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06/11/2015


V

 

ORIGEM E FIM DO MAL E DA DOR

 

 

Estes conceitos não estão fora de nosso mundo. O universo, repetimo-lo, é feito de esquemas de um único tipo e, por isso, encontramos a cada momento e em todo ponto o esquema maior no menor, embora adaptado aos casos particulares. 

Tudo ecoa e se repete no universo. O eco desse primeiro ato do ser não se extinguiu. Ele revive nas formas da vida, que continua a se desenvolver pela via então iniciada e traçada. 

O denominado pecado original, a ingestão do fruto proibido da árvore do bem e do mal, não simboliza o ato sexual, necessário à vida, mas a degradação do amor espiritual em amor carnal, do qual deriva apenas uma gênese falsa, destinada a acabar na morte. 

Esse pecado encobre um fato muito mais central e mais grave - a revolta contra Deus. Ele foi efetivamente instigado por Satanás, o anjo decaído [5], que pretendeu fortalecer-se com a conquista de novos prosélitos, que ligou ao seu sistema de rebeldia. 

Assim, o pecado de Adão não constitui mais do que uma reprodução especial do processo de degradação já iniciado, uma consequente queda do homem, arrastado por Satanás na queda dos anjos, uma imitação que prolonga o fenômeno à guisa de desintegração atômica em cadeia.
 
Os motivos da grande queda sobrevivem a todo momento na Terra. Eles se inseriram na natureza do ser, que assim se tornou corrompida e falaz. À gênese do mal e de nossas dores deve ser encontrada no desmoronamento tremendo que se seguiu à revolta, derrocada que devemos sair agora, tudo reconstruindo em nós e em nosso derredor, com as nossas mãos empenhadas no grande trabalho que se chama evolução. 

Assim, pois, o fenômeno da queda dos anjos não é estranho à nossa vida, nem está distante dela, mas é atual. O fundamental motivo psicológico de desordem continua vivo em nossa forma mental. 

Todos compreendemos o que representa a Lei e que seria lógico, justo e útil segui-la, quer no interesse coletivo, quer no individual. E, apesar disso, sentimos a tentação do rebelar-nos, de ludibriá-la, tomando por atalhos que, por via mais breve, nos conduzem aonde desejamos chegar. 

Ainda aqui, sem dúvida, obedecemos a uma lei da vida, a do mínimo esforço, mas esta deve ser seguida com inteligência, levando em linha de conta a estrutura do sistema, em que todo "eu sou" só se valoriza em função do "Eu sou" centro - Deus. 

E o homem hodierno, como o primeiro anjo rebelde, centralizador egoísta de todo o seu “eu”, preocupado somente com o triunfo próprio, separadamente, realiza o processo idêntico de reviravolta do sistema com a consequente inversão de si mesmo, terminando nas mortes das guerras, na destruição e na dor. Somos assim levados a valorizar-nos como "eu" independentes e não como “eu” em função orgânica do Todo. E a exata repetição da primeira revolta.
 
A conduta dos eleitos é justamente a oposta, de completa adesão à vontade de Deus. Sua primeira característica é a obediência à ordem. Este terrível instinto do "eu", que se deveria controlar pela obediência à Lei de Deus, mas que, ao contrário, se deixa livremente explodir em revolta, não é também para o homem a causa principal de tantos males? 

E assim como, nas mãos dos primeiros rebeldes se desmoronou a ordem no caos, nas mãos do homem tudo continua a se fragmentar, repetindo-se o mesmo processo originário no tempo com o mesmo resultado de destruição. 

Por isso, se se pretende novamente a elevação à ordem, reconstruindo-se na unidade do sistema, é imprescindível saber dominar este "eu" egoísta e prepotente, enquadrá-lo na ordem, coordenando-lhe as funções no Todo, é necessário retificar o seu inicial estado de revolta, mantendo-o na obediência ao plano de Deus, porque só assim, em obediência à Sua ordem é possível de novo unir laboriosamente uma a uma as partes do edifício desmoronado, reconstruindo-o na sua grandeza. 

Este esforço exigido para a reconquista do paraíso perdido é justamente a condenação da nossa humanidade. Justa condenação, mas também salutar remédio, pois é a via de salvação para a criatura a quem o Amor de Deus, apesar da ingratidão dela, oferta a possibilidade de redenção.
 
No fundo da natureza humana está a tragédia da queda, em razão da qual a alma, centelha divina, desceu para a ilusão da matéria e dos sentidos, num corpo vulnerável a tudo e num ambiente ingrato, em que a conquista do progresso lhe custa esforço permanente; com mente acanhada que aos poucos terá de buscar o conhecimento que antes possuía do pensamento de Deus. 

Daí o tormento da insaciabilidade, que revela no instinto humano o anseio pelo grande bem perdido; daí o afã pela maceração evolutiva sob o contínuo martelar da dor, a ânsia de criar sobre as areias movediças de um mundo em que tudo caduca. 

Eis a razão de ser da ignorância a vencer com o esforço do pensamento, com as descobertas científicas, com o sacrifício dos mártires e com o Amor de Deus que, manifestando-se pela revelação, vem ao nosso encontro inspirativamente, permitindo que levantemos os véus do mistério. Eis Cristo, o mais perfeito filho de Deus, fazendo-se homem em nossa dor para nos ensinar a via da redenção.
 
Assim tudo se explica:  

a luta pela seleção, as guerras, as enfermidades, as desgraças, o ódio, a mentira, todas as traições de que se entretece a vida. 

O nosso mundo assumiu o aspecto que revela a estrutura do sistema desmoronado. Cada individualização reproduz a originária inversão, pela qual todo “eu sou” está inquinado do princípio oposto, negativo, destruidor do “eu não sou”. Ele tudo corrompe.
 
Por ele o incorruptível fragmentou-se no corruptível. O princípio originário permanece, mas falseado em virtude de não mais oferecer correspondência com os antigos valores. Foi a revolta originária que semeou no ser esse germe maléfico que continua a viver da sua vida. 

E assim, em nosso mundo, a negação está infiltrada em toda afirmação, a vida se casou com a morte, a enfermidade aninha-se em todos os corpos sãos, a destruição é o guia de toda construção, o mal ofende o bem e Satanás se introduz por toda a parte, procurando trair Deus. 

O motivo da queda dos anjos e do pecado original repete-se a todo instante entre nós, em nossa vida cotidiana. Não se trata, pois, aqui de elucubrações filosóficas relativas a fatos distantes, que não nos dizem respeito. 

Só a evolução, a ascensão da matéria ao espírito, pode cicatrizar a grande ferida, desembaraçar o ser do cerco maléfico que desejou. Mas isso só se completará após um caminho longo e doloroso. Só desta maneira se explica o motivo de nossas posições atuais, de que só podemos evadir-nos subindo, embora sofrendo.
 
Eis as origens da dor e do mal. O semblante da criatura traz o estigma funesto. Ela continua a sangrar da primeira colisão com as colunas do sistema. O ser decaiu, mas as colunas da Lei não se abalaram. 

Permaneceu intacta e a dor tornou-se o sinal da alma rebelde, continuando a recordar-lhe a grande tragédia que desejaria esquecer, abandonando-se ao originário instinto de felicidade, ainda vivo. Mas, entre a felicidade e ele jaz uma nuvem que só poderá dissipar-se através de uma longa luta de reintegração.
 
Desejaria repousar, mas a dor o aguilhoa e o chama à dura realidade e, então, só então, ele desperta e indaga - por quê? Por que nascer, existir, sofrer? 

Quem goza está bem, nada pergunta, continuando adormentado na inconsciência. Assim, pois, após a sua gênese, a dor desempenha a função de instrumento de evolução. 

A própria culpa gerou o remédio; a enfermidade deu nascimento à sua medicina. A dor, oriunda da revolta, esmaga e humilha, induzindo à obediência à Lei e, assim, curando o ser. 

Dor implacável, mas salutar, que os involuídos amaldiçoam, porque não lhe compreendem a função criadora e que os santos abraçam, não por insano masoquismo, mas porque sabem que ela significa a escada pela qual se sobe. É salutar o imperativo que impele ao trabalho benéfico pela reconquista do paraíso perdido.
 
Falamos também da dor de todo universo e não apenas na Terra, da dor cósmica, de que a da humanidade terrena não passa de um átomo em um átimo daquela dor de que o próprio Deus quis participar, integrando-se por Amor às próprias criaturas. 

Foi assim que o Pai enviou Cristo á Terra, para que, com o seu sacrifício, desse à humanidade o maior impulso á redenção. Por primeiro a revolta, origem do mal, depois, a dor do mundo, seu meio de recuperação; o auxílio do Alto neste árduo caminho; a redenção obtida pelo sacrifício, que Cristo nos ensinou. Estes conceitos unidos em cadeia, confirmam estas teorias.
 
A humanidade percorre atualmente o caminho de retorno. Só assim se pode compreender o conceito de redenção e o significado da vinda e do sacrifício de Cristo na Terra, motivos tão centrais na história da humanidade. 

Só assim se pode compreende como a dor salva e o sacrifício redime e por que era necessário que Cristo sofresse. O Seu exemplo nos indica, à evidência, que a via de retorno não se pode percorrer senão dessa forma. 

Com a Sua paixão, Cristo quis, diante do Pai, tomar sobre os ombros o peso da correção do primeiro erro, o da revolta. Por aqui se vê quanto Deus continua a mostrar-se ativo e presente na história do mundo.
 
A psicologia que enxerga, não raro, no mal e na dor, indícios de um sistema falido, um erro de que pode ser acusado o Criador, como único responsável, nasce justamente do ponto de vista representado pelo "eu sou", que, colocado em posição reversa, só através desta pode ver as coisas. 

É psicologia corrente, dominante na vida comum, e mercê da qual cada um procura atirar a culpa, a causa de qualquer mal nos outros, mas jamais em si mesmo. O homem conserva o seu originário instinto irrefreável para a alegria, mas o faz em um sistema invertido que, assim, só lhe pode oferecer a dor. Não compreende o porquê, mas sente o tormento desta negação. 

Desmembrado da causa remota, se irrita inutilmente contra as causas próximas, incapaz de enxergar mais longe. Compreende apenas que a dor fere, e agita-se confusamente nas trevas em que caiu. Procura e não encontra, ignorando mesmo que a salvação está na ascensão. 

E, constrangido a evoluir, tangido pelo destino em passagens obrigatórias, preso à dura experimentação da vida, cheia de alegrias a fim de atraí-lo para o alto, carregada de dores, a fim de afugentá-lo das regiões inferiores. 

Ele desejaria adaptar-se a este inferno para repousar, mas não lhe concedem tréguas, de um lado o desejo insaciável de alegria, de outro, os incessantes golpes de dor. E imperioso evolver.
 
A sensação de falência do sistema é dada não somente pela visão às avessas, seguida de uma posição invertida, mas também pela real imersão em um mundo invertido, satânico, sensivelmente mais próximo do mundo material do que do outro do real, do divino. 

Os esforços por subir, muito comumente terminam no retrocesso de alguns passos, em virtude do terreno informe, movediço no qual o pé não encontra apoio e a vontade se despedaça. 

É o esquema da primeira queda que retorna em cada decaída subsequente, tendendo a repetir-se ao infinito. E então se exclama:  

"A redenção do mal é utopia, a dor é inútil, jamais galgaremos o monte da perfeição." 

E se conclui:  

“E inútil tentar. O sistema faliu definitivamente. A obra de Deus é mal feita, porque continha um insanável erro de construção!”.
 
Mas se o homem soubesse ouvir a voz de Deus, teria a resposta:  

"Sim, criatura, podes pecar e negar à vontade, pois que és livre, De qualquer forma, entretanto, alcançarás o triunfo do Bem e do Meu Amor, isto é, a realização do Meu plano. 

Poderias ter preferido, como o fizeram tantos espíritos, a via curta da livre aceitação encontrando-te agora na minha alegria. Preferiste o caminho mais longo.
 
Não importa. Desejaste, assim, a gênese do mal e da dor, fazendo delas a tua triste herança. Mas a Mim chegarás da mesma forma. O resultado final não se altera por isso. 

Continuo o Centro do Todo e tu não te evadiste do sistema, porque nenhuma evasão é possível. Tu te inverteste e não o sistema. Todavia, permaneces meu filho e, endireitar-te, é o que procuro, influindo a livre criatura com o uso de dois meios:  

a dor e o amor.
 
Nada está perdido. Podes reconquistar a antiga posição. Mas deves sofrer, o que não é apenas justo, mas igualmente benéfico, porque sofrendo compreenderás. A dor te abrirá os olhos, uma longa e dura experimentação te constrangerá, através de muitas provas, a te reconstruíres qual eras, antes que te demolisses na queda do teu ser. 

Minha bondade te oferece, na evolução, uma via de redenção do mal desejado e de evasão da dor. Será duro e não terás outro caminho, se quiseres sair do teu estado.
 
Voltarás a percorrer em ascensão o que percorreste na descida. Bem mereceste, ao te rebelares, este açoite em tuas carnes, e Eu o permito para que o teu espírito ensombrado desperte.
 
“E para o teu bem, porque te amo e te quero ver feliz amanhã. Primeiro entenderás a lição da dor para poder fugir dela. Quanto mais tardares em compreendê-la, tanto maior será a sua duração. 

A tua rebelião à Minha ordem aumentará em proporção à intensidade da pena. Continuas no sistema do qual Eu sou o centro e no qual represento a alegria suprema do ser. Na Minha ordem está implícito que rebelião significa dor, que tanto maior será, quanto mais de Mim te afastares”.
 
“Meu outro meio o Amor. Com ele te atraio sem cessar, incitando-te a refazer o caminho para chegares a meus braços, neles repousares e te alegrares. É por esse motivo que te ofereço todos os auxílios possíveis para instruir-te por meio de espíritos superiores, meus operários no sistema que, com a palavra e o exemplo, te indicam as vias da redenção. 

Compelido pelo impulso negativo e tangido pela dor, atraído pelo impulso positivo, onde há alegria, não podes resistir à convergência destas duas forças. Como, de outro modo, induzir uma criatura livre, mas cega a reencontrar o próprio bem?”
 
“Quis, assim, tornar quase fatal a tua salvação, sem jamais violar a tua liberdade. Mas, ainda que esta, no caso extremo, quisesse, contra o teu interesse, o absurdo do teu prejuízo; ainda que, com inflexível revolta, quisesse a tua dor eterna, mesmo diante de tamanha loucura, que o ser desejasse para sempre, também neste caso o sistema perdura intacto e o Meu Amor triunfa. O edifício erigido pela rebelião contra Mim será anulado até o último fragmento. 

E tu, criatura ingrata, se quiseres persistir absolutamente na negação, caminhando de dor em dor crescente, com as tuas próprias mãos procederás à tua autodestruição, assim desaparecendo também a tua última negação, como quiseste, no “não ser”. Anular-te é o Meu último ato de bondade e piedade para contigo é o que tu chamas a minha vingança com o inferno eterno.”
 
Assim poderia falar a voz de Deus a quem soubesse ouvi-la, pois no final dos tempos tudo se realizará plenamente, como Deus quis. A revolta dos espíritos das trevas não terá passado de um episódio impotente a perturbar a integridade do sistema perfeito. 

E, como Deus o quis no princípio Ele resplandecerá no fim, no triunfo do Bem. O dualismo bem-mal em que hoje está dividido o universo, como desvio transitório e não estrutura do sistema, será no fim reabsorvido no monismo originário, que a cada momento permanece só relativamente despedaçado, e o Uno triunfará. 

O mal e a dor, filhos da revolta contra Deus, por orgulho, não têm poder para fazer desmoronar o sistema, mas significam apenas uma doença curável, que o próprio sistema sabe sanar. 

Doença somente do aspecto imanente do Uno e que Ele, do seu polo oposto observa e cura. Tudo permanece absolutamente perfeito, ainda quando não possamos observar senão a imperfeição em que estamos imersos. Permanece perfeito, como o exigem a lógica e a razão.
 
É evidente que, em um sistema gerado pelo Amor e baseado neste seu princípio central, construído de bem e para a alegria, o mal e a dor não possam ser eternos. Uma sua afirmação definitiva, embora em mínimas proporções, significaria a falência de sistema de Deus. 

Mal e dor não constituem senão o seu aspecto patológico, que não se pode tornar eternamente crônico, sem resolver-se ou com a morte do enfermo ou com a sua cura. O que acontece, em escala menor, em nossa saúde física, repete o que nos mostra o esquema universal do fenômeno. 

A morte se manifestaria pela anulação do indivíduo que quisesse permanecer sempre rebelde isto é, pela sua expulsão do sistema, ou seja, para o nada, pois que o sistema é o todo. A cura é representada pela reentrada do ser no sistema (conversão ao bem).
 
Uma das mais fortes razões pelas quais o mal e a dor têm de se anular, por fim, é dada pelo fato de que eles nasceram justamente de uma exagerada super-estimativa, por parte dos espíritos rebeldes, do princípio divino do "Eu sou". 

Foi exatamente esse exagero que, pela lei de equilíbrio inerente ao sistema, produziu, como reação, uma contração desse princípio no oposto do "eu não sou", isto é, a limitação ao negativo, ou inversão do bem em mal, da alegria em dor. 

Ora, insistir em tal via de ruína significa marchar cada vez mais contra o princípio vital que rege o próprio eu, isto é, caminhar contra si mesmo; significa o suicídio completo do ser 

Será possível que ele pretenda avançar sempre em tal caminho de autodestruição, negando a si próprio e a própria vida que representa o seu interesse máximo? 

Será possível que um ser, baseado no princípio do "eu sou", queira retroceder até renegar-se no não-ser? 

Poderá resistir uma lógica que se anula avançando para o absurdo? A existência é dada pela própria natureza do princípio do "eu sou" e que não pode vir senão do princípio positivo:  

Deus. 

Então, chegaríamos à completa inversão também da lógica, no extremo absurdo, pelo qual a máxima realização de Satanás e, com ele, do mal e da dor, consiste em sua anulação. Uma vez que a vida só existe em Deus, quem é contra Ele, se quiser sobreviver, deve retornar a Ele.
 
Mal e dor não podem ser eternos por uma outra razão. Entre a ideia do mal e a da eternidade há contradição, que não lhes permite a coexistência. 

A eternidade é alguma coisa qualitativamente diversa do tempo, situada nos antípodas. Ela não é um prolongamento de um tempo que, embora avançando, sempre está sujeito à duração.
 
É um tempo imóvel, que não anda e jamais passa. É um não tempo. E que é o tempo, senão um produto do desmoronamento, um fracionamento do Uno, o imóvel em fuga no transformismo? 

A eternidade, unidade indivisa, com a queda se faz tempo, como o espaço, fração do infinito. O tempo existe somente como medida do transformismo (involutivo-evolutivo), cessando quando este termina: 

A fração cindida se reconstitui em unidade no eterno, o finito no infinito

A eternidade, despedaçada no tempo, se refaz no uno imóvel, integro, indiviso, e nela a corrida de transformismo, lançada em busca da perfeição, se detém diante da perfeição atingida. Então o tempo volta a ser imóvel, sem mais transformismo, e se faz eternidade. 

Com a evolução, ao passar da matéria à energia e desta ao espírito, vai-se tornando cada vez mais evidente o avizinhamento desta fusão final, paralelamente a uma progressiva libertação do domínio do tempo fracionado até aos fenômenos do pensamento, que são quase independentes dele. 

Pode-se dizer que ele existe antes e além do tempo, tanto que lhe escapa. E como o tempo é relativo ao fenômeno particular quanto mais evoluído é este, tanto mais se liberta dele.
 
De tudo isto se conclui que o tempo faz parte do sistema desmoronado, do qual também fazem parte o mal e a dor. Devemos, pois, enfileirar de um lado as características do sistema perfeito, tais como: 

eternidade, bem, alegria, e do outro colocar: tempo, mal, dor, que são propriedades e produtos do desmoronamento e aferíveis somente no sistema de estado imperfeito. 

Eis por que entre mal, dor e eternidade nada pode haver em comum, porque entre os dois primeiros e o último existe uma inversão de posição que os mantém inexoravelmente separados, situando-os nos antípodas em dois sistemas opostos. 

Cada coisa devendo permanecer no seu sistema,o mal e a dor não podem entrar em conexão a não ser com o tempo que passa, com o relativo, com o limitado, característica do anti-sistema. E o bem e a alegria não podem ligar-se a não ser com a eternidade, o absoluto, o infinito. 

Por isso mal e dor não podem ser eternos. Eles só se podem ligar com o tempo, sendo, como este, produtos do desmoronamento, isto é, uma contração no limite do que, no estado perfeito, foi bem, alegria, eternidade. Como se vê, tudo se enquadra em perfeita logicidade. É assim que o mal se apresenta encerrado nos limites do tempo, acuado pelo transformismo que tende a corrigi-lo, transformando no bem. 

Por isto, o mal, dada a sua tendência em conservar-se como é, tem pressa, pois sente a sua instabilidade, a sua posição de desequilíbrio, de exceção, ao passo que a regra do sistema incorrupto é uma posição de equilíbrio, de estabilidade:  

o bem. 

Este, ao contrário, não tem pressa, não joga com efeitos imediatos, como faz o mal preferindo, na maioria das vezes aguardar para realizar-se e concedendo ao mal a primeira vitória, porque sabe, contrariamente a ele, que é senhor do tempo. Assim, também, as estratégias das duas forças, bem e mal, como é natural, são opostas. 

A estratégia do último é contraída, curta, imediata, complicada, concreta. A do bem é ampla, a longo prazo, lenta, linear, de finalidades elevadas. Por isso que as suas energias são mais poderosas, movem-se mais calma, mas dirigidas com sabedoria superior, sabem erigir construções maiores e, sobretudo, mais sólidas. 

Por todas estas razões, na luta contra o bem, o mal se encontra em posição de inferioridade e vencido de saída. Sua inteligência é apenas de superfície, estupidez em profundidade, lógica consequência na perda de sua primeira inteligência, motivo principal que induz o mal a engajar uma luta contra o bem, mais forte e sábio, sem probabilidade de vitória verdadeira.
 
Eis o quadro do fim do mal e da dor. Além deste aspecto negativo, de sua eliminação e restabelecimento, como elementos patológicos mais débeis, há ainda o aspecto positivo, isto é. há o impulso incessante do princípio básico da criação, do elemento mais forte e sadio - o amor (V. Cap. IV – “Queda dos Anjos”, e Cap. XX – “Visão-Síntese”). 

Este princípio, do qual tudo nasceu, deve finalmente triunfar, firmando-se como senhor absoluto, o que significa que o bem e a alegria, de que o Amor é feito, devem triunfar sobre o mal e a dor. E vemos o Amor sempre em ação.
 
Ele significa também unidade, constituindo a força que compele o universo à reunificação no Uno originário. E todas as vezes que o ser retorna para o todo, tentando uma reunificação parcial, encontrará a alegria, que lhe exprime o consenso da vida. 

Assim deve ser, ainda que de forma para nós misteriosa, até os mais recônditos recessos da matéria, onde tantas forças atômicas se unem nas combinações químicas, como também sucede no congresso sexual dos corpos e, ainda mais, no espiritual das almas.
 
Ao amor, impulso criador primordial, está confiada, pois, a função de reconstruir o universo. Pelo princípio dos esquemas múltiplos e de tipo único, repetido em todos os níveis evolutivos, o fato de o amor ser, também em nosso nível, ato de criação e de alegria, que ele repete e imita, prova que o primeiro ato originário de Amor de Deus foi de criação para a felicidade. Se tudo igualmente entre nós nasce do amor, que é alegria, também a primeira criação deve ter sido fruto alegre do amor.
 
Indicam-no os fatos que nós continuaremos a repetir, ainda que com formas e resultados imperfeitos, sem poder esquecer o motivo de origem, mantido como esquema fundamental do ser. O nosso amor, havendo decaído, inverteu parte da sua alegria em dor e agora só pode criar parcialmente com sacrifício. Apesar disso, ainda que dolorosa, a criação, desde a física do animal, até á espiritual do gênio e do santo, constitui sempre a maior alegria da vida.
 
O nosso é um universo contraído, da infinita liberdade e vastidão do Amor de Deus, na prisão do nosso egoísmo separatista, que lembra o acanhado campo cinético das trajetórias fechadas do mundo atômico da matéria (energia congelada). 

Ora, toda vez que o ser consegue completar o esforço para evadir-se da sua prisão, dilatando-se da contração da queda, ele percorre um segmento de ascensão e de libertação, desfrutando, assim, a originária alegria do Amor. 

Deve gozar e sofrer ao mesmo tempo. É trágica a nossa posição a meio caminho. Sentimo-nos sufocar pela estreiteza da prisão de nosso egoísmo, mas rompê-la nos parece a morte do "eu", e desejamos, portanto, reforçá-la. 

Mas a vida só pode estar no retorno à circulação do todo. Esse egoísmo nos mata e, assim, para poder desfrutar a vida e expandir-se, é imperioso que nos evadamos, que despedacemos a prisão em que sufocamos. 

E imprescindível, pois, encarar o sacrifício do "eu", e para alcançar a alegria de uma vida maior, importa em enfrentar a dor, que quebra o egoísmo protetor do "eu". Para viver é necessário em parte, morrer, ou seja, é necessário destruir-se como cidadão do anti-sistema, para ressuscitar cidadão do sistema. 

Eis por que Cristo disse que conservará a vida pela eternidade, não quem a ama, mas quem a odeia neste mundo. O nosso egoísmo tende a manter o estado de contração em que o sistema ruiu. 

Do lado oposto, o Amor vota-se a destruir este separatismo negativo, para lançar-se no universal fluxo do todo, e novamente colocar-nos no originário estado orgânico, em que tudo era Uno. 

E a alegria que acompanha todo ato de Amor, desde a entrega desinteressada do próprio corpo, na geração física, aos mais elevados altruísmos pela humanidade, nos indica que esse é o caminho da reconstrução e do retorno ao estado de origem, de Amor, que somente gera bem e alegria.



[5] - Na Escritura não há muitas referências a "anjos caídos". Dois textos, entretanto, assinalam essa "queda": o versículo 6 da epístola de Judas fala de "anjos que não guardaram o seu original estado, mas abandonaram o seu próprio domicílio..."; e a segunda epístola de Pedro, cap. 2:4, onde se lê: "Se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas lançou-os no inferno..."
 
Por meio da intuição de Pietro Ubaldi, a visão moderna de uma “queda” do "original estado", do estado puramente espiritual, em consequência do orgulho (pecado) dos espíritos rebeldes, encontra, assim, respaldo na palavra inspirada dos dois discípulos de Cristo: Judas e Pedro. (N. do T..)

04/11/2015



IV

 

A QUEDA DOS ANJOS

 

 




Concluída a precedente ordem de conceitos, abre-se diante de nós uma outra visão, numa ordem de conceitos afins e consequentes que o leitor encontrará em germe, primeiramente em:  

A Nova Civilização do Terceiro Milênio, cap. X: "O Problema do Mal”, e cap. XIII: 'Problemas Últimos"; e depois no volume Problemas do Futuro, caps. XV e XVI: "Deus e Universo".
 

O capítulo anterior havíamos explorado, sem desenvolvê-lo, este tema: 

"A criatura é livre, podendo, pois, agir contra o sistema". 

Aprofundemos aqui, como antes não pudemos fazê-lo, essa tese, desenvolvendo-a e analisando-lhe todas as consequências.
Como ocorreu essa monstruosa revolta de algumas células do grande organismo-universo, que, ao invés de funcionar harmoniosamente nele, contra ele se puseram, rebelando-se? 


Onde se encontra a primeira raiz dessa anarquia na ordem? Importante questão que se vincula ao problema da gênese do mal, da sua presença no mundo e da sua solução final.
 

Para compreender, observemos a estrutura do sistema. 

Ela se baseia em alguns princípios fundamentais como o egocentrismo e a liberdade. A criatura, parte integrante do sistema, foi constituída como um esquema menor do esquema maior, cujo centro é Deus, de acordo com o princípio já mencionado dos esquemas de tipo único. 

Essa dádiva, porém, de Deus, pelo qual a criatura fora feita à Sua imagem e semelhança, constituía um poder muito perigoso se não fosse bem usado, pois continha em germe a possibilidade de um transviamento, possibilidade que o ser, exatamente pelos princípios do sistema, deveria enfrentar com as suas forças. E as consequências, quaisquer que fossem, deviam ser suas, pois significa responsabilidade, em um sistema de ordem e justiça, a consequência do princípio de liberdade.
 

A quem objetar que um sistema perfeito não deve conter a possibilidade de erro, deve-se contestar que essa possibilidade que não é absolutamente necessidade, está implícita nos princípios supracitados, como sua consequência necessária, de modo que, para suprimi-la, seria imperioso suprimir os princípios que dão causa, cujo valor não se discute. 

É natural que, onde exista um "eu" livre, seja também possível o mau uso da liberdade. E nem por isso o valor desta decresce. De outra forma não nos encontraríamos em um sistema de liberdade, mas de determinismo, no qual as criaturas não passariam de autômatos. 

Ora, Deus não criou seres dessa espécie, mas sim criaturas partícipes das suas próprias qualidades. Dada a estrutura do Sistema, gera-se uma cadeia de férrea lógica, que conduz dos princípios a essas consequências. A criatura deveria, pois, necessariamente encontrar-se ante a encruzilhada da escolha.
 

O ser, portanto, dada a sua estrutura e a do sistema em que existia, deveria achar-se diante da possibilidade do erro. Em outros termos, o ser passava por uma prova, por um exame, de cujo resultado dependeria a sua futura posição, por ele livremente escolhida. Ora, que o sistema contivesse a possibilidade de um erro, não significa absolutamente fosse ele construído errado ou defeituoso. 

Tanto é verdade que ele, como veremos, de fato não se arruinou pelo erro cometido; pelo contrário, por ser perfeito, tinha capacidade de auto-regeneração. O Sistema estava acima do erro nele possível, e fora constituído para permanecer íntegro, inabalável, para qualquer acontecimento. 

Por isso podia permitir em seu seio uma possível violação e desordem, tanto mais quanto essa possibilidade tinha uma função, a de aprovar o ser dando-lhe, segundo o princípio de justiça, se superasse a prova, o pleno direito de aquisição da sua posição de filho de Deus, somente depois de havê-lo merecido. 

O Criador exigia da criatura uma livre aceitação do Sistema, um espontâneo reconhecimento das recíprocas posições nele, para então poder conceder ao ser uma livre co-participação em Sua obra, como o Sistema requer, o que seria impossível com uma criatura escrava ou um autômato.
 

A prova da livre escolha não foi, pois, um capricho, um 'acaso' ou um erro do Construtor, mas fez parte integrante da lógica do Sistema, como necessária consequência dos princípios que o constituem. 

A estrutura do edifício de conceitos e forças do Sistema, a natureza do Criador e a da criatura, os fins a atingir além da prova, tudo isto conduzia à necessidade de que a criatura devesse encontrar-se só e livre na encruzilhada da escolha. 

A possibilidade de erro estava implícita no Sistema, não como uma imperfeição, prelúdio de fracasso, mas como um elemento definido e desejado para determinados fins, como sua força e não como sua fraqueza. Veremos, efetivamente, que esses fins são igualmente atingidos também por outra via e que a obra da criação permanece igualmente, como um triunfo do plano de Deus.
 

Os dois princípios acima aludidos, egocentrismo e liberdade comuns também as criaturas, faziam delas tantos menores eu “sou”, semelhantes a Deus, como tantos deuses menores em função de Deus. Deus quis a criatura assim feita à Sua imagem e semelhança. Nem o ser Dele saído poderia ser de natureza diversa da Sua. 

Em um sistema de esquema de tipo único, a criatura não podia deixar de ser um "eu sou", centro autônomo e livre, como é o Criador. E, então, a estrutura do Sistema, como a natureza da criatura, estando baseadas no princípio da liberdade, tudo quanto dissesse respeito a criatura não podia ter curso sem o seu consenso.

Ademais, existia um terceiro princípio, fundamento do universo espiritual - o do Amor - mercê do qual Deus não é egocêntrico senão para irradiar em Amor. Assim sendo, o Sistema de Deus não pode se basear na coação, assim como, em virtude do princípio de liberdade, não pode basear-se no determinismo, mas apenas na adesão espontânea. Deus, por ser Amor, não pode querer a criatura forçadamente prisioneira do Seu Amor. 

Ele limita-se a atrai-la. Eis uma nova característica do Sistema, que não pode admitir da parte da criatura, senão uma correspondência de caráter espontâneo, sem a qual não há amor. 

Não é possível, forçadamente gravitar-se em direção a Deus, por amor. Assim, pois todo o Sistema, ainda por esse principio, impunha a livre escolha, qual passagem obrigatória para valorização do ser, que devia, antes de aceito, conquistar plenamente esse direito, demonstrando livremente haver compreendido, aceito e querido corresponder ao Amor de Deus. Mesmo sob esse aspecto, a prova corresponde à perfeita lógica, pois que o Amor, para ser tal, não pode deixar de ser espontâneo e recíproco. 

Estar o Sistema fundamentado no Amor é outro fato a implicar que ele deve se basear, também, na liberdade. Liberdade e Amor são conexos. Este pressupõe aquela. Um sistema que não se fundamentasse na liberdade não o seria no Amor. Os princípios que regem o universo são estreitamente correlatos.
 

Todos eles se podem reduzir a um só, do qual todos estes derivam - o Amor. Foi por amor que Deus quis a criatura egocêntrica, feita à Sua imagem e semelhança, participe das Suas próprias qualidades. 

Foi por amor que Deus quis a criatura livre, a fim de que ela livremente compreendesse e retribuísse esse amor. Entendidas a necessidade, a lógica e a utilidade da prova observemos como se comporta o ser neste momento supremo.
 

Eis a criatura, substancialmente espírito, centelha de Deus, apenas destacada do seio do Pai que a gerou. Ela fita o Centro, do qual derivou por ato de Amor, a que deve a sua existência. 

A estrutura do sistema impõe uma resposta sua a esse ato, a correspondência de um recíproco ato com que essa criatura, por sua livre aceitação, confirme ou renegue, como queira, permaneça no Sistema ou dele se desligue, ponha-se dentro ou fora dele, agindo livremente e definindo, assim, a sua posição. 

O Criador respeita tanto a liberdade que Ele deu à criatura, fazendo-a à Sua imagem e semelhança, que submete a Sua obra de Criador a essa criatura, como ocorre no consentimento necessário de duas partes num contrato bilateral. Somente quando a livre criatura tiver dito:  

"Sim", a criação estará completa, aperfeiçoada até a esse momento, em que a criatura é quase chamada, com seu consentimento, a colaborar. 

Parece enorme, absurda, tanta bondade. Mas essa é a estrutura do Sistema, assim quer o Amor de Deus.
 

Eis o ser diante de Deus. Apenas criado, ele ainda não falou. Deve dizer agora a sua primeira palavra, que Deus lhe pede em resposta ao Seu ato criador:  

a palavra decisiva. 

Deus lhe fala primeiramente:  

"Olha, ó criatura, o que há diante de ti. Eu sou o Pai que te criou. Quis fazer-te da Minha própria substância, um “eu sou”, centro, livre como "Eu Sou". Fiz-te grande com a minha grandeza, poderoso com o meu poder, sábio com a minha sabedoria. 

Fiz assim espontaneamente, por um ato de Amor para contigo, minha criatura. A este Meu ato falta somente um último retoque para ser perfeito e ele deve partir de ti. Espero-o de ti, que o farás com plena liberdade.

Ofereço-te a existência como um grande pacto de amizade. Ele é baseado no Amor com que te criei e a que deves o teu ser. Podes aceitar ou não este Meu Amor. Todo pacto é bilateral, toda aceitação de amor deve ser espontânea. É absurda uma imposta correspondência de amor. 

Escolhe. Vê o que Eu já fiz por ti. Eu ti precedi com o exemplo. Tu me vês. Olha e decide. Qualquer pressão Minha fará de ti uma criatura escrava e Eu te quis livre, porque deves assemelhar-te a Mim. Para que Eu pudesse amar-te como quero, devias ser semelhante a Mim. Não se pode pedir Amor a um escravo, mas somente obediência imposta, o que está fora do Meu sistema e seria a sua inversão. 

Vem pois, a Mim, corresponde ao Meu Amor que te chama e te atrai Confirma a Minha obra com a tua aceitação. Por tua livre escolha consente, entra e coordena-te no Meu Sistema, do qual Eu sou centro. Subordina o teu "eu sou" menor ao "Eu Sou", o Uno-Deus, supremo vértice que rege o Todo. 

Reconhece a ordem da qual Eu sou o chefe. Promete obediência à Lei que exprime o Meu pensamento e vontade. Por Amor te peço, pois que és meu filho, que me retribuas o Amor com que te gerei".
 

Após essas palavras, por um instante ficou suspensa a respiração do universo, enquanto as falanges dos espíritos criados oscilavam em cósmicas ondulações. O ser olha e pensa. Ele sente o poder que lhe vem do Pai, uma imensidade que o torna semelhante a Deus. 

É livre, como um “eu sou” autônomo, senhor do seu sistema, das suas forças e equilíbrios interiores. A sua própria estrutura, permeada de divina grandeza, impele-o a repetir em sentido autônomo, separatista, o egocentrismo que ele continha do "Eu Sou" máximo:  

Deus.
 

Mas, do outro lado há uma força oposta, anti-egocêntrica, tendente a neutralizar a primeira:


o Amor. 

Ele se manifesta como silenciosa atração, que se impõe por bondade. Quem compreendeu esse apelo, verdadeiramente compreendeu Deus.
 

As duas forças, assim diversas, movem as falanges dos espíritos, que as examinam e pesam. Belo é o Amor, mas acarreta uma renúncia cheia de deveres, uma renúncia à plenitude total do "eu sou", implica obediência, o reconhecimento de uma posição subordinada. Eis o perigo tentador:  

exagerar, em seu juízo, a própria semelhança com Deus e admitir uma pretensão de identidade. 

Ao invés de seguir o caminho do Amor, coordenando-se com obediência na ordem, tomar a via oposta.
 

Devendo coordenar o próprio "eu sou", reforçar sua autonomia, fazendo-se isoladamente centro do sistema com sua própria lei. Imitar Deus somente para superá-Lo. Responder ao doce apelo de Amor com um desafio:  

"Não! Deus, eu, criatura, sou maior do que Tu. Eu sou Deus, não Tu"!
 

Então, muitos "Deuses" menores, feitos de substância divina, livremente decidiram tornar-se "Deuses" maiores, iguais a Deus. A escolha foi por eles feita, e o universo, abalado até aos fundamentos que estão no espírito, estremeceu e parte dele desmoronou, involvendo na matéria. Mas não foi assim para todos os seres. 

A balança em que foram colocados os dois impulsos, para uma outra multidão de espíritos se inclinou, ao invés, para o lado Amor, oposto ao da rebelião por orgulho.
 

Eles reconheceram a superioridade de Deus e se fundiram na Sua Ordem, tornando-se-Lhe colaboradores, livremente aceitando-a e compreendendo. Os primeiros não quiseram reconhecer a Sua supremacia; destacaram-se da Sua Ordem e se transformaram em demolidores. 

Não quiseram aceitá-la e corresponder. Seu chefe foi Lúcifer. Precipitaram-se, assim, para fora do sistema, em posição invertida que lhes será a característica de toda a existência. É certo que a queda foi devida à falta de conhecimento das consequências da revolta, mas é também certo que a criatura não poderia ser onisciente, igual a Deus.
 

Pode-se objetar, então, que, se ela ignorava, como lhe pode ser imputada a culpa de haver caído? 

Deus deveria tê-la dotado do conhecimento suficiente para compreender antecipadamente as consequências da desobediência, de modo a não incidir nela. A tal objeção pode-se contrapor que a criatura assim teria seguido Deus unicamente no seu egoístico interesse, a fim de furtar-se a um dano e não por amor. 

Ora, um ato de aceitação tão fundamental no sistema, não poderia basear-se num interesse nascido do egoísmo, isto é, em um princípio antípoda àquele que rege todo o sistema, como é o Amor. Ele deveria resultar de uma espontânea adesão por amor, ao compreender a bondade do Criador. 

Como é fundamental no sistema o princípio do Amor, prova-o o fato de o próprio Deus, no seu aspecto imanente, ter seguido o Sistema desmoronado para reconstruí-lo, jamais abandonando a criatura por mais injusta e rebelde que fosse. E Deus não lhe pedia senão uma prova de amor! Os espíritos obedientes a deram, ainda que em conhecimento sendo iguais aos espíritos caídos.
 

Tiveram, então, início no ser decaído, duas vias opostas, que o distinguem. De um lado, o orgulho, o mal, a dor, as trevas, o caos e, consequentemente a criação e vida na matéria. Do outro a obediência, o bem, a luz, a ordem e a vida perfeita do puro espírito. 

A queda é a involução, da qual se sobe redimido pelo esforço da evolução, absorvendo o mal em dor, edificando-se pelo sofrimento com a experiência da vida, assim se desmaterializando e espiritualizando na ascensão ao encontro de Deus, que não abandonou o ser que caiu, mas apenas lhe disse: 

"Destruíste o esplêndido edifício.Contudo, continuas a ser meu filho. Reconstruirás, porém, tudo com o teu esforço". 

Compreensão. Todavia, é bom esclarecer ser ele uma expressão antropomórfica, que reduz o fenômeno às dimensões inferiores da matéria. 

Ainda que acanhado, o antropomorfismo constitui uma necessidade, porque, embora contenha o defeito de desfigurar o real aspecto do fenômeno, tem o valor de aproximá-lo de nosso mundo tão diferente. Cumpre-nos, pois, aqui realçar que a expressão "queda dos anjos" representa uma redução da realidade, na medida limitada da psicologia humana.
 
De fato, o fenômeno ocorreu em planos de existência tão elevados, que para nós se situam no superconcebível; ocorreu em dimensões em que as nossas representações de espaço e de tempo não têm mais sentido. A imagem, pois, que tivemos de escolher representa uma mutilação e não uma expressão da realidade.
 

Se devêssemos explicar a um homem inculto um conceito abstrato, um processo matemático, um desenvolvimento filosófico ou coisas semelhantes, seríamos constrangidos, se quiséssemos fazer-nos entender, a apresentar tudo revestido de formas materiais, a usar expressões bem concretas, para adequar-nos à psicologia desse homem, a ponto de os conceitos originais ficarem deformados, tornando-se quase irreconhecíveis.
 

Mais verdadeiro é esse fato relativamente à queda dos “anjos”, em face da grande altura em que se deu o fenômeno e sua distância de nós. Era, porém, necessário adaptar-se à mente humana, se se quisesse dar uma expressão ao fenômeno, denominando-o “queda”.

Mais adiante será explicado o seu significado de desmoronamento de dimensões, a partir de um ponto que, estando situado em planos altíssimos, na sua substância foge completamente à nossa compreensão.



29/10/2015


III


O EGOCENTRISMO

 


 

A esta altura, surgem muitas questões a que procuraremos dar aqui as respostas, para resolver, sempre procedendo em profundidade, o problema do conhecimento das últimas coisas.
 

Se o universo diz em Deus o seu: 

"eu sou", como o diz toda criatura e, por conseguinte, todo homem, será possível então encontrarmos, no termo máximo, o principio de egoísmo que existe nos seres inferiores, e que é tão condenável no homem? 

E isto é possível? Mas, por que então o egoísmo humano é uma culpa? E por que ele existe e que significa e quer? E, no princípio centralizador unitário do universo em Deus encontraremos então o egoísmo máximo?
 

É um fato que, sem egocentrismo, desde os sistemas planetários aos organismos celulares e sociais, não se mantém compacta nenhuma unidade. Ele é, pois, necessário a todo ser. Egocentrismo não é exatamente egoísmo. 

Este possui mais um sentido de centralização com vantagem individual, com pendor separatista e exclusivista, um sentido de usurpação em detrimento de outros ou necessitados ou com direito. 

O egocentrismo possui ao invés, apenas um sentido de centralização destituído de senso separatista e exclusivista, sem o objetivo de usurpar nada a outrem pelo contrário, com vantagem de conservação de um organismo global que é necessário e útil a todos os elementos componentes. 

O estado, como um chefe de família, pode ser utilmente egocêntrico sem ser egoísta Se todo ser, para existir, deve dizer:  

"eu" - o egocentrismo é uma necessidade de existência e, por isso, não pode haver culpa em se repetir os princípios do ser, expressos no sistema do universo

É também, segundo a Lei, que cada fragmento conserve interiormente a natureza do esquema consoante o qual o Todo-uno é construído.
 

Então, por que egoísmo é culpa? Procuremos compreender. Egoísmo e altruísmo são termos relativos ao grau de extensão que o eu cobre com o próprio amor e compreensão. 

Enquanto o egoísmo é o amor exclusivo com relação ao próprio "eu" e a nenhum outro, um altruísmo absoluto, que renuncia a tudo, inclusive a si mesmo, sem vantagem nenhuma para um dado ser ou grupo de seres, é loucura, é suicídio. Ambos os extremos constituem culpa. 

A virtude consiste no altruísmo razoável, no sacrifício em favor de alguém, na dilatação do egoísmo, isto é, na ampliação do princípio do egocentrismo, e não na sua supressão. 

A virtude será tanto maior quanto mais extenso for o campo dominado pelo amor, que é a substância da Lei. Efetivamente, o egocentrismo máximo do sistema em Deus, não é senão um egoísmo que cobre todo o universo, dilatado assim infinitamente no amor capaz de abraçar e defender todas as criaturas até considerá-las como partes integrantes de si mesmo, sacrificando-se por elas.
 

Eis como se opera a progressão da abertura da concha do egoísmo no altruísmo, fim da evolução que consiste exatamente na confraternização, a qual, unificando os fragmentos do Uno, reconduz os seres à unidade no centro - Deus. 

O egoísmo poderia então denominar-se egocentrismo involuído, fechado e limitado em si mesmo, enquanto o altruísmo seria egocentrismo evoluído, aberto e expandido no Todo. Efetivamente, o primeiro é separatista, desagregador centrífugo; o segundo é unitário, centrípeto. O primeiro se afasta de Deus e o segundo se avizinha de Deus.
 

O egoísmo historicamente se explica. Resultado da fragmentação do Uno em tantos outros “eu” menores, separados e separatistas como veremos, é qualidade do ser involuído, necessário a sua existência, pois que no nível em que se encontra, necessita revestir esta forma de personalidade separada egoisticamente, em guerra com todos na ignorância da superior fase orgânica, que poderá irmaná-lo aos semelhantes em unidades maiores. 

Esse egocentrismo, biologicamente justificável, só o é, todavia, para o passado, mas se tentar prolongar-se no futuro, tornar-se-á cada vez mais condenável como egoísmo separatista, porque a evolução leva a humanidade a um mais vasto egocentrismo coletivo. 

É assim que o egocentrismo separatista, sendo uma forma biologicamente de uma utilidade de superada, não poderá reaparecer senão sob o aspecto cada vez mais retrógrado e anti-vital. Tendo cada vez menos razão de existir na sua forma exclusivista e agressiva, cada vez menos também será justificado, pois que deixou de ter função biológica.
 

Em Deus, o egocentrismo representa um egoísmo tão amplo, que abraça todas as criaturas, tudo o que existe, de modo a coincidir com o máximo altruísmo. E quanto mais o ser evolve, tanto mais o egocentrismo tende a se aproximar ao de Deus, que é o egocentrismo que todo ser sente, com respeito aos elementos componentes do próprio organismo, constituindo uma necessidade para mantê-los todos compactos em unidades em torno ao ''eu" central, alma do sistema. 

O egocentrismo de Deus é, pois, um egocentrismo perfeito, isto é, não constituído de um egoísmo separatista e exclusivista, como o dos seres inferiores, mas sim, feito de Amor, que reforça essa fundamental lei do ser, porque Deus é centro, não para sujeitar, mas para atrair, não para absorver, mas para irradiar, não para tomar, mas para dar. 

Se, por sua vez, os "eu" menores têm necessidade do seu menor egocentrismo, para manter o seu menor sistema, naquele egocentrismo também eles encontram o limite do próprio ser. Em tal limite eles estão fechados, pois que ele forma o horizonte da sua existência e compreensão e só pela evolução podem sair dele, ampliando-o em outro mais vasto.
 

Assim é a íntima estrutura do sistema do universo. O grande modelo é Deus, que todos os seres, inclusive o homem, devem seguir. Esse Deus se encontra no centro do sistema tudo centralizando em Si, para tudo irradiar de Si, e as criaturas devem existir à Sua imagem e semelhança, isto é, como tantos outros sois menores que irradiam, quais centros de sistemas menores. 

E assim, hierarquicamente, cada um, segundo o grau de evolução atingido, cobre a maior ou a menor vastidão do sistema relativo ao seu raio de ação. Tal o modelo central, tal a lei do sistema. 

Certamente, a criatura é livre e pode, pois, agir de modo contrário. Mas esteja bem certa de que é lei também que todo o sistema se volte contra ela para esmagá-la, como a um inimigo. A grande corrente da vida vai contra quem pretende inverter a rota do ser, prejudicando-o. Ela o coloca frente ao dilema:  

rearmonizar-se com a Lei, enquadrando-se de novo nela, ou ser eliminado. 

E os salutares golpes da dor, ainda que atenuados pelos impulsos do Amor, não serão sustentados enquanto não se tiver conseguido a correção ou destruição. O ser é livre de violar, mas somente em seu dano e não tem nenhum poder para dobrar ou anular as leis da vida.
 

Eis as razões remotas, que explicam e impõem o “ama o teu próximo”, do Evangelho. Hierarquicamente, a unidade do sistema por esquemas únicos, repetidos em todos os níveis, impõe que o mais sábio o poderoso, porque em níveis mais elevados, deve irradiar para os inferiores, de nível mais baixo, pois que os níveis elevados recebem dos que se encontram em níveis mais elevados ainda do que eles, próximos a Deus. 

Obtém-se, assim, através da desigualdade, a justiça. Receberá dos irmãos maiores quem der aos seus irmãos menores. Quem mais possui, mais deve dar. Quem menos tem, mais deve receber. 

Eis a perfeita justiça alcançada pelo Amor, respeitando diferenças e desigualdades necessárias que exprimem a posição atingida, cada qual com sua fadiga e vontade de subir. Uma justiça perfeita, atingida sem nivelamentos forçados, que podem constituir mutilações para os mais evoluídos e apropriação indébitas para os inferiores. Eis a função da Divina Providência, já alhures estudada. 

Assim se compreende o Evangelho, quando diz que não ganha a própria vida quem a conserva egoisticamente para si, mas somente quem a dá aos outros. Recordemo-nos de que somos células de um grande organismo e de que nenhuma célula pode crescer e viver isolada, pensando exclusivamente em si mesma e em seu próprio benefício, mas somente pode fazê-lo em relação às outras, em favor do organismo inteiro. 

Uma cé1ula absolutamente egoísta representa em qualquer organismo um germe revolucionário, uma revolta à lei do Todo, uma atividade perigosa que é logo sufocada no interesse geral, um cidadão rebelde que urge ser expulso da sociedade.
 

Tal é a grande parte da moderna humanidade materialista, para quem o egocentrismo é egoísmo separatista e exclusivista de cada um contra o próprio semelhante. E efetivamente as leis da vida procuram isolar esse tipo biológico, como um cancro ou tumor, para destruí-lo. Com o próprio egoísmo, ele desejaria sustar o livre fluxo da vida, como quer a divina lei de Amor, e a vida o põe na encruzilhada:
 

seguir a rota da Lei ou ser esmagado por ela. 

O homem moderno não conhece esses princípios, age como uma célula que quisesse viver exclusivamente para si, isolando-se da corrente de todo o funcionamento orgânico de que é parte. 

Para quem compreendeu a vida, isto é simplesmente a louca pretensão de um ignorante de tudo. Mas o sistema tem como centro Deus e não o homem e ninguém pode alterar a realidade dessa estrutura do universo. 

E, assim, quando um centro menor, fazendo mau uso da liberdade, tende a agir contra o Todo, então os impulsos do conjunto orgânico se encontram contra ele para expulsá-lo do sistema. Veremos, dentro em pouco, como pode surgir essa atitude rebelde das criaturas e quais as suas consequências.
 

Compreende-se, dessa forma, como o mundo de hoje, baseando-se no egoísmo, esteja completamente fora da rota. Os métodos mais seguidos para a conquista da riqueza representam, mesmo do ponto de vista utilitário, um grosseiro erro psicológico. Acumular com exclusivismo egoísta significa caminhar contra a maior corrente da vida, agir com prejuízo, significa pôr-se em posição invertida, não obter senão resultados negativos. 

E quanto mais porfiadamente o homem lutar nessa direção, buscando vencer por ela, tanto mais se afastará das fontes do ser, para perder-se no deserto em que o isolarão as forças da vida, que dele se arredarão como de um pestilento. Deus é Amor e sempre dá. 

A divina corrente do Todo está baseada no princípio do dar. Agindo em contrário, o homem pretenderia opor-lhe, como uma muralha, o oposto sistema, do tomar! Então, a muralha não susta a corrente, mas a corrente destrói a muralha. A nossa economia, porventura, não está baseada no princípio "do ut des" ? [4]

Se a balança da justiça assim se apresenta, isto significa egoísmo pelo qual eu não darei se tu não deres. Se não tiveres para dar, morrerás, o que a mim não importa. E se não deres, eu não darei. Este princípio de compensação, que são as bases reconhecidas da economia vigente, constitui a mais lídima manifestação do egoísmo. 

 Se tal é a atitude da alma, que salvação podem realizar os sistemas econômicos que se erguem sobre essas bases? Uma economia desse tipo, em face das mais profundas leis da vida, éticas e espirituais, das quais é ilusório querer furtar-se em qualquer procedimento nosso resulta também utilitariamente negativo, isto é, contraproducente. 

Efetivamente o mundo econômico-financeiro não passa de uma série de crises em cadeia que formam uma única, perene crise insanável porque ela não se origina de um particular momento ou posição, mas de todo o sistema. Por que então, o homem se comporta assim e não sai dessa posição falsa?
 

Simplesmente porque a grande massa humana e involuída e não compreende esses erros psicológicos e também porque, quando já se tomou uma direção, é muito difícil inverter a rota. 

E aqui se trata precisamente da evangélica inversão dos valores, isto é, de pôr no cimo da escala destes os espirituais e no fundo os materiais, mas hoje se verifica o inverso, sendo colocados em cima estes últimos em virtude de que o tipo biológico dominante na Terra não se encontra ainda, por evolução, sensibilizado a ponto de percebê-los e apreciá-los. 

Ele corre atrás dos fictícios do mundo sensório e corporal, ao invés de buscar os mais consistentes do mundo espiritual e da alma. O tipo dominante não consegue ainda compreender esse novo hedonismo e apoderar-se dele em seu benefício. 

A nova vida é a do bem que opera honestamente, sem enganar, pedindo antes o trabalho e depois a recompensa. O homem ignorante prefere as vias do mal, que agem desonestamente, enganando, prometendo dar muito e chegando mesmo a dar logo alguma coisa sem nada pedir, para mais tarde retomar o que deu e não dar o que prometeu. 

O caminho feito de mentira é mais atraente, para quem crê ser bastante bravo para burlar as leis da vida, o que leva a cair facilmente numa armadilha. Cada qual atrai segundo a própria psicologia e obtém o que merece.
 

O homem comum, imerso em um mar de mistérios, não sabe se orientar, detendo-se nos efeitos imediatos. No altruísmo ele vê um sacrifício tangível, próximo, real. Vê nele um perigo para si e para os seus, de modo que tem como um dever arrebanhar o mais que pode para si e para os seus. Em face do altruísmo ele recua exclamando:  

"E quem me garante a vida?" 

O assalto permanente que sofre da parte do próximo, que ele deveria amar como a si mesmo, justifica em parte essa sua atitude e exigiria heroísmo ter que invertê-la no oposto. Para chegar a ela terá que dar não apenas o seu sacrifício imediato, mas para manter-se teria que lutar sozinho contra toda uma corrente inversa - a da sociedade humana. Todavia, há uma grande força em sua defesa, coisa de que na Terra bem raramente se dá conta. 

O homem altruísta que, por não ter egoísmo, é espoliado de tudo, porque tal é o resultado de uma guerra de egoísmos, para quem não ataca e se defende, tal homem atrai as forças da vida que acorrem a fim de salvá-lo. Elas não constituem utopia e regem o mundo. Elas acorrem porque esse homem personifica o maior interesse e a vontade da vida, que é a evolução. 

Mas, para compreender isto é necessária uma sensibilização moral e psíquica, que não existe na maioria, uma precisa orientação conceitual, através da qual se tenha compreendido o funcionamento orgânico do universo, é indispensável, enfim, a prova resultante do controle experimental de toda uma vida.
 

Na realidade, funcionam inúmeras forças que a maioria ignora. Deus, ao sensibilizado por evolução, é uma realidade sensível. O caminho para aproximar-se Dele, suprema alegria, consiste na progressiva dilatação do próprio egocentrismo, que denominamos altruísmo, isto é, o fraterno amor evangélico. 

Este constitui o método de ascensão para a felicidade, encurtando as distâncias entre o homem e Deus, porque assim a criatura, segundo o exemplo divino, volta-se para trás a fim de orientar as criaturas irmãs. 

Quando o ser se decide dessa forma a funcionar segundo a lei do Todo e se dispõe a despojar-se do que possui em favor do necessitado, põe em movimento os impulsos do sistema e faz com que este funcione em seu favor, de modo a ser de alguma forma provido e largamente compensado do que perdeu, dando voluntariamente. Em outros termos, ativa-se o princípio: 

quem beneficia seja beneficiado e tanto mais beneficiado quanto mais beneficiou. Inicialmente, punge o sacrifício de pôr em movimento essas forças, mas o sistema, pode-se dizer, é de uma precisão mecânica tal que, uma vez posto em ação por quem compreende e sabe, matematicamente dará resultado.
 


Certamente é necessário ter compreendido a estrutura coletiva do organismo universal, a universal imanência de Deus, pela qual tudo "é", a orgânica natureza do Todo, do qual cada indivíduo é parte que vive em relação e das relações com as outras partes, célula que morre se se isolar. 

É necessário evoluir para sensibilizar-se de modo a perceber essa irradiação do centro, Deus, que rege inteiramente o sistema, até a sua periferia, onde nós, menos evoluídos, nos encontramos. 

É necessário compenetrar-se de que pobreza não existe na infinita riqueza de Deus, de que os bens são ilimitados e constantemente irradiados, sempre prontos a saciar qualquer possível necessidade.
 

Deste oceano, o ser, no entanto, não poderá captar para si mais do que lhe permite a sua capacidade receptiva, que é dada pela sua evolução, pela sua aderência ao sistema, ou seja, pela aderência à Lei ou vontade de Deus. É, pois necessário que ele funcione de acordo com a Lei, agir com amor, sabendo irradiar, dispondo-se a dar e aplicando assim a norma evangélica do "ama o teu próximo".
 

O problema está em saber acionar os impulsos do sistema de modo a pôr em movimento essa irradiação. Se soubermos abrir as janelas de nossa alma, seremos inundados por essa irradiação. 

Mas, para economizar o esforço de abri-las, quando não confiamos, prudentemente fazemos os nossos cálculos utilitários para nada arriscar; encolhendo-nos em um canto, e, então, permaneceremos no quarto escuro e frio de nós mesmos a disputar com o vizinho o pouco de luz ou de calor que, apesar de tudo, coa-se para o interior, ainda que lá fora tudo exista numa exuberante trepidação de vida. 

Mas, tal é o nosso mundo, em que as maiores guerras se fazem para disputar o que já possuímos de uma riqueza que é infinita, conseguindo apenas destruir o que já se encontra em nosso poder. Desta forma, escondemo-nos em sua prisão. Bastaria saber abrir-lhe a porta para que nos evadíssemos. 

A porta, para que se abra, exige que recuemos um pouco, mas o homem prisioneiro, na ânsia de fugir, ao invés de recuar um pouco para trás, avança sofregamente, buscando o exterior e, pensando em tudo, menos no que deve fazer para se libertar, mais e mais impele a porta do lado em que ela se fecha, mais e mais com o seu esforço tornando difícil a libertação. Ele é um louco. Para desfazer certas miragens e destruir outras tantas ilusões psicológicas é necessário ao homem a dolorosa elaboração de milênios.
 

O raciocínio do homem atual parece verdadeiro, porque o é apenas em parte, pelo menos onde ele alcança com o conhecimento, isto é, no seu mundo concreto, que representa a periferia do sistema e que ele, ignorante do resto, supõe que seja tudo.
 

Desfazer em altruísmo o próprio egoísmo é efetivamente uma perda, mas somente periférica e em uma primeira fase. 

Porque realmente não é perda, mas antes ganho, quando em um segundo tempo o ser vem a pôr-se em contato com outras forças não periféricas. Efetivamente, o altruísmo não é vantajoso neste mundo, quando outros seres estão dispostos a arrebatar-nos tudo e aproveitar-se de nosso sacrifício em proveito próprio, embora com evidente perda para si. 

E esta é definitiva para o involuído que, em remotas conexões com o centro Deus, só é escassamente irradiado e, por conseguinte, empobrecido e privado de novos suprimentos. E, dado que nos encontramos na periferia do sistema e que a maioria é, por involução, pouco irradiada, a posição do prisioneiro da pobreza e da dor, sem capacidade de evasão, é lógica e compreensível. 

Não há remédio imediato. Não resta senão deixá-lo na posição que lhe cabe, segundo o seu grau de evolução, a espera de que os golpes da vida o elaborem até que ele compreenda o mecanismo do sistema e consiga assim fazê-lo funcionar em seu proveito. 

É inútil querer explicá-lo antes que ele amadureça, porque permanece incompreensível, pois que não se aceita aquilo que não se mereça conhecer, por não se ter feito ainda o esforço de conquistá-lo.
 

Tudo será muito diverso para o evoluído. Desfazer em altruísmo o próprio egoísmo também para ele significa um prejuízo. Mas ele pode enfrentar com segurança esse sacrifício, porque conhece a estrutura do sistema e sabe, por isso, o que se seguirá a esse sofrimento. 

Espiritualmente ligado ao centro Deus, não vive apenas de limitada vida periférica. Pelo contrário, é justamente este seu sacrifício de dar irradiando, a força decisiva que abrirá janelas que o inundarão de sol. É este o difícil passo para trás, o único que pode permitir-lhe abrir as portas da prisão. 

É esta negação de si próprio em altruísmo, na periferia, uma afirmação para o centro Deus, isto é, uma mobilização das forças de irradiação que esperavam essa sua atitude para podê-lo inundar. Porque é o ser livre que deve encontrar a chave e com ela abrir o mistério da evolução. 

E, assim, em um segundo tempo, ele será largamente recompensado e enriquecido pelo seu empobrecimento que, na realidade se reduz a perdas diminutas na zona periférica do sistema universal, na zona da matéria e das ilusões. Defrontamo-nos assim, em verdade, com um sábio cálculo utilitário que, diferentemente do outro, conduzirá a plena satisfação e segurança de êxito.
 

Eis o raciocínio desse tipo de homem. Dirige-se a Deus, dizendo:  

"Senhor, eu dou, empobreço-me materialmente, mas com isto eu me torno instrumento que adere à Tua Lei, vivo segundo as linhas de força do Teu sistema. 

Para o triunfo do Teu Amor eu sacrifico o meu pequeno eu. Tu sabes que agir assim na periferia, onde me encontro imerso na matéria, significa empobrecer até a morte. Mas eu não existo mais para mim, isolado, mas na vida universal, em que Tu "és" . Eu não quero mais a mim mesmo mas somente a Ti, em Quem eu vivo. Quero a Tua Lei. Faço parte do Teu organismo. 

Sou uma célula dele, uma Tua célula. Tu és o meu eu maior, em que agora existo. Então a minha morte não é mais possível. Compete a Ti e à Tua Lei impedi-la, e que a vida me seja dada, pois que ao meu fraco poder de defesa eu renunciei para seguir a Tua Lei de Amor. Não é possível que, para seguir-Te eu deva perder a vida. Sei que esta tem fins eternos a alcançar e que eles devem ser alcançados. 

Ela não pode perder-se ao acaso e não depende da minha pobre defesa do momento. Seguindo-Te, eu ganho a vida. E se também morrer, não perderei senão a minha vida menor, porque ressurgirei na Tua vida maior”. Assim se compreende o Evangelho de São João (Capítulo XII: 24-25), quando diz:
 

"Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto".
 

"Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo aborrece a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna”.
 

A luta entre o evoluído altruísta e o mundo egoísta, que não se preocupa senão de espoliá-lo e explorá-lo, é terrível. A situação é tal que se procura, por todos os meios, eliminar o benfeitor e isto exatamente por parte daqueles a quem ele desejaria fazer o bem. Poderosa é a resistência que o involuído opõe a quem procura fazê-lo evolver para a felicidade e trágica é na Terra a posição dos benfeitores da humanidade: 

posição de martírio! 

É como querer abraçar por amor um tigre: 

fica despedaçado. 

Porem a vida só em parte é terrena e não se exaure apenas do ponto de vista humano. O trabalho desses homens é missão e interessa também ao céu. Dado que à vida, se pouco interessa o indivíduo muito interessa a função que ele personifica, sobretudo a evolutiva, então esse indivíduo se torna sagrado e forças superiores intervém para protegê-lo no sacrifício até que a missão seja cumprida e se dê o milagre.
 

Então, aciona-se o movimento da irradiação, porque o ser não a contém mais em si, mas lhe faculta o fluxo, tornando-se-lhe um canal que permita fluir no universo, de criatura em criatura, a divina linfa vital. E a irradiação está pronta a lançar-se onde a passagem é livre e desviar-se de onde há obstrução. 

E assim os homens altruístas se tornam, cada vez mais, instrumentos da Lei que, cada vez mais, nutre esses seus canais e os exalta, enquanto funcionam segundo a direção dos seus sistemas de forças. Tudo isto significa dar, cada vez mais amplamente, um despojamento crescente, que aterrorizaria o involuído, mas no mesmo passo significa um nutrimento sempre mais vigoroso de forças. 

Ser irradiado significa sentar-se a uma lauta mesa de recursos ilimitados. E o sistema é tal que quanto mais aumenta o sacrifício em dar, mais cresce o dom que se recebe, porque com isto se sobe na hierarquia dos operários do Senhor, com a conquista de poder e sabedoria crescentes.
 

Eis a estupenda realidade que está além das trevas que ocultam ao homem comum a verdadeira estrutura do sistema. O Evangelho concorda com tudo isto, concluindo pela norma do "ama o teu próximo", sem dela dar explicações racionais. Essa conclusão tem sua grande confirmação no mundo atual, que, não a podendo compreender, a considera uma utopia. 

Estas concepções, obtidas por visão com o método intuitivo, foram aqui expostas pelo autor sob controle durante quarenta anos, usando o método experimental, sem que elas, nos fatos por ele vividos, jamais encontrassem um desmentido. Se este tivesse ocorrido, teria sido gravíssimo, porque os fatos, ainda que apenas um, teriam desmentido a Evangelho. Muito se deve pensar agora que o Evangelho, que parece utopia, se realmente vivido, torna tangível a verdade que não falha.
 

Horizontes novos e ilimitados, inexplorados continentes do espírito, repletos de riquezas ignoradas, vastidões abismais de infinito sobre os quais a alma se debruça, em vertigem! O homem ignorante não suspeita qual o futuro que ali o espera. Além do infinito astronômico existe o maior infinito espiritual. 

E nesta Terra, grão de areia cósmica, por um pouco de espaço e de bens, o homem, centelha divina, com que ferocidade e estupidez mata, sem saber quem é e no que poderá tornar-se!

[4] - “Dou para que dês”. (N. do T.)