e com as atividades, o desenvolvimento. Só a dor sabe descer ao âmago da alma e arrancar-lhe o grito, com o qual ela se reconhece a si mesma; só ela sabe despertar-lhe toda a potência oculta e fazê-la encontrar, no fundo do abismo íntimo, sua divina e profunda natureza.
 
O mal, representado por essa lei de luta, a lei de vosso mundo biológico, lei desapiedada que pesa em vosso planeta como uma condenação, transforma-se num bem. Olhai o âmago das coisas e vereis que o mal sempre se transforma no bem. O instinto de agressão excita, como reação no agredido, o desenvolvimento da consciência, o progresso nos caminhos da ascensão biológica e psíquica.
 
Os seres aglomeram-se para invadir tudo, para se arrasarem mutuamente. A necessidade de constante esforço para defender-se significa a necessidade de contínuo trabalho de ascensão. Assim, na série dos choques recíprocos e inevitáveis, a natureza recoloca a técnica em sua auto-elaboração. Por isso, a lei brutal contém em si os meios de transformar-se a si mesma e, por sua força íntima, transforma-se na lei superior de amor e de bondade do Evangelho.
 
Duas fases de evolução biológica: animal-humana e super-humana. Duas leis em contraste no atual período de transição. Enquanto alvorece a nova civilização do terceiro milênio, no qual se realizará o tão esperado Reino de Deus, embaixo ainda se desencadeia a louca ira bestial humana. 

Mas a lei contém em si os germes do futuro, os meios para realização do seu transformismo. Jamais vedes, na natureza, as forças operarem de fora: manifestam-se de dentro, como expansão de um princípio oculto nas misteriosas profundezas do ser. No homem, que hoje se encontra numa grande encruzilhada de sua maturação biológica, que chega ao nível psíquico, ocorrerá a transformação e se manifestará a nova lei, já anunciada há dois milênios na Boa-Nova do Evangelho de Cristo.
 
Nosso Tratado entra, agora, numa atmosfera mais humana e mais cálida, mais palpitante de vossa vida, instintos e paixões. Os problemas que abordaremos estão próximos de vós, vida de vossa vida, tormento de vosso tormento. Minha palavra exalta-se em sua iminente humanidade. 

Aproximando-nos das formas superiores da vida em que estais, avizinhamo-nos da meta de nosso caminho, para traçar-vos os caminhos do bem. Demoramo-nos muito no estudo das criaturas menores, irmãs do mundo físico e dinâmico, porque elas contêm os germes. Sem elas não seria possível a existência nem a explicação dos problemas da vida e do psiquismo.
 
Quanto mais ampla a abertura da mente, mais se aprofunda o estudo e o pensamento, e mais se revela complexo o funcionamento do todo. Esta filosofia torna-se a filosofia do universo; não, como as outras, um sistema antropomórfico e egocêntrico, mas uma concepção que exorbita os limites do planeta, aplicável onde quer que exista a vida.
 
Neste sistema, a vossa ciência perde aquele seu caráter desconsolado, de viandante que caminha sem esperança de jamais chegar a u’a meta demasiadamente afastada. Nele a fé perde aquele caráter de irrealidade que aparenta, diante da objetividade do positivismo científico. Mas, por que nunca devem estender-se os braços, os dois extremos do pensamento humano? 

A ciência tornou-se gigante e não é mais lícito ignorá-la no seio de uma fé que não pode ser suficiente para as complexas mentes modernas, se deixada aos primitivos enunciados da concepção mosaica. 

Torna-se indispensável unir os dois caminhos e as duas forças; reunir os dois aspectos divididos da mesma verdade, para que a ciência não permaneça apenas um árido produto do intelecto — sem finalidade no céu, sem resposta para a alma que sofre e pergunta — e a fé não venha a ser apenas um produto do coração, que não sabe dar as razões profundas à mente que “quer” ver.
 
Estes conceitos poderão peturbar vossas categorias tradicionais, mas respondem à inevitável necessidade de salvar a ciência e a fé; pertencem ao futuro do pensamento humano e estão acima de todos os vossos sistemas, tradições e resistências, como são todas as forças invencíveis da evolução.



01/06/2015


58. 

A ELETRICIDADE GLOBULAR E A VIDA







Continuemos na direção que seguis, do interior para o exterior, e observemos a forma sensória com que o dinamismo dos movimentos vorticosos se reveste. Encontraremos no último limite das espécies dinâmicas e no limiar do mundo biológico, uma primeira unidade orgânica que justamente resume em si as características que observamos, comuns aos sistemas vorticosos e aos fenômenos biológicos. 








Essa primeira unidade vos é dada pela eletricidade globular. Nesta unidade, tendes a primeira organização de um sistema de vórtices, com uma primeira especialização embrional de funções. Dela nascerá a primeira célula, que englobará em si todos os movimentos vorticosos determinantes e lhes conservará em germes as características, verdadeira síntese dinâmica e síntese química, síntese de forças e síntese de elementos, em que sistemas atômicos combinam-se nos sistemas vorticosos e os átomos nas moléculas, arrastadas pelo recâmbio protoplasmático. 

Pelo princípio das unidades coletivas, à diferenciação sucederá paralelamente uma reorganização em unidades mais amplas, com especialização progressiva de funções. As células formarão tecidos e órgãos e, como no vórtice primitivo, uma proporcionada psique ou princípio cinético diretor, de origem elétrica, presidirá o funcionamento de cada unidade. Isso, até que, na evolução, superada essa fase e fixada definitivamente no subconsciente a fase consciente de formação, a unidade ascenda à fase superior da consciência humana, que se sente a si mesma no âmbito de sua ação, apenas enquanto esta é trabalho de construção. Já vimos para que metas superiores ela se dirige. 

Mas, como sempre, o que importa na vida é o princípio determinante das forças: é acompanhar a evolução das causas e não, como fazeis, a evolução dos efeitos (evolução darwiniana).

Vimos como a energia elétrica, isto é, a onda dinâmica mais degradada, constrói, ao penetrar no edifício atômico, o sistema vorticoso. Não se confunda esse processo com a normal introdução de energia “não degradada” nos sistemas atômicos já constituídos, que assistis em qualquer transmissão dinâmica (raios solares etc.). 

O sistema vorticoso, aberto pela própria natureza, comunicante com o exterior, com dois pólos e todas as características que veremos, era o sistema mais apto a unir-se, entrando em combinação cinética, com outros vórtices semelhantes. O equilíbrio estabilizou-se gradualmente, pelas próprias qualidades intrínsecas desse tipo de movimento, num sistema de vórtices comunicantes e nasceu o primeiro organismo coletivo. 

Não ainda célula, não ainda propriamente vida, essa unidade de natureza ainda essencialmente dinâmica, organismo de força que se demora no limiar do novo mundo biológico; já contém todos os germes do iminente desenvolvimento. Ele viveu em vosso planeta verdadeira forma de transição de $ \beta $ e $ \alpha $ e hoje já esgotou sua função biológica. 

No entanto, ainda dele sobrevivem traços e podeis observá-los para deduzir as suas características. Isso porque a natureza não esquece, não anula jamais definitivamente suas formas, e a lembrança das tentativas ressurge, embora irregularmente. O raio globular é um organismo dinâmico de constituição eletrônica, que em alguns casos podereis observar. 

Longínquo descendente dos tipos mais poderosos, dos quais nasceu a célula, hoje ele possui, naturalmente, um equilíbrio instável, transitório; uma persistência curta de vida e uma tendência a desfazer-se. Embora organismo efêmero, que raramente reaparece por lembrança atávica, o aparecimento e o comportamento do raio globular são fatos de vossa experiência. 

Podeis, então, comprovar quantas afinidades apresenta esse primeiro ser com os movimentos vorticosos de que é filho, como também com os fenômenos da vida, que ele já tem em germe. Colocado entre esses dois fenômenos, que ele liga por continuidade, o raio globular naturalmente apresenta as mesmas características comuns a ambos, como vimos. 

Com esse novo termo, fechamos a cadeia que vai da eletricidade, última espécie dinâmica — onda degradada — ao vórtice eletrônico que ela determina na matéria, até o primeiro organismo de vórtices eletrônicos — o sistema elétrico fechado do raio globular — e, depois, à célula, com a qual entramos na vida.

O raio globular, então, é um sistema elétrico fechado, nova unidade coletiva, formada pela combinação e associação de sistemas vorticosos, gerados pela penetração eletrônica nos sistemas cinéticos atômicos, mantidos ligados em unidades pelas relações recíprocas ativo-reativas (até mesmo sua forma é a de um sistema de forças fechado e equilibrado). 

Neste caso, a onda dinâmica degradada assume novo modo de ser. Sua trajetória aprofundou-se com os trens eletrônicos nos sistemas atômicos; fundiu-se com eles; seu movimento muda de forma: não se transmite, mas volta-se sobre si mesmo; o sistema cinético que preludia a vida está profundamente mudado e é essencialmente diferente. 

A trajetória da transmissão dinâmica muda de direção: a eletricidade não se projeta mais de um pólo a outro, mas se fecha em si mesma, num circuito fechado, que se mantém enquanto a estabilidade do sistema não desmorona pela intervenção de forças externas. Esta é a construção cinética do raio globular. Mas se, de um lado, ele é um organismo de forças, próximo das forças dinâmicas de que proveio, doutro lado, excita a matéria, arrasta consigo os sistemas atômicos, e reveste-se de matéria como de um corpo.

Esses fenômenos de transmutação, reduzidos à sua natureza cinética substancial, são bem compreensíveis. Entramos, agora, na química. Os corpos simples, encontrados primeiro pela onda elétrica degradada, em sua passagem, são os elementos da atmosfera. Pela introdução eletrônica, eles são elaborados; o sistema cinético múltiplo do raio globular torna-se um centro de elaboração química. 

Colidindo com a estrutura íntima do átomo, a energia pôde concentrar ao redor de seu impulso a matéria encontrada; o impulso, ou sistema genético, ficará sendo a força diretriz da vida, o psiquismo animador da forma; a matéria, arrastada num entrelaçamento de combinações químicas cada vez mais complexo, estabilizar-se-á em unidades cada vez mais compactas, em formas cada vez mais estáveis e constituirá o corpo. 

Assim, a vida formará o seu suporte, bastante estável para iniciar sua evolução. Com um processo contínuo diretivo, de dentro para fora (direção tangível dos fenômenos vitais), operará a sua transformação progressiva.

Com isso, a eletricidade pôde condensar os elementos do ar. Ora, sabeis que o ar contém justamente os quatro corpos fundamentais — H, C, N, O — que encontrais na base dos fenômenos da vida. 

Eles apresentam a propriedade de existirem no estado gasoso na atmosfera — Hidrogênio, Carbono, Nitrogênio e Oxigênio, representados pelo Nitrogênio e Oxigênio em estado livre, e os outros pelo estado de vapor de água (H2O) e de gás carbônico (CO2) — prontos para encontrar toda a série de corpos secundários, que os ajudarão a formar o protoplasma definitivo. 

Ora, vimos exatamente que esses corpos, por sua característica de possuir pesos atômicos baixos, são os primeiros a serem introduzidos no círculo vital. Assim, pois, a série dos trens eletrônicos da onda dinâmica degradada, ao chegar dos espaços, encontrou-se em primeiro lugar com os sistemas atômicos de estrutura cinética mais simples, ou seja, com menor número de órbitas eletrônicas, os mais fáceis de serem penetrados e transformados em sistemas vorticosos, isto é, em outros tantos germes de vida. 

Os átomos desses quatro corpos, mais obedientes e flexíveis ao impulso da energia radiante que chegava, foram dessa forma mais facilmente encontrados e escolhidos; por isso, constituem os elementos fundamentais da vida.

Verificais que é caráter essencial e comum a todos os compostos orgânicos o conter Carbono como elemento mais importante e, com ele, Hidrogênio, Nitrogênio e Oxigênio. Toda a química orgânica está baseada nos compostos de Carbono. Este possui as qualidades que o tornam particularmente apto às funções da vida, como sejam: grande elasticidade química, isto é, a faculdade de combinar-se com elementos químicos mais disparatados, o que lhe confere excepcional fecundidade de composições; inércia química transmitida também aos corpos aos quais se une, funcionando como resistência nas reações, constrangendo-as a uma lentidão de movimentos que não é usual no mundo da química orgânica. 

Por essa sua tendência a eliminar as transformações brutais — que nas substâncias minerais conseguem de repente a forma de equilíbrio mais estável — o Carbono pôde tornar-se o elemento mais apto para o fundamento químico da vida. Através dele pôde assim nascer uma química instável e progressiva, de cadeias dinâmicas abertas, em que as capacidades do Carbono são largamente utilizadas e onde as encontrais todas. 

Foi por essas razões íntimas — isto é, pelas qualidades intrínsecas do material constitutivo — que a vida terrestre assumiu a forma de metabolismo que lhe é fundamental. Imaginai outros aglomerados e centros de matéria, em que os próprios elementos químicos estejam
diferentemente dispostos, ou amadurecidos, e compreendereis as formas infinitas, nas quais o próprio onipresente princípio da vida pôde ter-se desenvolvido no universo.

Por isso, pôde nascer na Terra uma química nova, lenta mas essencialmente dinâmica, com deslocamentos contínuos de equilíbrio e que, mesmo estando sempre em movimento, jamais atinge a estase definitiva. Sobre essa química mutável, especialíssima, puderam basear-se os processos da vida e de sua evolução.

Vede como, nestes seus primeiros movimentos, encontrais o germe das características fundamentais que, mais tarde, acompanharão sempre todos os fenômenos biológicos e são as únicas que poderão permitir sua progressiva transformação ascensional. O impulso originário encontrou, dessa maneira, os elementos aptos para permitir seu desenvolvimento e pôde, assim, desenvolver-se e desenvolveu-se em vosso planeta. 

A química de equilíbrio estável, da matéria, transformou-se, desse modo, na química de equilíbrio instável da vida; a ordem estática transformou-se em ordem dinâmica. Isto prova que a vida é uma fusão de dois mundos, pois enquanto é matéria é, ao mesmo tempo, fecundação desta, por obra de um princípio dinâmico superior, a energia. O corpo, feito de barro, recebeu a alma do céu, o sopro divino.

Por sua maravilhosa plasticidade, o Carbono é a protoforma da química da vida. As condições da atmosfera primitiva eram, nas relações da gênese da vida, ainda mais favoráveis que no presente: muito mais rica de ácido carbônico, que era abundantíssimo; mais densa, quente, carregada sobretudo de vapor d’água, oferecia (também como elasticidade química de u’a matéria mais jovem e menos estabilizada) condições de todo favoráveis que, agora, desapareceram, pela condensação e a gênese das matérias protoplasmáticas. 

Assim, na primeira idade da Terra, os elementos minerais primitivos, água, gás carbônico, nitrogênio, são arrastados em combinações cada vez mais complicadas da química orgânica, e a matéria mineral do ambiente é progressivamente conduzida até a estrutura protoplasmática. 

Hoje encontrais o mesmo processo na assimilação que os vegetais operam, partindo dos elementos minerais primitivos, isto é, na síntese das proteínas, realizada a partir das substâncias inorgânicas, naqueles laboratórios sintéticos que são as plantas. Com a circulação da água, que permite a utilização do nitrogênio nela dissolvido, e com a introdução do anidrido carbônico (utilização do Carbono contido na atmosfera), são admitidos no movimento vital os quatro elementos fundamentais que vimos.

O primeiro organismo cinético em que se iniciou essa síntese química foi o raio globular. Os primeiros corpos introduzidos no novo sistema dissemos que foram os de peso atômico mais baixo, que existiam em estado gasoso na atmosfera. Esse foi, exatamente, o berço em que tudo estava pronto para o desenvolvimento do novo organismo de origem elétrica a circuito fechado. 

Embora ele hoje não apareça, pelas condições ambientais modificadas, senão como instável lembrança atávica, podeis verificar sua densidade aproximando-se à do Hidrogênio; como deveria ser, por sua estrutura atômica, o primeiro elemento movido pela radiação elétrica. Com efeito, nos casos que podeis observar, verificareis que esses globos elétricos “bóiam” no ar, isto prova que sua densidade é menor, ou quase igual a da atmosfera, como é justamente a do Hidrogênio. 

O primeiro material biológico foi, então, o hidrogênio, ao qual depois outros se acrescentaram. Este o primeiro corpo de que se vestiu a energia: seu primeiro apoio na Terra. Um corpo leve, gasoso, à espera de condensação e de combinações. O raio globular é constituído de Hidrogênio, a mais simples expressão da matéria renovada por novo, e poderosíssimo impulso dinâmico.

Doutro lado, o raio globular tem todas as características fundamentais de um ser vivo. Se observardes seu comportamento, vereis que ele emite uma luz que lembra a fosforescência; possui uma individualidade própria, distinta da do ambiente; uma persistência, embora hoje relativa, dessa individualidade: uma espécie de personalidade. 

A explicação de seus movimentos lentos, próximos do solo, que parecem evitar os obstáculos, sem nenhuma tendência a aproximar-se dos metais e dos corpos condutores, não pode ser dada por nenhuma lei física. Ele desloca-se no ar por sua própria vibração periférica, a primeira extrinsecação cinética em que se manifesta a vida, a expressão desse rudimentar psiquismo que a dirige. 

Há nele algo dos cílios vibráteis dos infusórios, num impulso que parece vontade, como uma escolha, uma previdência, uma possibilidade de tomar conhecimento do mundo exterior e de dirigir-se conscientemente, quase com memória dele: alvorece o psiquismo em suas qualidades essenciais.

Agora que conheceis a íntima estrutura cinética do sistema, estrutura dos movimentos vorticosos abertos e comunicantes, em relações de ação e reação, com as moléculas externas, a esse sistema, não vos parecerá absurdo pensar que a superfície do globo elétrico seja a sede de movimentos especiais e coordenados. Essas características da vida nós as encontramos existindo todas nos movimentos vorticosos, de que está intimamente constituído o raio globular.

Logicamente, pois, encontrá-lo-eis também nele. Isto prova a conexão entre sistema vorticoso, raio globular, e primeira unidade protoplasmática da vida. Encontrareis no raio globular também outras características dos movimentos vorticosos, como a capacidade de cisão, em dois, e de reunião, como ocorre nos vórtices. 

Existe, portanto, a possibilidade de multiplicar-se em sistemas que se aproximam da reprodução por cisão e sexual. Muitas vezes ele ricocheteia, mostrando, ao mesmo tempo, a íntima coesão unitária e a elasticidade, próprias da vida, tanto quanto dos movimentos vorticosos.

O raio globular decompõe sua unidade, restituindo, como na morte biológica, sua energia interna. Apenas ocorre que sua morte é mais violenta, de forma explosiva, porque a restituição da energia é mais rápida. É lógico que seja assim, porque esta se encontra ainda mais em suas primeiras e mais simples unidades orgânicas; portanto, não é contida pelas tramas de uma complexa estrutura química. 

Na vida, o sistema de movimentos vorticosos é mais complexo: existe tal entrelaçamento na estrutura orgânica que, de passagem em passagem, a energia tem de seguir mutações laboriosas, antes de desemaranhar-se e atingir o ambiente externo. Por isso, tendes aqui, na morte, uma restituição de energia mais lenta e progressiva. Assim, por explosão, extinguem-se essas criaturas efêmeras, último retorno das formas superadas, das quais nasceu a vida.

Mas em condições elétricas e químicas mais adequadas, no mesmo momento da evolução, em que a substância estava madura e pronta para sua transformação, as primeiras tentativas de equilíbrio puderam estabilizar-se e o raio globular pôde evoluir até a forma protoplasmática. 

Os casos esporádicos que hoje podeis observar são apenas esboços de reconstrução daqueles proto-organismos, em que começou a atração e a elaboração dos elementos para a química orgânica, verdadeiros laboratórios para a síntese da vida. Os casos mais estáveis, os organismos mais resistentes, os mais favorecidos pelas condições do ambiente, sobreviveram. 

Com a mesma prodigalidade com que a natureza multiplica e espalha hoje seus germes, para que só um pequeno número sobreviva, surgiram miríades desses globos leves, em que a vida começava a despertar e estava latente o germe de suas leis. Eles ainda vagavam à mercê das forças desencadeadas, numa atmosfera densa, quente, carregada de vapores d’água, de gás carbônico, primeiras luzes incertas, mas contendo a potência da vida. 

Era a hora indecisa, crepuscular, a hora das formações, em que o mundo dinâmico em plena eficiência, mas convulsionado pelos mais poderosos desequilíbrios, tentava novos caminhos, assomava desordenadamente às portas da vida.
Esses globos de fogo eram, então, os únicos habitantes do planeta; não excepcionais e instáveis como hoje, mas numerosíssimos e estáveis. Nem todos explodiam (morte violenta acidental). 

O íntimo movimento vorticoso tornava-se cada vez mais compacto. A condensação de u’a massa gasosa das dimensões de um dos raios globulares, que por vezes tornam a formar-se na Terra, vos mostra um volume da ordem de grandeza das primeiras massas protoplasmáticas. 

Assim mudou o peso específico e o primeiro organismo não pôde mais flutuar no ar. A onda gravífica incorporou-se à matéria que, lembrando-se, respondeu ao apelo íntimo; a condensação foi atraída e caiu. Mais pesados em virtude da condensação, as miríades de germes da vida cairam, arrastados pelas chuvas; caíram nas cálidas e vaporosas águas dos oceanos. 

A protoforma da vida chegara a seu berço. A matéria recebera o sopro divino: agora tinha de viver. As águas, sobre as quais se movera o espírito de Deus, tornaram-se a sede dos primeiros desenvolvimentos, que só mais tarde atingiram as terras emersas. O íntimo sistema do primeiro germe estabilizou-se cada vez mais, absorveu e fixou em seu ciclo novos elementos, complicou-se em seu íntimo metabolismo, agigantou-se, esboçou suas primeiras formas que foram vegetais, simples algas marinhas; diferenciou os primeiros traços característicos das várias ramificações dos sistemas biológicos. 

Assim, da matéria, retomada no turbilhão dinâmico, animada por novo impulso em forma de germe elétrico caído do céu, nasceu a vida. Não ouseis pensar na possibilidade de poderdes refazer uma síntese química da vida; de dominar o fenômeno sagrado, em que as maiores forças da evolução foram empenhadas. Desses tempos até hoje, a evolução realizou caminho incomensuravelmente longo e sua linha é irreversível. 

Para vós, é absolutamente impossível reproduzir condições definitivamente ultrapassadas. A fase que a energia atravessava então, era um estado substancialmente diferente do atual. A estrutura íntima da forma dinâmica, eletricidade, qual a observais, não possui mais aquelas propriedades, nem mais as possui o ambiente de ação. Hoje, a energia já viveu suas fases, como as viveu a matéria e, como está, encontra-se estabilizada em suas formas definitivas. 

Esses desequilíbrios de transição, esses momentos intermediários, essas fases de tentativas e de expectativas estão ultrapassadas nesse campo. Esses tipos já estão realizados e o transformismo evolutivo ferve alhures. No presente, a hora é de criações espirituais; matéria e energia esgotaram seu ciclo, não podeis mudar as trajetórias invioláveis dos desenvolvimentos fenomênicos. 

Pensai, além disso, que vós sois esse mesmo princípio que quereis dominar, levado a um nível superior. A Lei, que também vós representais, não pode voltar-se sobre si própria, para modificar-se a si mesma. Vós sois um momento do devenir do todo, desse momento não podeis sair.

Verdadeiramente, não imaginais o que quereis, nem o alcance de tal fato, nem que imensa e absurda desordem constituiria isso. Que significaria uma gênese artificial da vida hoje? O simples fato de acreditá-la possível vos mostra que não tendes a mínima idéia do funcionamento orgânico do universo. Essa gênese presume todos os períodos de maturação, períodos igualmente amplos de sucessivo desenvolvimento. 

Poder-se-ia hoje, sem preparação, iniciar novo processo evolutivo, para conduzi-lo num planeta que já começa a envelhecer-se? Os fenômenos são sempre dirigidos por uma causa determinante e com uma finalidade elevada e longínqua a atingir. Infelizmente fizesteis da ciência um conceito utilitário, prático, e credes que ela é acessível a todos e por qualquer meio. 

Ao invés, eu vos digo que o domínio dos fenômenos e o poder de determiná-los corresponde a leis precisas de maturação individual e coletiva, e não podem ser concebidos senão pelos detentores de elevação espiritual e de evolução da personalidade. Eu vos digo que, mesmo na ciência, há zonas sagradas, das quais temos que nos aproximar com senso de veneração e oração.

Só podemos caminhar em equilíbrio estável entre causa e efeito, neste campo do conhecimento em que se movimentam forças tremendas. Acreditais facilmente demais na possibilidade da loucura do arbítrio numa ordem suprema, tão complexa e perfeita! O domínio de fenômenos semelhantes vos daria poderes imensos. Que garantia pode dar vossa moral, ainda tão atrasada? 

Por isso, os fenômenos fundamentais e os pontos estratégicos da evolução permanecem guardados e protegidos zelosamente, contra vossa desastrosa intromissão, porque vossa ignorância é vossa impotência.

Não vos parece absurdo que um organismo de leis tão profundas, perfeito na eternidade, possa estar tão incompleto e ser tão vulnerável, que deixe aberto o flanco à possibilidade de subversões arbitrárias? 

Achareis natural que, dentro de uma ordem suprema, em que o equilíbrio reina soberano, exista também um feixe de forças especializadas na função de proteger as partes mais vitais do organismo, a fim de afastar qualquer violação, de anular qualquer causa de desordem, como seria, neste caso, exatamente vossa psique ou vontade, totalmente deseducada para o domínio consciente de semelhantes forças.

Como vossa vida tem sua sensibilidade e seus instintos, tanto mais despertos quanto mais vital o ponto que deve ser protegido, assim o universo tem suas defesas sempre prontas e em ação, pelo mesmo princípio de conservação e de ordem que vos sustenta.


22/05/2015


57. 

MOVIMENTOS VORTICOSOS 

E CARACTERES BIOLÓGICOS

 


Interação eletrofraca entre o par próton-elétron.





Outras características fundamentais, entretanto, possui o sistema cinético vorticoso, que o aproximam e assemelham aos fenômenos vitais. De tudo isso podeis tirar mais uma confirmação de que, como vos disse, é vorticosa a íntima estrutura do fenômeno biológico; disso, esta teoria vos dá uma profunda explicação que se harmoniza com a de todos os fenômenos existentes. 












O vórtice é apenas a expressão volumétrica daquela espiral que vimos ser a trajetória de todo fenômeno, a expressão gráfica do conceito que o dirige; aquela espiral, também aqui, no campo biológico, reaparece no organismo dinâmico do vórtice. 

Este corresponde ao princípio da espiral que se abre e se fecha e com isso se expande à maneira de respiração, que dilatando progressivamente a amplitude de seu ritmo, agiganta-se (crescimento orgânico e psíquico da vida). Já mostramos como a constituição desse movimento vorticoso leva-o a uma diferenciação do ambiente, isto é, uma individuação independente. 

Pode parecer-vos que haja um abismo entre a vida e a matéria, e a vida representa, no universo, uma subversão fundamental de leis. Não. Não há abismos na natureza, nem saltos, nem zonas de vácuo: tudo é continuação do que foi preparado precedentemente, desenvolvimento do que já existia em estado de germe.

Por isso, encontrais na biologia os mesmos princípios que despontam na química, embora mais desenvolvidos e elevados, e a passagem faz-se por uma maturação interior, que já eleva a uma combinação mais alta os elementos preexistentes. O princípio dirigente despertou, ele que dormia no âmago das coisas.

Esse processo de individuação do vórtice atômico, que se distingue no campo cinético do ambiente, corresponde à lei que já vimos, pela qual os seres, ao evoluir, passam do indistinto ao distinto; lei que se compensa, para que o todo não se pulverize no particular, como aquela dos reagrupamentos em unidades coletivas (um indivíduo biológico é simplesmente um organismo de sistemas vorticosos ligados e comunicantes). 

Enquanto a matéria apresenta-se individuada em formas que se repetem idênticas, a vida jamais apresentará duas exatamente iguais e seu comportamento terá sempre uma nota de individualidade. Em cada forma de vida existe uma distinção mais acentuada, ao mesmo tempo em que essa forma é uma unidade coletiva mais complexa em sua organicidade. 

Existe na vida uma individualidade de manifestações, que preludia o desenvolvimento da personalidade, e existe uma independência de movimentos em que já se sente o início do processo de transformação do determinismo físico no livre arbítrio do psiquismo. Evolução, com efeito, à proporção em que é descentralização cinética, é também expansão e liberação de movimento. 

Ora, essas características da vida nós a encontramos também nos movimentos vorticosos.Um caso de movimentos vorticosos mais concreto e mais susceptível de observação, para vós, é encontrado nos turbilhões, ciclones, sorvedouros, trombas marinhas e outros semelhantes. 

Um turbilhão é uma unidade dinâmica distinta do ambiente, com caracteres de individualidade, independente daquele em seus movimentos, com seu próprio ponto de origem (nascimento) e um ponto final (morte), quando sua energia e sua trajetória se esgotam. Ele resiste aos impulsos estranhos e, se admite forças em seu âmbito, modifica-as com um processo que relembra o conceito de assimilação. 

Mais que uma forma estática como no mundo físico, o turbilhão é essencialmente o desenvolvimento de um dinamismo. Sua essência, como na vida, está no devenir e mantém-se perfeitamente equilibrado numa transformação contínua. Há nisso algo do futuro psiquismo. 

Os materiais constitutivos são forma exterior e efeito, mais do que causa determinante: de fato, esses materiais mudam constantemente, ao passo que a forma, apesar de sua mutação, permanece idêntica a si mesma. O tipo da forma permanece, embora esta se modifique e também o material constitutivo que a atravessa. 

Este transforma-se numa correnteza contínua, que já vos fala daquele metabolismo, nota fundamental do mundo orgânico. Este se apresentará com sua característica fundamental de saber absorver e utilizar as energias ambientais disponíveis.

No turbilhão existe, portanto, uma troca, um poder de assimilação e, em sua capacidade de resistir aos impulsos externos, existe, em embrião, o que será o instinto de conservação. O vórtice eletrônico é simplesmente um turbilhão. O que atravessa seu sistema cinético são os átomos em constante substituição, na qual, eles se transmitem os caracteres essenciais, que não são os de suas propriedades físicas e químicas, mas aqueles que o sistema cinético, em que esses átomos são presos, confere a seu íntimo movimento. 

A natureza, já dada, daquele sistema, é uma capacidade, a priori, de entrar diversamente em combinação, segundo os vários tipos de movimento que o ambiente oferece. Isso será a capacidade de escolha, ou o poder de transformar diversamente, segundo o tipo orgânico, os próprios materiais do mundo exterior (mesma substância formará tecidos diferentes e órgãos, de acordo com o organismo que os tiver tomado em circulação). 

O princípio de inércia, que dirige este como todos os outros sistemas cinéticos, contém o germe da resistência às variações e do misoneísmo. 

Nesta absorção de materiais existe também projeção de forças e comunicação com o exterior por parte da individuação; o vórtice não é mais sistema cinético fechado, mas aberto; esses caminhos abertos para o exterior serão os caminhos da sensibilidade e da percepção que permitirão, num primeiro nível, simplesmente orgânico, a síntese protéica; depois, a assimilação; num nível mais alto, o acréscimo contínuo daquele núcleo psíquico, já que o turbilhão o contém em germe, até a maravilhosa dilatação de consciência que o homem alcançou, e além disso. 

O turbilhão tem uma vontade de reação que não é apenas resistência à deformação, mas é princípio ativo, que projeta para o exterior e modifica o ambiente; eis o germe da atividade humana que, modificando-se de acordo com as circunstâncias, por sua vez as modifica; é o germe da adaptação, de papel tão importante na variedade das espécies. 

Na natureza das formas dinâmicas (onda, direção, expansão) encontrais o primeiro germe daquele impulso que se transformará em vontade. No turbilhão, como na vida, existe um contato contínuo entre o interior e o exterior, essa permuta de ações e reações, esse escorar-se de impulsos e contra-impulsos, que sustentam a caminhada da evolução.

Mas não basta. O turbilhão possui não apenas a capacidade de resistências às deformações, aos desvios e à vontade de reação, mas também capacidade de registrar os movimentos que absorve e de conservação dos mesmos em seu âmbito, embora transformados para adaptá-los a si mesmo. 

Eis novos germes. Não apenas sensibilidade e percepção, mas a memória das impressões e a capacidade de fixá-las na personalidade e nas características da espécie, quer em modificações orgânicas, quer em capacidades psíquicas (automatismos, gênese dos instintos). (Aliás, que são os automatismos, senão movimentos introduzidos e estabilizados, por ação prolongada, no organismo cinético do vórtice?).

Capacidade de assimilação de impressões e, portanto, possibilidade de que aquela concentração cinética, em que a forma reduz-se a semente, contenha a gênese de todas as características adquiridas e a possibilidade de fazê-la, de novo, voltar a realizar-se e desenvolver-se (a criança é vivaz porque está no período de descentralização cinética. 

O adulto é mais profundo e vivaz, isto é, não física, mas psiquicamente porque a decentralização cinética penetra nas camadas mais profundas). A esses movimentos documentários, que resumem todo o passado vivido, deve-se a possibilidade da evolução.
O turbilhão tem uma vontade própria de penetração, uma vontade de permanecer em sua forma e de progredir em sua trajetória, tal como o ser vivo; vontade que se esgota como neste e como em qualquer transmissão dinâmica. 

O processo de degradação, pelo qual as qualidades úteis da energia transformam-se num refinamento de valores, é constante na vida, desde seu início até suas formas mais altas. O turbilhão nasce, vive e morre. Sabe contornar os obstáculos, conhece a lei do mínimo esforço, reconhece as resistências, luta com elas e desgasta-se. 

Cansa-se no esforço e extingue-se. Simples princípios dinâmicos, mas levados até às portas da vida. O turbilhão está saturado de eletricidade, daquela eletricidade de que conheceis os poderes de análise e de síntese, a forma máxima de $ \beta $, contígua a a; a forma de energia que encontramos presente e fundamental nos fenômenos da vida. 

Ao morrer, o turbilhão restitui ao ambiente não apenas o material físico que o constitui, mas também sua energia interior, o motor do sistema, sua pequena alma rudimentar. A indestrutibilidade da substância é universal. 

Como poderia, justamente na morte do animal e do homem, anular-se o princípio animador? É absurdo, pois seria a anulação de todas as leis do universo. Ao evoluir, o princípio vorticoso se reforçará de tal modo que não se perderá com a morte, mas será reabsorvido no campo dinâmico do ambiente e sobreviverá, não só como substância, mas também como individualidade. 

Essa sobrevivência será cada vez mais evidente e decisiva, à proporção que o princípio evoluir, consolidar-se e espiritualizar-se, deslocando para seu interior seu centro cinético; sobrevivência que se reforça e se define cada vez mais, mediante infinitas gradações, desde as formas vegetais, animais e humanas e, desigualmente, nos diferentes tipos de homens mais ou menos adiantados, e além. 

Daí podemos dizer, desde logo, que a morte não é igual para todos, pois nem todos sobrevivem igualmente à morte física, mas com diferente poder de consciência, de acordo com o grau de $ \alpha $ que tenha atingido. Uma última afinidade é encontrada no poder de cisão ou desdobramento dos turbilhões e de fusão de dois em um, fenômenos que, nos sistemas vorticosos eletrônicos, preludiam aquilo que será, mais tarde, a reprodução por cisão e a reprodução sexual. 

Os turbilhões podem fundir-se, desde que seus movimentos elementares não apresentam diferenças inconciliáveis de constituição cinética.

Todas essas observações vos mostram como, no turbilhão, podeis comprovar a existência de todas as características daquele sistema cinético vorticoso, o primeiro centro de origem eletrônica que gera a vida, e como ele já contém em germe as notas fundamentais do mundo biológico. 

Esse fato indiscutível constitui uma prova que não podeis recusar, da mesma natureza e da contiguidade evolutiva dos dois fenômenos afins: movimentos vorticosos e vida. Torna-se por isso evidente, também nesta prova, aquela íntima natureza cinética que lhe propicia a explicação mais profunda, tal como ocorreu relativamente aos fenômenos da matéria e da energia. 

Esta minha visão do problema biológico mostra vos, também, como ele será colocado por mim e desenvolvido. Ou seja, não como classificação botânica nem zoológica, mas como estudo da manifestação progressiva, descentralizadora do princípio da vida.

Meu pensamento caminha no âmago das coisas, aderente à substância dos fenômenos e quero mostrar-vos não a série das formas visíveis que já conheceis, e sobre as quais portanto é inútil demorar-me, mas o porquê delas, suas causas, as metas e o desenvolvimento interior do princípio cinético da Substância. 

Este princípio, embora transformando-se e ficando sempre idêntico a si mesmo, sabe tornar-se tudo no mundo dos últimos efeitos, acessível a vós. Somente desse modo serão solúveis muitos problemas psíquicos e espirituais, já que sua forma externa, a única que observais, jamais será suficiente para dar-vos a chave. 

Veremos, dessa maneira, pelo progresso da evolução, pela maturação dos fenômenos, pelo desenvolvimento dos sistemas cinéticos da Substância, a forma de espiritualizar-se e liberar-se, os envoltórios tornarem-se sutis e caírem. Os princípios de ascensão espiritual das religiões serão demonstrados por um processo racional, com lógica materialista. 

As supremas realidades do espírito, que vos aproximam de Deus, serão atingidas por um caminho que vos parecia imensamente longínquo: o da ciência objetiva.




14/05/2015


56. 

PARALELOS EM QUÍMICA ORGÂNICA










Procuraremos na química orgânica algum paralelo ou correspondência ao princípio dos movimentos vorticosos.
 




 




Depois de havermos observado a gênese da vida em sua íntima e profunda realidade, dispomo-nos agora a caminhar para o exterior, para aquela aparência, mais sensória, portanto, mais facilmente compreensível para vós. Vários fenômenos da química orgânica mostram-vos que a estrutura do fenômeno vital corresponde a dos movimentos vorticosos observados.
 
Enquanto as principais reações da química mineral são instantâneas e totais, as da química orgânica são, geralmente, progressivas e lentas. A mecânica das reações indica-vos que só no primeiro caso o equilíbrio químico do sistema é quase imediatamente atingido, ao passo que nas reações orgânicas é necessário muito tempo antes que se chegue a esse estado. 

Essas reações progressivas, mesmo simples em aparência, são em realidade uma superposição de reações sucessivas, que determinam produtos intermediários muito efêmeros para serem percebidos. Essa mobilidade química, aparentemente menor, é devida, em substância, ao sistema vorticoso que resiste (inércia) contra qualquer ação que tenda a deslocar-lhe o equilíbrio; ela é mais poderosa e profunda que o sistema atômico simples, porque, também, é um sistema mais complexo. 

O entrelaçamento das linhas de força que devem ser diversamente dirigidas é muito mais amplo, mas em compensação, pela mesma razão, o sistema está apto a conservar por mais tempo os tipos de movimento uma vez omitidos e absorvidos (germe da hereditariedade).
 
Somente este dinamismo mais profundo, cuja estrutura cinética estudamos, podia produzir a síntese química da vida a partir da matéria inorgânica. A substância dos intercâmbios vitais consiste num ciclo, mediante o qual o íntimo dinamismo do sistema transporta a matéria inorgânica em combinações químicas para ela extraordinárias e complicadíssimas, que jamais teria conseguido sozinha. 

A característica da química da vida é a necessidade de uma contínua renovação íntima, com a qual se reconstitui de uma rápida deterioração; um desfazer-se constante de equilíbrios que, no entanto, reconstroem-se sempre, de modo que, no conjunto, o equilíbrio permanece, mas condicionado por intenso e íntimo trabalho. 

A estabilidade permanece através da instabilidade de todos os seus momentos, à custa de ser uma correnteza em movimento. A própria morte, que parece a destruição do edifício — porque determina o momento em que os elementos se apressam a descer os degraus dessa estrutura muito complexa, a fim de retornarem ao seu estado primitivo mais simples — não representa incapacidade de manter-se no mais alto equilíbrio da vida, mas é efeito da rápida sucessão sempre ativa, que jamais pára, do dinamismo do sistema. 

Morte é sinônimo de renovação. Por isso, a vida persiste perenemente no ritmo veloz de seu devenir. Fenômeno antiestático por excelência, a vida não é possível sem renovação. O processo vital é a resultante evidente do movimento contínuo de introdução e expulsão, de associação e de desassociação, de anabolismo (assimilação) e de catabolismo (desassimilação), o que leva à regeneração constante das células. 

A vida, desde sua primitiva fase orgânica, que só contém os primeiros rudimentos do psiquismo, é sua meta — no homem atingirá sua autonomia — é dinamismo intenso produzido por contínuo e complexo decompor-se e recompor-se da matéria em combinações químicas fugacíssimas. Dentro desse dinamismo, as substâncias são tomadas e levadas através do organismo, são absorvidas, assimiladas, fundidas na palpitação vital e, depois de haver demorado nele, são eliminadas. 

Sua passagem pelo ciclo orgânico é, para essas substâncias, uma espécie de febre, de corrida insólita, da qual escapam para repousar em seu equilíbrio químico inorgânico assim que se livram dessa imposição. Ora, é esse exatamente o fenômeno que ocorre num turbilhão, que prende em seu movimento rotatório sobretudo os corpos leves (peso atômico baixo, menor resistência ou inércia), arrasta-os no seu vórtice e, finalmente, abandona-os. 

Acontece isso enquanto, constantemente, muda o material constitutivo do turbilhão, embora conserve independente sua individualidade. Quem mantém intacto, num e noutro caso desses dois fenômenos afins, esse equilíbrio superior, enquanto dentro de si os edifícios atômicos passam rapidamente de um sistema de equilíbrio a outro? Quem dá a essa instabilidade o poder de manter-se indefinidamente, de retificar-se, de reconstituir-se a força de resistir contra todos os impulsos contrários, que tendem a trazer desvios? 

O fenômeno da vida não é fenômeno transitório nem acidental. Seus equilíbrios instáveis não são meros acasos químicos, porque eles se fixaram substancialmente no caminho da evolução. Onde se encontrará essa nova capacidade de autonomia, absolutamente desconhecida no mundo da química inorgânica, senão na estrutura especial cinética dos movimentos vorticosos? 

Diante do insuperável determinismo da matéria, encontramo-nos aqui nos primeiros passos daquela ascensão que levará, na fase de consciência, ao livre arbítrio, uma novíssima liberdade de movimentos que, no entanto, não destrói o equilíbrio nem a estabilidade integral do sistema. Sem dúvida o movimento vorticoso enfeixa o processo típico de isolamento, no ambiente, de um sistema de forças, portanto, princípio da individualidade. 

Um turbilhão de forças já é um eu distinto de tudo o que o circunda, com o qual entra em relação, mas não se funde com o devenir, que tem direção e meta própria, com uma troca e um princípio diretor de funcionamento que dá, de imediato, a imagem do organismo e da vida. 

Só o sistema cinético do vórtice contém as características de elasticidade, de equilíbrio móvel, tão distantes da rigidez inorgânica, que lembram tanto o estado coloidal, fundamental na vida. Este, ao mesmo tempo que assegura a estabilidade da estrutura dos protoplasmas vivos, neles favorece maravilhosamente o desenvolvimento das reações químicas. 

O vórtice recebe e reage; admite, em vista de sua estrutura, uma muito maior velocidade de reações do que o sistema atômico e por isso é a sede mais adequada para a evolução das reações químicas. Sistema plástico, móvel e flexível, tal como a vida; no entanto, resistente. 

Ele tem a faculdade de assimilar os impulsos exteriores, de torná-los próprios sem quebrá-los, de conservar-lhes traços no próprio movimento e de registrar a resultante de suas combinações (memória). Ele rende-se e transforma-se, suporta, mas não esquece nada.
 

Sua elasticidade significa a capacidade de retomar o equilíbrio de acordo com a lei de seu movimento. Passivo e ativo ao mesmo tempo, tangencia todas as características da vida.
Outra aproximação entre as características dos fenômenos vitais e a dos movimentos vorticosos: a admissão da matéria na circulação da vida não ocorre ao acaso. Vimos que são preferidos os pesos atômicos baixos mas não é só. 

O vórtice vital estabelece ligações entre átomo e átomo. Quando estes são tomados no movimento da vida, estabelecem-se entre eles vias de comunicação. Enquanto na química inorgânica só temos os movimentos planetários dos sistemas atômicos fechados, simplesmente coordenados em sistemas moleculares, em equilíbrio estável; na química orgânica temos sistemas atômicos abertos e comunicantes, em equilíbrio instável. 

Os átomos estão reunidos em cadeia e tornam-se solidários dentro de um mesmo fluxo dinâmico, guiados pelo mesmo impulso e pela mesma vontade. Na matéria, ficam mutuamente estranhos em sua estrutura íntima, embora vizinhos e equilibrados. Na vida, apertam-se num abraço e movimentam-se numa única direção. Esta é a base da unidade orgânica. 

Quando a unidade se dissolve, as passagens fecham-se, os sistemas tornam a isolar-se, reciprocamente indiferentes. Com o vórtice, terminou aquela vontade coletiva que os irmanava. Essas cadeias dinâmicas são abertas. Os átomos presos no turbilhão vital são modificados em seu movimento íntimo e arrastados num movimento diferente. Nessa viagem, são elaborados, sua constituição química é modificada.
 
Terminado seu trajeto, são abandonados não mais vivos, mas inertes. Os átomos são, assim, alinhados em séries bipolares e a viagem da vida realiza-se entre dois extremos: nascimento e morte.
 
Agora sabeis que somente as substâncias orgânicas, constituídas de cadeias abertas de átomos (ou grupo de átomos) são aceitas pelos seres no âmbito da vida, enquanto as substâncias cíclicas, os compostos de cadeia fechada, não são tolerados. Tudo isso coincide com a estrutura cinética do sistema vorticoso, aberto e pronto a admitir no próprio âmbito sempre novos impulsos. 

É óbvio que, num sistema cíclico, uma cadeia de átomos fechada em si mesma não pode ser admitida, porque não oferece acesso. A linha das transformações químicas é dada pelo eixo do sistema vorticoso.
 
Vimos que esse eixo era dado pela onda degradada de $ \beta $. Assim, cada indivíduo biológico, se é físico no exterior, é sempre, embora em graus diferentes, psíquico em seu centro interior, justamente porque é de origem elétrica o eixo do sistema vorticoso. Nos primeiros níveis, a eletricidade e o psiquismo, que dela nascerá nos níveis mais elevados, estão sempre no centro do fenômeno vital. 

Como o eixo atrai para o redor de si um sistema vorticoso, assim o princípio psíquico atrai e sustenta em torno de si uma vestimenta orgânica. Então, a linha do transformismo vital — seja cadeia de reações químicas, seja desenvolvimento individual, seja evolução biológica — já estava traçada e contida na linha da expansão dinâmica (onda). Vede como a evolução da vida, em seu impulso interior, determinante das formas, está em linha de continuidade com a difusão de $ \beta $ e com a evolução das espécies dinâmicas.