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23/06/2015



69. 

A SABEDORIA DO PSIQUISMO

 





Se olhais em torno de vós, vereis que as formas de vida revelam sabedoria profunda. 












Mesmo nas individuações da matéria, o ser material é filho de um germe cristalino, de um impulso que emana do infinito, caracterizando-se em sua forma típica de cristal, como o ser vivo o é em sua forma anatômica; quando mutilado, sabe igualmente reparar sua mutilação. 

Mas em qualquer campo, cada fenômeno é uma afirmação, uma resistência às perturbações, uma vontade de ser em sua forma, uma diferenciação do ambiente para poder dizer: 

eu”

Nos altos níveis da vida, à sabedoria química do íntimo metabolismo celular acrescentam-se a sabedoria técnica da construção de órgãos e a sabedoria que dirige seu funcionamento, para uso dos objetivos internos e externos da vida. O complexo edifício é um transformismo dirigido para a luminosidade do psiquismo.

Há uma necessidade de beleza nas formas da vida. Aquele material orgânico comum que os seres roubam uns dos outros, comendo-se mutuamente, tende a plasmar-se numa forma que exprime a íntima aspiração estética. Já a própria célula é um pequeno ser vivo, que concentra todas as potencialidades da vida e as qualidades do organismo, porque se move, respira, nutre-se (assimila e desassimila), cresce, segrega, reproduz, nasce e morre, sente o ambiente e reage a ele.
 
Desde sua primeira unidade, a vida muda continuamente, quer exprimir-se sempre em suas formas mais altas e complexas. Há sempre grande necessidade de subir e de revelar em si mesma essa ascensão; ao mesmo tempo, vê-se uma necessidade de prudência, que teme aventurar-se ao perigo de tentativas dirigidas a equilíbrios muito avançados e afastados da segura estabilidade dos equilíbrios já experimentados. 

Assim, a vida oscila entre as velhas estradas já conhecidas e seguras, já percorridas nas primeiras e mais simples estabilizações de movimento — as mais resistentes aos choques ambientais — entre a necessidade de conservar-se e proteger-se, mantendo-se na linha do passado (misoneísmo), e a necessidade de absorver, em sua estrutura cinética e de tornar suas, assimilando-as, novas linhas de força, obedecendo ao irresistível impulso ascensional da evolução (inovar-se, revolucionar-se). 

A vida se equilibra assim (até mesmo no campo intelectual e social), entre as tendências conservadoras e as criadoras, e segue adiante na luta entre duas forças opostas: da hereditariedade e da evolução (variações da espécie). A natureza avança, mas com muita prudência. 



As grandes florescências orgânicas só acontecem em períodos particulares, como aqueles a vós revelados pelas descobertas paleontológicas; períodos de transição rápida, em que os edifícios dinâmicos, muito saturados dos novos impulsos assimilados, precipitam em tentativas de formas novíssimas, em que a vida, depois de longas fases de incubação silenciosa, explode numa inopinada febre de criação. Tentativas nem todas bem sobrevividas, períodos de construções apressadas e monstruosas, mas que lançaram as bases de novos órgãos, de novas espécies, de novos instintos. 

Hoje, a fase das formações biológicas tornou-se um passado superado. Os seres que vedes, animais ou plantas, são tipos sobreviventes da evolução, vitoriosos na grande luta da vida. Não podeis observar a evolução, mas apenas suas consequências. A elaboração presente acha-se em outro nível.
 
Período semelhante, de apressadas e monstruosas criações paleontológicas, viveis hoje, mas não como unidades orgânicas, e sim como unidades psíquicas, com a mesma febre de criação (paixões), com a mesma monstruosidade de formas espirituais (erros e mentiras), com a mesma incerteza e instabilidade. Também no campo psíquico e social, a Lei continua no mesmo ritmo. Também o equilíbrio espiritual do mundo oscilou sempre entre o impulso de conservação e o de revolução. 

Algumas células sociais tendem a manter-se na senda dos equilíbrios estáveis e seguros, conhecidos, mas fechados, do passado. Outras células personificam as tendências opostas, destróem e reedificam, tentando sempre caminhos novos, em incessante dinamismo; representam o princípio da revolução, diante do princípio da conservação.
 
São os pioneiros que vivem perigosamente, que dão tudo de si e arriscam tudo, que assaltam e atormentam, mas são os únicos que criam. 

O mundo dormiu por milênios na estase de um ritmo monótono, que voltava sempre sobre si mesmo, nos mesmos pontos que pareciam fixos (princípio de conservação); mas não sabeis que lento trabalho subterrâneo de amadurecimento e de assimilação ocorria no mundo psíquico-social, fazendo com que o equilíbrio estável e fechado se precipitasse um dia na revolução. 

O segundo impulso oposto das inovações tomou hoje a primazia e a alma do mundo tenta, nas pegadas dos grandes pioneiros que falaram sozinhos, há muito tempo, as criações futuras: criações psíquicas, biológicas. No resto deste século vosso trabalho individual e de massa decide a respeito dos futuros milênios.
 
Naquelas fases primordiais das formações orgânicas, a maleabilidade do plasma dobrou-se à pressão do explosivo psiquismo interior, ávido de expressar-se, modelando as formas. Ao lado da formação de órgãos internos cada vez mais complexos, houve uma florescência exterior de todos os meios de ataque e defesa, que a luta contínua impunha.
 
A planta estende suas gavinhas como órgão preênsil para agarrar: produz no espinho a primeira garra para ofender; inventa a astúcia de economizar movimento, lançando sementes aladas ao vento, ou pregando-a nos animais que passam; a arte de envolver as sementes de saboroso fruto, não para alegria do homem, mas porque este, ao comê-lo, leva involuntariamente para longe as sementes; a arte dos perfumes e a estética das cores e das formas, porque também a beleza atrai e é grande necessidade no baixo mundo biológico: a beleza, ao lado da luta, é necessidade universal e protege, como um dom sagrado e divino que dá alegria, diante do qual o agressor para, quase reverente, detido pelo medo de perturbar a harmonia divina. 

Todos os segredos da mecânica, da química, da eletricidade são utilizados: nascem patas, asas, antenas, chifres, tenazes, bicos, presas, ferrões; a arte sutil dos venenos, da fosforescência, do hipnotismo, das ondas elétricas; o psiquismo retifica no olho as imagens visíveis; a arte dos sentidos desenvolve-os cada vez mais finos e complexos, sempre de atalaia; não há descoberta humana que antes não tenha sido encontrada e utilizada pela natureza.
 


Todos esses meios sábios são utilizados com sabedoria ainda maior. Os tecidos são regidos por uma força racional que lhes guia as funções, por isso, o tubo digestivo que digere o plasma, não digere a si mesmo; as glândulas que segregam o veneno, não envenenam a si mesmas. Há ainda o mimetismo, a arte da mentira, e também, a da fuga para os fracos. Por que falta somente uma — a arte da compaixão? 

Porque esta é conquista mais alta, a que só o homem saberá chegar e, como verdadeiro rei, só ele saberá conceber dominando toda a vida no planeta. No uso dos órgãos e instrumentos de ataque e de defesa, a vida manifesta mais evidente seu psiquismo. É ciência sem piedade, mas é ciência.
 
A natureza assegura a sobrevivência das espécies construindo organismos em grandes séries, lançando germes no campo da vida com a máxima prodigalidade. 

A fonte primária, que brota no âmago da substância, aparece-vos com um poder ilimitado e inexaurível; o que lhe delimita a expansão, a força que freia a multiplicação dos seres, reside sobretudo na limitação dos meios ambientais, limitação da qual nasce a luta cuja função principal é a seleção do melhor. 

Sem a rivalidade do vizinho que modera sua expansão, cada espécie sozinha invadiria todo o planeta. A Lei é sábia e alcança seus objetivos. 

Aparece, assim, a vida como desenfreada concorrência de apetites, em que tudo é obtido com a força ou com a astúcia. Este é o nível do animal que não tem horror a seu estado, porque sua sensibilidade é proporcional a ele. O animal é feroz com toda a inocência e nem por isso é imoral, mas simplesmente amoral. 

Nesse nível a vida é contínua guerra, é um atirar-se a ataques aos quais apenas os mais fortes resistem, esse é o estado normal. Aí a bondade é fraqueza e falência. A bondade é flor mais delicada que a sabedoria; nasceu depois, muito mais no alto na escada da evolução.
 
Mas aquela sabedoria já era profunda. O instinto conhece química, anatomia; em alguns casos sabe até anestesiar o inimigo, com injeções nos gânglios nervosos, no ponto estratégico que paralisa os movimentos. 

Uma espécie de himenópteros, necessitados de provisões imóveis, mas vivas, conhecia anatomia e anestesia antes do homem. O instinto tem previdências incríveis, sobretudo em seres primitivos.
 
Um exemplo entre os coleópteros: a larva lignívora do capricórnio (cerambix miles) nascida cega, surda, sem olfato, com apenas um pouco de paladar e de tato - esse rudimento de sensibilidade que nenhuma aquisição psíquica pode obter no ambiente (no caso, é um tronco de carvalho, onde vive perfurando e digerindo) — esse pobre tubo digestivo possui uma sabedoria imensamente superior à sua organização e a seus meios, comporta-se com uma racionalidade e presciência extraordinárias. 



Prepara, com antecipação, um caminho de saída do tronco, que não poderia furar no estado de inseto perfeito; constrói, perto da saída, uma cavidade para sua maturação de ninfa; fecha-se dentro dela com o corpo orientado para a saída, pois sem essa precaução o inseto adulto, todo encouraçado não poderia dobrar-se para sair. E tantas outras coisas sabe por antecipação! Donde lhe vem essa ciência? 

Não sabeis responder. Mas pensai que, se a forma visível é um verme, ele sintetiza em seu psiquismo o princípio que resume todas as formas que o inseto assume e que, em sua vida, adotou há milênios; pensai que esse verme traz em seu psiquismo a recordação de todas as experiências vividas como inseto perfeito; em outros termos, o fenômeno está sempre potencialmente completo, mesmo na fase de transição que vedes, porque, se a forma mutável se transforma, o psiquismo animador está sempre todo presente a cada momento de suas sucessivas manifestações. 

Então, no psiquismo estão os recursos dessa ciência superior às aparências da forma. Chamastes a isso de instinto e não sabeis explicar, num instinto, uma racionalidade tão previdente. 

O instinto não é inferior à razão humana, a não ser pelo campo mais limitado que domina e pelo fato de que, sendo, como evolução, mais próximo do determinismo da matéria, é fenômeno mais simples e mecânico; enquanto o espírito, por evolução, distanciou-se mais da matéria e conquistou aquela complexidade e riqueza de caminhos que denominais de livre-arbítrio, característica, como vimos, da fase das criações.
 
Cada ser, tanto quanto o homem, traz consigo esse sutil psiquismo que lhe dirige as funções orgânicas; que lhe mantém constantemente a identidade, apesar da contínua renovação completa dos materiais que constituem o organismo; prepara-lhe e dirige o desenvolvimento e as ações, com uma precognição que só sabe quem viveu e recorda. 

Sem esse psiquismo, não se explica como os sempre novos materiais da vida voltam exatamente a seu posto de funcionamento; não se explica como a corrente de tantos elementos heterogêneos esteja ligada em continuidade; como, de todas as impressões transmitidas pelo ambiente, só algumas sejam assimiladas, outras corrigidas, outras repelidas. 

Esse princípio resume, verdadeiramente a hereditariedade das características adquiridas, implanta-se no germe e lhe dá novamente a marca recebida das impressões e experiências vividas. Ele precede o nascimento e sobrevive à morte, mesmo nos animais, também eles — e é justo — pequenos fragmentos de imortalidades e de eternidade; ele renasce continuamente, enriquecendo-se com a experiência de cada existência. 

Vós mesmos podeis verificar com a domesticação e adestramento, que nos animais as portas do instinto não estão fechadas, ou seja, ele tem ainda, sob vossos olhos, a capacidade de enriquecer-se com qualidades, de assimilar coisas novas. Há sempre uma possibilidade de progresso no raciocínio cristalizado do instinto. As qualidades, mesmo no homem, nutrem-se, continuamente por seu exercício cotidiano. 



O psiquismo plasma-se num processo de constante elaboração: no campo orgânico, como no psíquico, a falta de uso atrofia e destrói, da mesma forma que a atividade cria órgãos e aptidões (daí a necessidade biológica do trabalho).
 
Falei de um inseto, mas os casos são infinitos. Sem esses conceitos, o fenômeno do instinto, de sua formação, de sua presciência, e os próprios fenômenos da hereditariedade permaneceriam no mistério insolúvel.
 
A presença de um psiquismo diretor torna-se evidente no fenômeno da histólise do inseto. Aí não encontrais mais uma sabedoria funcional, de órgãos internos ou externos, nem a sabedoria que dirige as ações do animal. 

histólise do inseto

Aí se revela uma sabedoria mais profunda: a que sabe criar um organismo novo a partir de um organismo desfeito. Nesse fenômeno ocorrem metamorfoses profundas, que revelam a presença de um psiquismo, de maneira ainda mais evidente que nas reparações orgânicas que já observamos. 

No estado de crisálida, acontece em vários insetos (lepidópteros) que se fecham no invólucro protetor, fenômeno misterioso, no qual órgãos e tecidos desagregam-se, perdendo seus caracteres distintivos assim como a estrutura celular anterior, numa pasta uniforme, amorfa, em que não se percebem sobrevivências da organização demolida. 

A essa espécie de desmaterialização orgânica segue-se nova reconstrução, verdadeira histogênese, em que novo organismo ressurge tão diferente na constituição orgânica, que não se pode considerar preso ao precedente mediante relações diretas de derivação. 

O psiquismo diretor do dinamismo fisiológico, mesmo na reparação orgânica imediatamente ativo no complexo quimismo da vida, emerge aqui em toda a sua independência, a partir da forma, e mostra seu completo domínio sobre esta, porque dela se destaca, desmaterializa-a e a reconstrói diferentemente, sem continuidade fisiológica, exorbitando todas as potencialidades construtivas do organismo. 

É necessário substituir o conceito absurdo de funções — efeito de uma natureza específica de células e tecidos e de uma localização funcional, em estreita dependência de uma especialização na estrutura de órgãos e funções — pelo conceito de um psiquismo superior independente e dirigente, de que as formas são apenas a manifestação. 

Ele as plasma, dirigindo-lhe o íntimo metabolismo incessante e, quando este tem de enfrentar de um salto as maiores distâncias, em metamorfoses profundas, que implicam solução de continuidade no desenvolvimento fisiológico, então o psiquismo permanece como único fio condutor do fenômeno, que permanece único e contínuo, embora, de modo inexplicável, pareça quebrado. 

Não há aí, portanto, uma substância orgânica que, de acordo com a conformação diferente e com a estrutura celular alcançada por evolução, dê lugar a funções específicas, cuja causa seja perceptível apenas na especialização do material orgânico, mas existe um psiquismo diretor que modela o plasma, para que este possa exprimir a função, de acordo com o impulso recebido. 

A solução dos mais profundos problemas biológicos reside somente nesta ultrafisiologia do psiquismo.





22/06/2015


68. 

A GRANDE SINFONIA DA VIDA

 






Olhemos novamente as harmonias da vida em seu mais profundo aspecto científico.











Também isto constitui sempre uma contemplação da beleza divina. A visão estética alimenta e eleva como a visão conceptual, que vos dá a chave daquela beleza. 

De fato, fé, arte e ciência são um canto único no seio da mesma harmonia. O mundo biológico é todo um edifício de maravilhosa arquitetura, um organismo de correspondências e permutas, uma sinfonia de harmonias e equilíbrios perfeitos.
 
Vimos que os elementos com os quais a vida constitui sua roupagem orgânica — ao mesmo tempo expressão e elaboração do psiquismo — são Hidrogênio, Carbono, Nitrogênio e Oxigênio, existentes em grande abundância na atmosfera, no momento da gênese. 

Esses são os corpos que encontrais como elementos organógenos na estrutura plasmática, nestas proporções: 

Carbono 53%, Oxigênio 23%, Nitrogênio 17%, Hidrogênio 7%. 

São encontrados no corpo humano aproximadamente nas mesmas proporções (tipo médio): 

Oxigênio 44 Kg, Carbono 22Kg, Hidrogênio 7Kg, Nitrogênio 1Kg etc. 

Todos os compostos orgânicos são construídos com esses elementos que, na grande mobilidade dos edifícios químicos da vida, circulam em permutas incessantes. 

O material orgânico é coletivo, circulante, como uma correnteza, por organismos comunicantes, como um patrimônio comum, de onde cada ser o colhe para construir a forma mais adequada à expressão e ao desenvolvimento do seu próprio psiquismo.
 
A máquina apropriada e especializada para a construção desse material, por meio dos quatro elementos, é a planta. Vimos como ela surgiu no seio das águas. As primeiras plantas, gelatinosas, a boiar nos mares, começaram a realizar a síntese dos materiais orgânicos do mundo inorgânico. 

O maravilhoso quimismo das folhas verdes iniciou a transformação da matéria morta em matéria viva, captando ao mesmo tempo e armazenando a energia que vinha da grande fonte solar. Iniciada a construção da matéria viva, esta aumentava continuamente e se acumulava, enriquecendo o patrimônio coletivo, que depois entraria em circulação nas permutas inversas entre vida vegetal e vida animal. Observai o maravilhoso equilíbrio. 

Enquanto as plantas possuem poderes construtivos e dedicam-se à função de aumentar a massa dos produtos orgânicos do planeta, os animais vivem da destruição desses produtos, utilizando para sua vida a energia solar fixada pelas plantas no material orgânico construído por elas. A planta produz, o animal consome.
 
São duas máquinas com funções opostas e inversas. A planta forma a matéria orgânica; o animal, com um processo de lenta combustão, derruba a construção, restituindo o material às condições primitivas. O primeiro processo de síntese se equilibra no segundo processo complementar de decomposição.
 


Cabe, pois, à planta, a glória de ter sabido cumprir o esforço da primeira construção orgânica; sem ela, a superior vida animal não teria podido formar-se e subsistir. Hoje, também deveis vossa vida ao trabalho construtivo das plantas.
 
No estado natural, os elementos químicos básicos da vida acham-se combinados entre si, ou seja, Carbono e Hidrogênio unidos com Oxigênio, sob a forma de anidrido carbônico (CO2) e água (H2O). 

A planta é a máquina que realiza a separação do Carbono e Hidrogênio, do Oxigênio. Na molécula de anidrido carbônico, composta de um átomo de Carbono e dois de Oxigênio, a planta libera no ar o Oxigênio e assimila o Carbono. 

Na molécula da água, construída com dois átomos de Hidrogênio combinados com um átomo de Oxigênio, o processo é igual: libera no ar o Oxigênio e assimila o Hidrogênio.
 
No animal ocorre o processo inverso. Na respiração, ele recombina o oxigênio com o carbono e o hidrogênio e, assim combinados, ele os restitui sob a forma de anidrido carbônico e água. 

Assim, animais e plantas realizam sua inversa respiração e, na contínua compensação das funções invertidas, mantém-se o equilíbrio. Esse antagonismo de funções vegetais e animais permite que a vida possa perdurar indefinidamente. Também na vida nada se cria e nada se destrói, mas tudo se transforma. 

Eis a nova confirmação do princípio geral, pelo qual cada fenômeno jamais se move numa direção única, retilínea, mas, ao invés, é cíclica, com inversões e retornos sobre si mesmo. Mesmo na química da vida, o que nasce morre, e o que morre renasce.
 
Imaginai em que imensa usina de construções vitais se transformou a Terra, com a progressiva expansão de plantas sobre os continentes emersos. Mares ilimitados de substância verde trabalham sem repouso na construção da matéria prima, de que depois formar-se-á cada ser vivo. 

Miríades de folhas estendem-se ao sol, ávidas para surpreender e agarrar cada átomo de carbono e cada raio de luz. O ar que circula entre elas fornece o anidrido carbônico e, sob a ação da luz, a clorofila absorve-lhe a vida, alimentando-se de carbono. 



Não se perde um único átomo dele, o imenso mar de folhas aspira cada molécula do alimento gasoso. Nem um raio de sol cai inútil. A torrente de luz, onde quer que desça, fecunda uma vida. 

A química orgânica, em sua instabilidade, mantém escancaradas as portas e transforma a substância da energia em vida. Debaixo de vossos olhos, pelos campos intermináveis, realiza-se a cada instante a transformação de $ \beta $ em $ \alpha $

E o prodígio dessa transformação realizado a cada dia pelas plantas, criaturas menores, irmãs vossas, verdadeiras máquinas sintéticas de ação solar. Se não houvesse quem, nos primeiros degraus da vida, realizasse este primeiro trabalho de transformação, nem mesmo seria possível o trabalho mais elevado que realizais no campo orgânico e psíquico.
 
O equilíbrio vegetal-animal completa-se aqui em equilíbrio mais amplo, porque essa permuta contínua de combinações químicas comunicantes inclui no fundo uma permuta dinâmica em que, por meio de contínuas transformações, a energia transmite-se e circula de forma em forma, de ser em ser. 



Tudo deriva da grande fonte de energia que é o sol. Observai como são perceptíveis, no seio do sistema solar, todas as fases do transformismo. 

No sol ocorre a primeira transformação físico-dinâmica: a matéria dissolve-se em radiações que, interceptadas pela Terra, aí se transformam em vida. No transformismo da matéria nada se destrói. 

As plantas fixam a energia solar e dela se alimentam para as finalidades da vida. O sol desagrega seus materiais, as radiações chegam à Terra, a vida cresce sem cessar. 

Tudo provém da doação de si, do centro do sistema. Os compostos químicos, pelo irrefreável impulso profundo da evolução, combinam-se em fórmulas cada vez mais complexas. As máquinas vivas acumulam energia solar, transformando-a em compostos de cada vez mais alta estrutura química. 

O animal, por sua vez, se destrói grandes quantidades de material orgânico fornecido pelas plantas, reconstrói, como qualidade, o que se destruiu como quantidade (o potencial da substância indestrutível permanece sempre idêntico), realizando operações químicas e fabricando materiais ainda mais complexos. Complexidade progressiva, expressão e meio de construção de um psiquismo íntimo e progressivo, diretor do fenômeno.
 
Se nas plantas temos o primeiro degrau da transformação da energia em vida e da constituição do material orgânico, no animal, subimos a um degrau mais alto: o da transformação da vida em psiquismo. A destruição do produto da vida das plantas significa construção de um material ainda mais perfeito: o espírito. 

Divisão de trabalho, especialização de funções, transformações contínuas e infinitesimais deslocamentos progressivos. Só no animal começa verdadeiramente a função específica da constituição daquele psiquismo cuja gênese observamos, e que se tornará, à medida que sobe, cada vez mais a nota fundamental dos fenômenos vitais. 


Vede como da matéria solar chega-se, por sucessivas transformações, aos fenômenos do espírito; em cada uma dessas transformações podeis descobrir sempre a mesma substância que, embora mudando de forma, nada aumenta e nada destrói de si mesma, mas se refina seu modo de ser com qualidades cada vez mais sutis, complexas e perfeitas.
 
O físio-dínamo-psiquismo de minha síntese monista o vedes aqui tangível, fato objetivo, realidade vossa cotidiana, e não é possível negá-lo.
 
Esse transformismo é um ciclo compacto, inalterável, em que estão presos e amarrados todos os fenômenos. 

Nem a experiência, nem a lógica vos permitem escapar. A energia solar, assimilada e transformada pelas plantas, torna-se, no animal, calor, movimento, e, como última transformação do dinamismo vital, energia nervosa. Esta, no homem, torna-se
função psíquica e espiritual. 

Eis traçada a linha que, através das espécies físicas, dinâmicas e psíquicas, une a matéria ao gênio. Eis onde, depois de tantas transformações, culmina a energia das radiações solares. 

Das torrentes ilimitadas só encontrais um riacho, mas sua potência e sua perfeição nada vos fizeram perder da substância.
 
No ápice de todo o grande trabalho, o termo mais alto da escada de vosso universo, a máquina mais complexa e delicada, é vossa psique. 

Nos órgãos sensórios ocorre continuamente essa elevação de vibrações ambientais em vibrações de ordem superior; pelo ouvido, o som torna-se música; pelos olhos, a luz torna-se beleza; pelos sentidos, o choque das forças ambientais torna-se instinto e consciência. A energia é transformada, por meio do mecanismo da vida, de suas formas inferiores nas mais altas formas nervosas de sensação, sentimento e pensamento. 

As individuações biológicas constituem centros de elaboração da substância, em que atua o transformismo evolutivo da fase b para a. Assim à
florescência da vida, realizada por meio das radiações solares, ascende a florescência de consciência. 

Como a energia universal espalhou por toda a parte a vida, assim esta, por profunda elaboração, gera em toda parte o psiquismo. O grande rio da energia, que tinha sido matéria, transforma-se no mar imenso da vida, que se transforma em consciência. 

O universo, que caminhara até a vida, finalmente sente e olha para si mesmo. Na co-participação do material orgânico, entre todos os seres vivos, reside a origem da lei básica da vida: 

a luta.
 
 
O universo sente e olha para si mesmo



O que vos devia tornar irmãos, vos faz também, inevitavelmente, rivais. O patrimônio comum, obtido por longas e laboriosas transformações, é limitado; a substância que constitui um organismo, é ótimo material de nutrição para o outro. Daí a luta, o recíproco dilacerar-se, a rivalidade orgânica de tantos aparelhos digestivos, mais ou menos complexos e evoluídos, armados com todos os instrumentos de ataque e defesa da vida. 

Esta é, indiscutivelmente, a lei do planeta no nível animal; mas o homem, com seu psiquismo, começa a elevar-se acima dela, então percebe a diferença. O horror que o homem experimenta, pelas formas ferozes e agressivas da vida, é proporcional a seu grau de evolução. 

Os homens inferiores, ainda não emergidos espiritualmente da fase animal, podem agitar-se felizes numa forma de vida brutal e atroz, que para eles é a expressão normal da própria natureza. 

Mas os seres mais evoluídos, embora fisicamente vestidos com um corpo humano, organicamente semelhante, não podem evitar de sentir, é absolutamente inadmissível, esse sistema de vida e se encontram numa encruzilhada: ou aceitar uma vida bestial, ou lutar para civilizar a humanidade. 

Esta é nova forma de luta, que os primeiros ainda não enxergam, imersos como estão na luta a nível animal; não enxergam e condenam os outros, pois os separam abismos de incompreensão. No entanto, são os únicos ativos e verdadeiramente produtores, são os grandes que arrastam o mundo: são as antenas da evolução.
 
A inteligência e a ciência, dominando as forças naturais, submetem a natureza ao homem, provendo as necessidades materiais, e eliminam a necessidade da luta em suas formas brutais inferiores; sutilizam-na e a transformam em luta nervosa e psíquica, dirigida a conquistas superiores. Não mais luta de músculos, mas de nervos; não mais de paixões, mas de inteligência. 

Doutro lado, os princípios éticos das religiões e da sociedade educam o homem para as virtudes morais e cívicas superiores, preparando-o para saber viver com uma psicologia de elaboração evangélica, no ambiente mais elevado que a ciência terá preparado.
 
O homem é o agente desta transformação, último anel de todas as transformações precedentes. Assim, a Terra tornar-se-á um jardim, governado por uma humanidade mais sábia. Esta é a transformação biológica que vos espera. 





Na ascensão humana espiritual, que se realiza nestes milênios e se intensifica no momento atual, numa fase decisiva, culmina o esforço de toda a ilimitada evolução que a preparou, que a sustenta e que hoje a impõe.


19/06/2015


67. A ORAÇÃO DO VIANDANTE


 




Alma cansada, abatida à margem da estrada, pára um instante na eterna trajetória da vida, larga o fardo de tuas expiações e repousa.
 






Ouve como está plena de harmonias a obra de Deus! O ritmo dos fenômenos irradia doce e grandiosa música. Por meio das formas exteriores, os dois mistérios, da alma e das coisas, observam-se e se sentem. 

Das profundezas, o teu espírito ouve e compreende. A visão das obras de Deus produz paz e esquecimento; diante da divina beleza da criação, aquieta-se a tempestade do coração; paixão e dor adormecem em lento e doce canto sem fim. 

Parece que a mão de Deus, através das harmonias do universo, acalenta, qual brisa confortadora, tua fronte prostrada pela fadiga aí se detém como uma carícia. Beleza, repouso da alma, contato com o divino! Então o viandante deprimido se reanima, com renovado pressentimento de sua meta. 

Não parece mais tão longa a jornada, tão comprida, quando se pára um instante para dessedentar-se numa fonte. Então a alma contempla, antecipa e se alivia na caminhada. Com o olhar fixo para o Alto, é mais fácil retomar em seguida o caminho cansativo.
 
Na estrada dolorosa, para, enxuga tua lágrima e ouve. O canto é imenso, as harmonias chegam do infinito para beijar-te a fronte, ó cansado viandante da vida. Ao lado do trovão das vozes titânicas do universo, murmuram num sussurro de beleza as delicadas vozes das humildes criaturas irmãs: “Também eu, eu também sou filha de Deus, luto e sofro, carrego o meu peso e busco minha vitória. Também eu sou vida, na grande vida do Todo”. 

E tudo, desde o fragor da tempestade, até o canto matutino do sol, do sorriso do recém nascido ao grito dilacerante da alma, tudo, com sua voz, revela-se a si mesmo e sintoniza com as vozes irmãs; tudo exprime seu mistério íntimo; cada ser manifesta o pensamento de Deus. 



Quando a dor atinge as mais íntimas fibras de teu coração, ouves uma voz que te diz: DEUS; quando a carícia do crepúsculo te adormece no sono silencioso das coisas, uma voz te diz: DEUS. Quando ruge a tempestade e a terra treme, uma voz te diz DEUS! Essa estupenda visão supera qualquer dor.
 
Para, escuta e ora. Abre os braços à criação e repete com ela: “Deus, eu te amo”! Tua oração, não mais admiração amedrontada pelo poder divino, agora é mais elevada: é amor. Oração doce, que brota como um canto que a alma repete, ecoa de fraga em fraga por toda a terra, de onda em onda pelos mares, de estrela em estrela pelos espaços infinitos. 

É a palavra sublime do amor que as unidades colossais dos universos repetem contigo, em uníssono com a voz perdida do último inseto que, tímido, esconde-se entre a grama. Parece perdida; no entanto, Deus a conhece também, recolhe-a e a ama. No infinito do espaço e do tempo, somente esta força, essa imensa onda de amor, mantém tudo compacto em harmônico desenvolvimento de forças. 

A visão suprema das últimas coisas, da ordem em que caminham todas as criaturas, dar-te-á sozinha um sentido de paz; de verdadeira paz, de paz profunda, de alma saciada, porque percebe sua mais elevada meta.
 
Assim Deus Se afigura-te ainda maior do que em seu poder de Criador, afigura-Se-te na potência de Seu amor.
 
Explode, ó alma! Não temas! O novo Deus da Boa-Nova do Cristo é bondade. Não mais os raios vingativos de Júpiter, mas a verdade que convence, o carinho que ama e perdoa. O abismo infinito que olhas assustado não está para engolir-te, nas trevas do mistério, abre-se cheio de luz e, no âmago, canta sem fim o hino da vida. 

Lança-te afoito, porque nesse abismo reside o amor. Não digas: “não sei”, dize antes: “eu amo!” Ora! ora diante das imensas obras de Deus, diante da terra, do mar, do céu. 

Pede-lhes que te falem de Deus, pede aos efeitos a voz da causa, pede às formas o pensamento e o princípio que a todas anima. E todas as formas se aglomerarão em redor de ti, estender-te-ão seus braços fraternos, olhar-te-ão com mil olhos feitos de luz e o eterno sorriso da vida te envolverá como uma carícia. 

Essas mil vozes dirão: 

“Vem, irmão, sacia teu olhar interior, busca força na visão sublime. 

A vida é grande e bela, mesmo na dor mais atroz e tenaz é sempre digna de ser vivida”. Tomar-te-ão pelo braço, gritando: “Vem, atravessa o limiar e olha o mistério. Vê: não podes morrer jamais, jamais morrer. 

Tua dor passa, com ela sobes e fica o resultado. Não temas a morte nem a dor: não são o fim, nem o mal, são o ritmo da renovação e caminhos de tuas ascensões. A vida é um canto sem fim. Canta conosco, canta com toda a criação, o canto infinito do amor”.
 
Ora assim, ó alma cansada: 

“Senhor, bendito sejas, sobretudo pela irmã dor, porque ela me aproxima de Ti.
 
Prostro-me diante de Tua imensa obra, mesmo se nela minha parte é esforço. Nada posso pedir-Te, porque tudo já é perfeito e justo em Tua criação, mesmo meu sofrimento, mesmo minha imperfeição transitória. Aguardo no posto de meu dever a minha maturação. Repouso em Tua contemplação”.
 
Responde, ó alma, ao imenso amplexo, verdadeiramente sentirás Deus. Se a inteligência dos grandes se prostra e venera, curva-se diante do poder do conceito e de sua realização, e se aproxima do Divino pelas cansadas vias da mente, o coração dos humildes atinge a Deus pelos caminhos da dor e do amor. Sente-O pelas estradas dessa sabedoria mais profunda.
 
Ora assim, ó alma cansada. Descansa a cabeça em Seu peito e repousa.




18/06/2015




66. 

RUMO ÀS SUPREMAS

ASCENSÕES BIOLÓGICAS








Eis a técnica do desenvolvimento do psiquismo, que culmina na gênese do espírito. 

Escavando no subconsciente, achareis todo o vosso passado que ressurge nos instintos, nas tendências, nas simpatias e antipatias. 















Quem poderia ter-vos construído repletos de conhecimentos gratuitos instintivos, senão “vosso” passado? 

Como poderia contê-los o germe da vida e depois, a um dado momento, desenvolvê-los prescientes e proporcionados ao ambiente, senão por uma restituição? 

Que processo de descentralização cinética seria esse se não tivesse sido precedido por uma lei de equilíbrio, por um processo correspondente e proporcional de concentração cinética, das qualidades adquiridas através de vidas e experiências? 

Existirá um único fenômeno no universo que vos autorize a acreditar ser possível algo diferente disso e que vos autorize a negar a lei de causalidade, de proporção, de equilíbrio, de justiça? 

Olhai para vós mesmos e encontrareis um abismo. 

Existem zonas mais profundas, as dos instintos mais estáveis, onde se agitam os impulsos fundamentais da vida, tal como foi definida em suas fases mais distantes. 

Sobrevivências abissais, obscuras, da vida primordial protoplasmática, que ainda se agitam nas fibras íntimas de vosso organismo; instintos como a conservação, a defesa, a reprodução, que por vezes, explodem de inopino em vossa consciência, de uma zona de mistério que desconheceis, pela maturação de um ciclo, lei e vontade autônoma, que progride independentemente de seu conhecimento ou vontade (por exemplo: o instinto do amor que explode na juventude). 

Porque tudo o que existe traz escrita em si sua primeira lei, nascer; cada fenômeno está completo em seu princípio, mesmo antes de sua manifestação. Há zonas de trevas, em que desanimais e não gostais nem de olhar; no entanto, atraem-vos e, inutilmente, interrogais em vão. É vosso passado.
 
Mas tudo pode ser sempre consertado. No superconsciente há luz para todos; a febre da evolução, a insaciabilidade de vossa alma são forças irresistíveis e universais que impelem cada vez mais para o alto. 

A lei do progresso exige a contínua dilatação do psiquismo. A evolução é irresistivelmente lançada para o superconsciente; dirige-se para o supersensível. 

Recordai que vossa consciência é apenas a dimensão de vossa fase de evolução $ \alpha $; vosso inexorável caminho, deslocando-vos de fase em fase, vos leva de dimensão em dimensão para o superconsciente intuitivo e sintético de que já falamos. Nas fases inferiores, que percorrestes, de $ \gamma $ e $ \beta $, o ser existe normalmente, sem consciência, qualidade ignorada aí como agora ignorais a dimensão do superconsciente. 

O estado de consciência é fenômeno em contínua elaboração construtiva ou destrutiva, conforme o trabalho livre que executardes, de construção ou destruição no caminho da evolução que, em vosso nível a, é progresso moral e psíquico. 

Quem fica ocioso para. Quem pratica o mal desce e arruína o próprio eu, destrói a luz de sua compreensão. Quem trabalha no bem sobe e dilata-se a si mesmo, cria a própria riqueza de concepção e potência da alma. 

Punição e prêmio automático e inexorável. Assim a dor, excitando as reações do espírito, é agente de ascensão para as fases e dimensões superiores.
 
Passarão as formas materiais da vida: passarão povos, civilizações, humanidades e planetas. Mas um herdeiro recolherá o suco de tanto trabalho que não foi inútil, a alma. A insaciável e eterna mutação das coisas produzirá um resultado que não será perdido. Já que o campo dominado no âmbito do consciente avança continuamente, também progressivamente desloca-se o limite sensório: 

o super-humano torna-se humano; o superconsciente, consciente; o inconcebível, concebível. 

A consciência adquire, então, nova dimensão, o meio material requinta-se e se sutiliza até atingir sua desmaterialização, até que o princípio espiritual se destaque dele e atraque em outras praias, levando consigo
o suco destilado de todo o passado vivido, em sua construção terminada.
 
Observai como já se inicia, desde vossa fase, esse processo de separação e desmaterialização. Na exteriorização dos meios da vida, o animal fica preso ao utensílio, que permanece parte indivisível de seu organismo. A história natural do homem é a repetição apenas do mesmo processo de projeção de órgãos, mas num nível mais alto. Por isso, as formas, os sistemas, as perspicácias assemelham-se, mas com uma diferença substancial: no homem realiza-se a separação entre o organismo e o utensílio. Tal como o orgânico, também o utensílio mecânico é a expressão da íntima vontade de ação.
 
Mas, no animal, o meio está organicamente fundido no corpo; no homem, o meio não lhe é mais parte integrante e destaca-se dele. O homem constrói para si um só utensílio, aquele que pode fabricar utensílios de toda espécie: a mão guiada pela inteligência.
 
À proporção que o centro psíquico se agiganta, os meios de sua expressão transformam-se, multiplicam-se e requintam-se; os órgãos tornam-se meios de expressão de vida psíquica, as funções físicas inferiores são confiadas aos utensílios mecânicos. 

Os órgãos animais, não mais utilizados, tendem a atrofiar-se; a indústria cria outros continuamente e nela continuará a desenvolver-se a evolução do utensílio orgânico, expressão cada vez mais complexa de um psiquismo mais complexo. O próprio desejo intenso que criou o órgão encontra agora formas múltiplas de manifestação, proporcionadas ao novo poder do psiquismo motor. 

A função desenvolve as qualidades e os órgãos cerebrais; manifesta-se no homem a evolução psíquica, de preferência, e como prosseguimento da evolução orgânica, que passa para segunda linha, suplantada pela evolução dos produtos da inteligência. 

Assim o homem afasta-se cada vez mais da forma animal, numa contínua desmaterialização de funções, que leva a uma progressiva desmaterialização de órgãos. A vida do homem concentra-se cada vez mais na função psíquica diretora, que ele assume como sua nova natural especialização.
 
Eis a íntima e maravilhosa técnica, pela qual a evolução produz a transformação da matéria na fase vida. 

Quando pensais em sua íntima estrutura cinética, essas transmutações já não vos parecerão absurdas. Já os movimentos vorticosos transformaram a estrutura atômica num sistema mais sensível e susceptível de infinitas modelagens. A maleabilidade do material protoplasmático permite inexaurível e profundo transformismo e lhe dá a possibilidade de chegar já plasmado às mais variadas formas de tecidos e órgãos.
 
Num sistema tão sensível, o desejo intenso, uma vontade decidida, proveniente do íntimo, é fator psíquico que tem força criativa. Pensai nos fenômenos causados pelas impressões maternas e no poder ideoplástico, que as funções psíquicas da mãe têm sobre o feto. Cedo ou tarde, a forma acaba obedecendo ao impulso íntimo e expressando-o. 

Aí está a técnica evolutiva desse fenômeno da construção de órgãos por projeção ideoplástica. Da zona latente, mergulhada nas trevas, fora da consciência, emerge, sacudido pelo choque das forças ambientais, impulsionado pela lei da evolução, o germe de nova necessidade que, no centro psíquico, assume a forma de desejo, ou seja, força-tendência, presa à realização. 

Do desejo surge a tentativa, a ação, retesada para a realização. Entramos na fase do consciente, isto é, do trabalho, da atividade, da conquista. Desponta a realização, forma-se e reforça-se sua função que, por sua vez, define sempre mais o órgão; enquanto este, mediante uma série de contínuas experiências, equilíbrios e ajustamentos, adapta-se às resistências ambientais tanto quanto ao impulso interior, entre os quais constitui um traço de união. 

A progressiva atividade funcional plasma para si mesmo o instrumento orgânico, como sua expressão cada vez mais legítima. A definitiva constituição do órgão estabiliza a função e estabelece uma série de experiências, de cuja repetição constante nascem aqueles automatismos, que vimos assinalarem a fase de assimilação terminada e de dilatação do psiquismo do ser. 

Automatismo significa qualidade adquirida, nova capacidade inerente na natureza do indivíduo, novo instinto, nova experiência. A evolução está realizada. O resultado se deposita, definitivamente assimilado, como nova camada em torno do núcleo precedente do psiquismo, e é deixado fora da zona de trabalho, a zona da consciência.
 
Assim avança a evolução e o ultra-consciente é conquistado, passando através da fase consciência que, depois de completada a assimilação, passa ao subconsciente. Pela evolução ocorre um deslocamento contínuo da zona do consciente, que vai do subconsciente para o superconsciente. 

Assim a zona móvel de trabalho, em seu caminho, progride, cobre uma zona cada vez mais ampla de subconsciente, a zona das aquisições definitivas, do armazenamento do indestrutível na eternidade. 

Por intermédio de contínuo esforço psíquico da vida, ocorre um contínuo crescimento do núcleo subconsciente, preparado para a assimilação do superconsciente, por um processo de acréscimo, de hereditariedade e reconcentração cinética na fase de germe, que encontrais na vida das formas orgânicas. Assim, também o campo de trabalho ascende cada vez mais alto, ao mesmo tempo em que se amplia e se torna mais rico e poderoso.
 
Paralelamente, a matéria, expressão de tudo isso, experimenta mudanças profundas. Vimos que o trem eletrônico da onda dinâmica degradada começa investindo as unidades atômicas de estrutura planetária mais simples (no círculo da vida, são introduzidos, de preferência, os corpos simples, de peso atômico baixo). Ora, esse fenômeno constitui apenas o início do processo da desmaterialização da matéria. 

Quando o vosso novo turbilhão vital tiver investido toda a matéria até os pesos atômicos máximos, isto é, quando o trem eletrônico tiver transformado os movimentos planetários atômicos em movimentos vorticosos até as formas planetárias mais complexas, deslocando e reconstruindo, em equilíbrios mais complexos, todas as órbitas até as de 92 elétrons de U, então a, o psiquismo, terá penetrado e permeado toda a matéria, esta se desmaterializará, ou seja, não existirá mais como matéria. 

A energia, sua filha, tê-la-á arrastado mais para a frente, para uma fase evolutiva superior e todo o movimento da Substância continuará de forma imaterial, sem que nada da matéria, em sentido absoluto, tenha sido criado ou destruído. Terá ocorrido apenas uma transmutação íntima, que leva a Substância a novo modo de ser, supermaterial e superdinâmico, superespacial e supertemporal, no limiar de novas dimensões.
 
Assim a evolução volta atrás e faz elevar-se consigo os instrumentos de seu trabalho. Por isso, desmaterializa a matéria por meio do fenômeno da vida, até o espírito. O princípio dinâmico veste-se de formas cada vez menos densas. A evolução as requinta, sensibiliza-as, desmaterializa-as. Os órgãos, os utensílios da vida, destacam-se, o organismo se sutiliza. 

De tudo, fica o profundo, imenso trabalho da vida, uma central psíquica poderosa, na direção de um mundo dominado e obediente, orientado para as fases superiores de consciência e de evolução, para vós, ainda ocultas no inconcebível.
 
Chega, assim, a evolução aos mais altos níveis de vosso universo. Agora podeis compreender-lhe todo o significado. 

Em seu conceito mais profundo, a evolução é a libertação do princípio cinético da Substância. Isto ocorre mediante uma profunda respiração, em que se invertem e se apoiam mutuamente, para ascender, as duas fases de
concentração cinética das experiências da vida no germe e descentralização cinética do germe na vida. 

Por isso, a evolução se exprime com uma constante superação de limites, como observais no progresso das dimensões. Com a evolução, o ser subtrai-se cada vez mais aos limites do determinismo físico que, no nível da matéria, é geométrico, inflexível e idêntico em todos os lugares. 

A vida começa a libertar-se dos aspectos desse absolutismo; seu crescente psiquismo é nova causa que se sobrepõe a decorrente das leis físicas. O animal já adquire uma liberdade desconhecida no mundo físico. Chega-se assim ao reino humano do espírito e além, onde o livre-arbítrio afirma-se definitivamente.
 
A lei do baixo mundo da matéria é determinismo; a lei do espírito é liberdade. Pela evolução realiza-se a passagem do determinismo ao livre-arbítrio. Este é a expressão de maior amplitude na possibilidade de movimento, determinada por gradual reabsorção do determinismo, correspondente a uma progressiva manifestação do princípio cinético. 

Matéria, energia, vida, espírito, são apenas a expressão da mudança desse movimento de forma, cada vez mais evidente e mais livre, numa lei mais complexa, em que é possível fazer-se e desfazer-se os equilíbrios, cada vez mais instáveis, em combinações mais frágeis e renováveis, num dinamismo crescente em que desaparece a estase do determinismo. Isto é uma progressiva liberação dos limites dos sistemas cinéticos fechados, é uma dilatação de possibilidades, de combinações e de escolhas. A contínua renovação permite atingir o equilíbrio por um número sempre maior de caminhos.
 
Agora podeis compreender como o homem, em seu caminho evolutivo, traslada-se da matéria ao espírito, levando consigo os dois extremos do determinismo e do livre-arbítrio. Podeis agora explicar o incompreensível conúbio e resolver filosófica e cientificamente uma questão que sempre vos pareceu insolúvel antagonismo. 

Para compreender esses dois termos é necessário não mais opor um ao outro, como sempre fizestes, como dois casos extremos, imóveis e absolutos; mas é indispensável coordená-los no relativo, em que se movimentam, como duas fases sucessivas, dois pontos de uma escala, e uni-los com o conceito de evolução.
 
O homem é determinismo enquanto matéria. Essa é sua lei enquanto se movimenta nesse campo de absoluta e férrea necessidade. 

Mas quando o homem age como espírito, sente que nesse campo é perfeitamente livre. Pois no mundo psíquico, em que desaparecem as leis físicas, também desaparece a lei de seu determinismo. Assim, o homem só é livre no campo das motivações, em seu espírito, onde domina e supera tudo; ele é a única potência que emerge livre, num mundo de fatalidade. 

Mas não é igualmente livre no campo das realizações, porque aí, seu caminho é sempre cruzado no determinismo físico, inviolável, que cada ato sofre, mais ou menos, e não pode torcer mas, se o coadjuva, pode guiá-lo a seus fins.
 
Prosseguindo nosso caminho racional, as vias da biologia desembocam na ética. Só existe responsabilidade onde há liberdade. A libertação do princípio cinético, que se tornara evolução de liberdade, transforma-se em progressão de responsabilidade. Responsabilidade relativa, estritamente ligada ao grau de evolução, portanto, ao nível psíquico e ao grau de conhecimento do indivíduo. Por isso, o animal não peca. Movendo-se num jogo mecânico de instintos, apertados num determinismo exato, não pode e não sabe abusar, como faz o homem. 

Liberdade, escolha, responsabilidade só existem na fase superior da consciência e das formações, não na fase do instinto, em que os equilíbrios estão estabilizados no determinismo. O livre-arbítrio, novo equilíbrio mais ágil e instável, para manter-se, presume para reger-se, a direção de uma nova consciência superior, não necessária no animal, mas indispensável ao homem.
 
Não há perigo maior que uma liberdade sem controle, porque pode cair em todos os abusos, que doutra forma seriam impossíveis. 

Embaixo está o determinismo, por isso, as consciências mais presas à matéria são menos livres do que aquelas que, ao evoluir, emanciparam-se de suas leis fatais. É justo que só a uma sabedoria maior possa corresponder maior liberdade e a esta, maior responsabilidade (gravidade de perigos e de consequências). 

Assim, o livre-arbítrio é relativo, gradual, e evolui com a consciência. A responsabilidade das próprias ações é relativa e progressiva. Na matéria existe escravidão; no espírito estão os caminhos da libertação.



17/06/2015


65. 

INSTINTO E CONSCIÊNCIA 

TÉCNICA DOS AUTOMATISMOS

 


 





Não vos admireis disto, pois conheceis somente uma pequena parte de vós mesmos. 

O funcionamento orgânico não ocorre fora de vossa consciência, confiado a unidades de consciências inferiores, situada fora delas? 









A economia que a lei do menor esforço impõe, limita a consciência humana ao âmbito em que se realiza o trabalho útil das construções.
 
O que foi vivido e definitivamente assimilado é abandonado aos substratos da consciência, zona que podeis chamar de subconsciente

Por isso, o processo de assimilação, base do desenvolvimento da consciência, realiza-se justamente por transmissão ao subconsciente, em que tudo fica, mesmo se esquecido, pronto para ressurgir se um impulso a excita, ou um fato o exija.
 
O subconsciente é exatamente a zona dos instintos, das ideias inatas, das qualidades adquiridas; é o passado superado, inferior, mas adquirido (misoneísmo). 

Aí depositam-se todos os produtos substanciais da vida; nessa zona encontrais o que fostes e o que fizestes; reencontrais o caminho seguido na construção de vós mesmos, tal como nas estratificações geológicas reencontrais a vida vivida pelo planeta. A transmissão ao subconsciente ocorre justamente através da repetição constante. 




Então dizeis que o hábito transforma um ato consciente num ato inconsciente; com ele forma uma segunda natureza. Este é o método da educação. Palavras comuns que exprimem exatamente a substância do fenômeno. Podeis, assim, com a educação, o estudo, o hábito, construir-vos a vós mesmos. 

Logo que um ato é assimilado, a economia da natureza o deixa fora da consciência, porque, para subsistir, não mais precisa que ela o dirija.
 
Logo que uma qualidade é apreendida, também é abandonada aos automatismos, em forma de instinto, de caráter que se fixou na personalidade.
 
Não se trata de extinção nem de perda, porque tudo subsiste e está presente e ativo, se não na consciência, pelo menos indubitavelmente no funcionamento da vida, e continua a produzir todo o seu rendimento. 

Somente é eliminado da zona da consciência, porque agora já pode funcionar sozinho, deixando o Eu em repouso. A qualidade assimilada e transmitida ao subconsciente cessa de ser fadiga e se torna necessidade, instinto. 

O impulso impresso na matéria fica e quando reaparece, exprime-se como vontade autônoma de continuar na sua direção, como criatura psíquica independente, criada por obra vossa; mas, agora, quer viver sua vida. Dessa maneira, a consciência representa apenas aquela zona da personalidade em que ocorre o esforço da construção do Eu e de sua ulterior dilatação. 




Em outros termos: limita-se unicamente à zona de trabalho, e é lógico. O consciente compreende somente a fase ativa, única que sentis e conheceis, porque é a fase em que viveis e trabalha a evolução13.
 
Agora, podeis compreender algumas características inexplicáveis do instinto, assim como sua maravilhosa perfeição. No instinto, a assimilação está terminada. Então o fenômeno não está em formação, mas já atingiu sua última fase de perfeição. 

Por isso, o instinto é tenaz e sábio: existe por hereditariedade e sem aprendizado, justamente porque esse já ocorreu; age sem reflexão (tanto no animal, como no homem), exatamente porque já refletiu bastante. 

Foi superada a fase de formação, o ato reflexivo é inútil e é eliminado; a repetição constante cristalizou o automatismo numa forma que corresponde perfeitamente às forças ambientais; estas agiram de maneira constante.
 
Cálculo de forças, adaptações, ações e reações, sensibilidade e registro, concorrem para o transformismo. 

No crisol das formações estavam misturadas, em ebulição, forças reguladas, cada uma por um inato princípio-lei, próprio, perfeito; o resultado tinha de ser perfeito e exato. 

O princípio diretor, que garantia a constância das ações e condições ambientais, permitiu a estabilização de reações constantes no instinto e, portanto, a correspondência deste com o ambiente.
 
Compreendeis, agora, a estupenda presciência do instinto e da infinita série de experiências, incertezas e tentativas, de que ela resulta. 

O indivíduo deve ter aprendido alguma vez essa ciência, porque do nada, nada nasce; deve ter experimentado a constância das leis ambientais pressupostas, a que correspondem seus órgãos, para as quais ele é feito e proporcionado. 

Sem uma série infinita de contatos, de experiências e adaptações no período de formações, não se explica uma tão perfeita correspondência de órgãos e instintos, antecipados à ação, dentro de uma natureza que avança por tentativas, e nem se explica sua hereditariedade. 

No instinto, a sabedoria já está conquistada; foi superada a fase de tentativas e a necessidade de submeter-se a uma linha lógica que, oferecendo várias soluções, demonstra a fase insegura e incerta dos atos raciocinados, onde o instinto conhece um só caminho, o melhor.
 
A razão cobre um campo muito mais extenso que o limitado pelo instinto (nisto o homem supera o animal, dominando zonas que ele ignora). 

Entretanto, em seu pequeno campo, o instinto atingiu um grau de amadurecimento mais adiantado, expresso pela segurança dos atos, e um grau de perfeição ainda não alcançado por nenhuma razão humana. Esta, nas tentativas, revela as características evidentes da fase de formação. 

Da mesma forma que o animal raciocinou rudimentarmente no período da construção de seu instinto, assim a razão humana, terminada a formação; alcançará um instinto complexo e maravilhoso, que revelará sabedoria muito mais profunda.
 
No homem, conserva-se todo o instinto animal, de que a razão é mera continuação. Agora podeis compreender que instinto e razão são simplesmente duas fases de consciência, a primeira já superada e, portanto, funcionando automaticamente; a segunda, em vias de formação. Não coloqueis os dois momentos do mesmo processo evolutivo em antagonismo. 

No homem, não apenas sobrevive todo o instinto do animal, como também a formação de novos instintos não cessa, tal como ocorreu para aquele e com o mesmo sistema, embora muito mais rapidamente, em vista da potência psíquica do homem, e num nível muito mais alto, em virtude da complexidade de seu psiquismo. 

Da mesma forma que, no homem, a fase instinto é inconsciente e a fase razão consciente, assim no animal, além do instinto inconsciente, existe pequena zona de formação, portanto, consciente e racional, embora de consciência e racionalidade primitivas. 

Se observardes, vereis que nem todos os atos dos animais estão cristalizados no instinto, existe sempre uma porta aberta para novas aquisições (aprendizado, domesticação etc.).
 
Entre a planta, o animal e o homem só existe a diferença devida ao caminho maior ou menor que foi percorrido.
 
Pensais quanta parte de vós mesmos está confiada aos automatismos, como também a racionalidade humana tende a cristalizar-se em atitudes instintivas, como passa a ser instinto tudo o que foi profundamente conquistado. Existe, pois, uma zona obscura do subconsciente e uma zona lúcida do consciente. 

Além disso, há uma terceira zona, a do superconsciente, em que tudo são expectativas, preparando-se as conquistas do amanhã: fase possuída apenas como pressentimento e contida, em germe, nas causas que atuam no presente, de que ele representa o desenvolvimento.

 


Zonas que, em sua amplitude e posição, são relativas ao ser, de acordo com seu grau de desenvolvimento. Variam grandemente também no homem, conforme sua evolução pessoal, os limites do consciente. 

Aquilo que é consciente ou superconsciente para alguns, pode ser subconsciente (ou seja, caminho percorrido e experiências adquiridas) para outros
mais adiantados. Esses limites variam, também, durante a vida do mesmo indivíduo, pois a vida é justamente o período das aquisições e transformações de consciência. 

A idade mais adequada a essas aquisições — em outras palavras, mais susceptível de educação — é a juventude. A consciência, refeita pelo repouso, é mais propensa à assimilação, ao estabelecimento de novos automatismos, que depois se fixarão indelevelmente no caráter; os primeiros, serão os mais profundos e mais resistentes.
 
Reassumindo rapidamente todo o caminho percorrido pela evolução, a zona da consciência tende sempre a subir, deslocando-se para o superconsciente; educação, hábitos bons e maus, tudo se fixa em automatismos transmitidos ao subconsciente. A fase lúcida do trabalho construtivo se transfere para campos mais elevados e mais profundos, para o âmago do ser, na assimilação de qualidades espirituais.
 
Assim nada se perde de todas as dores e lutas da vida, de todo bem e mal praticados. Não se perde fora de vós, pelo princípio de causa e efeito; não se perde dentro de vós, pelo princípio de transmissão ao subconsciente. A herança de vossas culpas como de vossos merecimentos, o resultado de todas as vossas fraquezas ou esforços, vós os carregais sempre convosco, de acordo com o que quisesteis. 

A assimilação por automatismos e a transmissão ao subconsciente é o meio de transmissão para a eternidade das qualidades adquiridas, fruto de vosso trabalho. Cada ato tem um eco e deixa u’a marca. A técnica dos automatismos reside em vossa experiência cotidiana, na aquisição de cada habilidade mecânica ou psíquica. 

A objeção que poderíeis levantar contra a teoria da assimilação, por automatismos, das experiências vividas (isto é, perde-se um hábito por falta de uso) não vale, porque o que se transmite ao subconsciente é a aptidão e não o conhecimento. Vede que aquela permanece, mesmo quando o conhecimento esvanece pelo desuso, e sabe reconstruir rapidamente o que parece destruído. 

Daí todas as diversíssimas capacidades inatas, às quais tanto deve a vida, doutra forma não teriam explicação. Se a repetição de inumeráveis atos de defesa deu ao animal o instinto da defesa, o agir moralmente conferirá ao homem hábitos morais; o pensamento desenvolve e enriquece a inteligência. 

Tendes, assim, um meio para poderdes retificar, continuamente, a substância de vossa personalidade: vós mesmos podeis plasmá-la para o bem ou para o mal. Assim, vosso destino, produzido pelas qualidades que assimilastes, constituído e cercado pelas forças que movestes, pode sempre sofrer retoques por vossas próprias mãos. 

Assim, o férreo determinismo, imposto pela lei de causalidade, abre-se na zona das formações estendidas para o futuro, num campo em que domina, unicamente, vosso livre-arbítrio, senhor da escolha, que mais tarde, salvo ulteriores correções, vos prenderá, por sua vez, na mesma lei de causalidade.