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13/04/2015


32. 

GÊNESE DO UNIVERSO ESTELAR 

— AS NEBULOSAS — 

ASTRO QUÍMICA E ESPECTROSCOPIA

 



Retomemos agora alguns conceitos já ventilados e continuemos seu desenvolvimento. Desse modo, completaremos a exposição sumária dos princípios e tornaremos a observá-los na realidade fenomênica; observaremos os fatos sempre sob novos aspectos.
 




Retomarei por um momento a fase gama em seu aspecto estático, descrevendo-vos a construção do universo físico: 

uma pausa no campo astronômico, para daí tomar impulso para conceitos mais profundos. 

Dir-vos-ei coisas que não podia expor antes de amadurecer tantos conceitos. 

Esta minha exposição cíclica progressiva que adoto, corresponde à maturação de vossa psique e à necessidade de expor-vos gradualmente a grande visão, a fim de que a assimileis, ao invés de perder-vos. Cada conceito, se não for esboçado antes, numa primeira fase apenas em suas linhas fundamentais, arriscaria perder sua unidade em infinitas ramificações colaterais. 

Cada conceito estende-se como uma esfera, em todas as direções, enquanto vossa consciência só pode perceber um de cada vez. Por brevidade, temos que escolher os principais. Minha consciência volumétrica — isto é, de terceira dimensão — num plano superior à vossa, de superfície (segunda dimensão), como vos explicarei, vejo por síntese, ao passo que vós vedes por análise. 

O finito, de que sois feitos, justifica esses retornos, a que sois obrigados, para examinar sucessivamente a realidade em seus aspectos, que nós vemos em síntese, a fim de penetrar, por degraus, além da forma que está na superfície e recobre a essência que está na profundidade.

O estudo do aspecto dinâmico da fase gama mostrou-vos na estequiogênese, o nascimento, a evolução e a morte da matéria. Caiu, desse modo, vosso dogma científico da indestrutibilidade da matéria. Compreendidos os conceitos de nascimento da matéria, por concentração dinâmica; de sua evolução química; de sua morte por desagregação atômica (radioatividade); vejamos, agora, como se comporta essa matéria na realidade do universo astronômico, nos imensos amontoados de estrelas.

Diagrama da Evolução Estelar de Hertzsprung - Russell.

 

Um exemplo no campo físico poderia ser trazido como ilustração do princípio do desenvolvimento cíclico dos fenômenos, com a volta ao ponto de partida, mas com progressivo deslocamento do sistema: é o que encontrais na trajetória traçada pelo caminho da Terra nos espaços. 

Girando em redor do sol num plano, com os outros planetas, em sua mesma direção — enquanto o sol, por translação, afasta-se das regiões de Sírius para as de Vega da Lira e para a constelação de Hércules — a Terra descreve exatamente uma trajetória que, mesmo retornando sempre sobre si mesma, jamais volta ao mesmo ponto de partida no espaço. 



Isso acontece porque o movimento solar de translação faz desenvolver-se a elipse planetária, não num plano, mas em espiral, de acordo com a direção do deslocamento do sol. 



Entretanto, observemos mais de perto um fenômeno muito mais amplo: a construção de vosso universo estelar. Já acenamos a isso a propósito do desenvolvimento do vórtice das nebulosas. Esse simples aceno merece mais profundo exame, agora que completamos o estudo da espiral. Vosso universo estelar é constituído pela Via Láctea; no plano físico, é a exata expressão do princípio da espiral. 

Muitas dúvidas vos atormentaram e muitas hipóteses aventasteis, para explicar a construção e a origem dessa faixa estelar que envolve os dois hemisférios de vossa visão celeste. Não formulo hipóteses, mas vos transmito, como o vejo, o estado dos fatos e vos indicarei de que modo, em parte, podereis controlálos.
 
A matéria, pela lei das unidades coletivas, se vos apresenta em amontoados geológicos e siderais. Todo o vosso universo físico é constituído pela Via Láctea, um sistema completo e limitado, a cujo diâmetro podeis dar o valor de cerca de meio milhão de anos-luz. O sol, com a corte de seus planetas, está situado no sistema. A via Láctea é, exatamente, um vórtice sideral em evolução.



Demonstraremos esta afirmação. O grande vórtice da Via Láctea é dado pelo seu devenir — pela lei dos ciclos múltiplos — por vórtices siderais menores, que vedes e conheceis, e nos quais podeis encontrar o caso maior. Os telescópios vos põem sob os olhos várias nebulosas, as da constelação da Balança, de Andrômeda; a nebulosa em espiral da constelação do Cão, nebulosa regular, em que a linha da espiral está claramente visível. 


Constelação do Cão Maior.


O vórtice estelar é, por vezes, como neste caso, orientado de maneira a apresentar-se de frente, às vezes obliquamente, aparecendo como um oval achatado, em perspectiva, como na nebulosa de Andrômeda; às vêzes de perfil, em sua espessura. Neste caso, assume o aspecto da seção de uma lente e as espirais, ao sobreporem-se, ficam ocultas ao olhar. Vosso sistema solar foi uma nebulosa, que agora chegou à maturidade; os planetas, cuja verdadeira órbita é uma espiral com deslocamentos mínimos, recairiam no sol, se não se desagregassem pela radioatividade. 

A via Láctea é apenas imensa nebulosa espiralóide, em processo de maturação. Vosso sistema solar, como as citadas nebulosas, faz parte dela. No âmbito da espiral maior, desenvolvem - se as espirais siderais menores. Podeis representar a Via Láctea como imenso vórtice, semelhante, embora maior, ao da nebulosa da constelação do Cão. O sistema solar está imerso na espessura do vórtice que, portanto, só aparece visível em sua seção; mas como seção, vos envolve nos dois hemisférios e por isso aparece uma faixa em todo o redor.

Eis os fatos que vos demonstram essa afirmação: é no plano equatorial da Via Láctea que se comprimem os amontoados das estrelas, enquanto nos pólos a matéria está em estado de rarefação; as estrelas multiplicam-se à proporção que vos avizinhais da Via Láctea. O sistema solar está situado mais para o centro da espiral, centro que lhe fica de lado, no plano de achatamento e do desenvolvimento do vórtice. A distribuição diferente das massas siderais, em vosso céu, é causada exatamente pela visão que conseguis, quer na maior secção horizontal, quer na menor secção da direção vertical, do esferóide achatado, que representa o volume do sistema espiralóide galático.

Galáxias satélites da Via Láctea.


Mas há fatos mais convincentes. A espectroscopia permite estabelecer uma espécie de astroquímica, que vos informa a respeito da composição das várias estrelas. Com a análise das radiações estelares, também podeis estabelecer sua temperatura, porque à proporção que esta aumenta, vedes aparecer no espectro as várias cores, do vermelho ao violeta, que é o último a aparecer. O ultravioleta revela as temperaturas mais altas. Quanto mais o espectro se estende nessa área, mais quente é a estrela observada. 

Então o espectro vos revela, concomitantemente, a constituição química e a temperatura. Baseando-vos nestes critérios, torna-se possível uma classificação das estrelas, quanto ao tipo, e uma graduação delas também em relação a seu grau de condensação, daí sua idade no processo evolutivo. Uma primeira série de estrelas é composta de gases incandescentes, como o hidrogênio, o hélio e o nebúlio (que ainda desconheceis). Deste último são as estrelas mais quentes. A matéria está no estado gasoso, a massa estelar é uma nebulosa ainda no seu início.
 
Estas são as estrelas mais jovens, de cor prevalentemente azul, e representam a fase inicial da evolução sideral do vórtice galáctico. Essas estrelas estão todas situadas nas vizinhanças imediatas da Via Láctea. Continua a gradação e abrange estrelas de hélio sempre quentes e jovens, sempre próximas da Via Láctea; depois as estrelas de hidrogênio, em que se acentua o hidrogênio e o hélio, tende a desaparecer. 

Embora nas proximidades da Via Láctea, elas começam a espalhar-se pelo céu. Menos jovens, mais avançadas evolutivamente que as precedentes, em via de condensação, emanam luz branca. A essa série de estrelas brancas (a que pertence Sírius) segue-se a das estrelas de luz amarela, nas quais os metais substituem os gases, mas sempre em temperaturas elevadíssimas, embora inferiores às precedentes. 

Estas estão espalhadas ainda mais uniformemente pelo firmamento e se acham em processo de solidificação. Entre elas situa-se vosso sol. Ele encontra-se entre as estrelas que estão envelhecendo, esperando a morte por extinção. Suas manchas já as anunciam e tornar-se-ão cada vez mais extensas e estáveis, até o fim. A última série é a das estrelas vermelhas, com a temperatura que chega a um resfriamento avançado, nas quais os gases desaparecem para dar lugar aos metais: são as estrelas mais velhas, distribuídas quase uniformemente pelo espaço. 

Entretanto, outros fatos há para observar e que se desenvolvem paralelamente aos quatro já observados:

constituição química, temperatura, condensação, idade. 

As estrelas afastam-se da Via Láctea à proporção que envelhecem. Bastaria isto, para demonstrar que na Via Láctea está o centro genético do sistema, pois é exatamente nela que encontrais as estrelas em sua primeira fase de evolução. As vermelhas, as mais velhas, encontram-se afastadas das regiões mais jovens da Via Láctea. 

Em outras palavras: existe um processo paralelo de maturação da matéria e de afastamento do centro, porque as mutações químicas, o resfriamento, a condensação e o envelhecimento significam evolução, esta corresponde a um processo de abertura do sistema, que vai do centro à periferia.
 
Acrescentemos outro fato: as velocidades siderais, partindo de uma velocidade nula para as nebulosas irregulares, aumentam gradualmente nas estrelas de hélio, de hidrogênio, amarelas, vermelhas, planetárias. Isso vos diz que as estrelas, durante o processo de evolução assinalado pelo tempo, projetam-se do centro para a periferia.
 
Acrescentai a isto tudo o exemplo do tipo de desenvolvimento em espiral, visível nas nebulosas menores, que reproduzem, em proporções mais reduzidas, o sistema maior, e tereis um acúmulo de fatos convergentes para o mesmo princípio, que afirmei ser a base da construção orgânica de vosso universo estelar.
 



31 . 

SIGNIFICADO TELEOLÓGICO DO TRATADO —
PESQUISA POR INTUIÇÃO

 



Sob minha direção, recomeçai comigo vossa viagem, mais que dantesca, através do universo. A estrada é longa, o panorama é amplo e vosso pensamento corre o risco de perder-se. Desejáveis provas e demonstrações; aqui as tendes em profusão. 







Segui-me e minha argumentação cerrada, maravilhosa correspondência de toda a fenomenologia existente com o Princípio Único que vos expus, levar-vos-ão até o fim — logo que tivermos atingido as conclusões de ordem moral e social — a enfrentar este dilema: ou admitir todo o sistema, ou nada. 

Se o sistema corresponde à verdade em tantos fenômenos conhecidos, deve também corresponder aos fenômenos que não conheceis nem podeis controlar; admitir e seguir os princípios de u’a moral superior — parte integrante do sistema — não será mais questão de fé, mas de inteligência.
 

Depois disto, todo homem dotado de inteligência terá o dever de honestidade e justiça. Diante da demonstração evidente que coloca a questão moral na base do dilema: compreender ou não compreender, não é mais lícito duvidar e fugir. O malvado só poderá ser inconsciente ou de má-fé. Não se poderá mais discutir uma ciência da vida, que está baseada numa concepção teleológica que corresponde aos fatos e que está em relação harmônica com o desenvolvimento de todos os fenômenos; não mais construções do todo, isolado do resto do mundo fenomênico, indemonstráveis, frequentemente uma nota dissonante no grande concerto do universo; não mais — como em tantas filosofias — uma idéia particular, elevada a sistema. 

Como um verdadeiro edifício erguido sobre fundamentos vastos como o infinito, o homem é considerado em relação às leis da vida, estas em relação à lei do todo. Uma vez completado o tratado, não será mais lícito, racionalmente, ao homem, isolar-se em seu egoísmo, indiferente ou agressivo, pois tudo é organismo, também a coletividade, esta não pode ser senão um organismo. 

Até mesmo em sua forma, esta teleologia que estou desenvolvendo corresponde ao princípio orgânico e monístico do universo. Observai como é pouco o que estou demolindo e como, ao invés, cada palavra tem sua função construtiva; observai como é pouco o que nego, diante de tudo o que afirmo.

Evito agressões e destruições; fujo de vossas inúteis divisões, como materialismo e espiritualismo, positivismo e idealismo, ciência e fé. Divergências transitórias vos atormentaram nos últimos decênios, mas eram necessárias para preparar-vos a maturação de hoje, que é o momento da fusão e da compreensão, entre uma ciência que se tornou menos dogmática e soberba, mais sábia em sua atenuada pressa de conclusões e deduções, e uma fé mais iluminada econsciente. 

Eu sou tanto uma quanto a outra. Meu olhar é bastante amplo para compreender, ao mesmo tempo, os dois extremos: o princípio da matéria e o princípio do espírito. Esta minha apologética da obra divina é novo benefício que vos chega do Alto. É uma demonstração que presume que sois conscientes, adultos e maduros. Vossa responsabilidade moral crescerá como nunca, se ainda quiserdes insistir nas velhas sendas da ignorância ou da ferocidade. 

Eu sei! O misoneísmo atávico de vossa orientação psicológica é imensa barreira, massa negativa e passiva, que me resiste com sua inércia. Qualquer mente humana se despedaçaria, sem movê-la, contra essa muralha gigantesca. Mas meu pensamento é um fulgor que abalará as mentes. Se possuís toda a resistência da matéria inerte, eu possuo todo o poder do pensamento dinâmico que desce relampejando do Alto. Vossa psicologia é um fenômeno com sua própria velocidade e massa, lançado ao longo de uma trajetória que resiste a todo desvio. 


O misoneísmo atávico de vossa orientação psicológica ...



Mas eu represento um princípio superior a esse fenômeno e intervenho no momento em que, por sua maturação, a lei impõe uma mudança de rota. Chegou o momento, e vós subireis.
 

Cada vez percebeis melhor o centro deste pensamento que se vai desenvolvendo, não é, nem pode ser, de vosso mundo; é uma síntese tão ampla, poderosa e exaustiva, que jamais foi proferida na Terra. Toda essa massa conceptual, que tendes sob os olhos, move-se do infinito — seu ponto de partida — e daí desce até o vosso concebível. Para quem a procura, esta é a prova íntima, presente em cada página, da origem transcendente da obra, prova real, inerente ao Tratado que o acompanha; prova mais sólida que todas as exteriores que procurais nas qualidades do instrumento e nas modalidades de transmissão e recepção. 

O ângulo visual e a amplidão de perspectiva desta síntese estão, absolutamente, acima de todas as sínteses humanas ao vosso alcance. No entanto, esforço-me num contínuo trabalho de adaptação, a fim de reduzir à vossa capacidade estes conceitos, próprios de planos mais altos. Sem este trabalho, o Tratado teria de desenvolver-se, em grande parte, fora de vosso concebível, por considerar realidades superiores, inimagináveis para vós.
 

Este Tratado satisfaz plenamente à necessidade de vossa ciência atual: reduzir a imensa variedade de fenômenos a um princípio único. Vedes todas as minhas argumentações convergirem para esse monismo sintético: a busca e a necessidade de vosso intelecto. Minha afirmação diz: unidade de princípio em todo o universo; unidade na complexidade orgânica, unidade no transformismo evolutivo. 

Em sua grandiosa simplicidade, esta idéia é a mais poderosa afirmação de vosso século. Esta idéia, tremendamente dinâmica e fecunda, é suficiente para criar uma nova civilização. O conceito de lei, que cada palavra minha reafirma, é ordem, equilíbrio, afirmação; põe em fuga todos os niilismos, pessimismos e ateísmos, a ideia da cegueira do acaso, da atrocidade do sofrimento, da desordem e da injustiça na criação; ela vos torna melhores e vos eleva a cidadãos de um mundo maior, conscientes das leis que o dirigem. 

Mas, uma tal síntese não podia ser alcançada por mentes imersas, no relativo, mas apenas de um ponto de vista que, estando fora da humanidade, pudesse, numa visão de conjunto, contemplá-la toda; ou seja, não podia chegar a vós, senão provindo de um plano mental superior. As páginas que se seguem justificarão estas afirmações, dando-vos novas aproximações do superconcebível que vos ultrapassa.

Colocasteis vossos pontos fixos na Terra, quando, ao invés, eles estão no céu. Os fatos donde moveis, o método da observação e o instrumento da razão, fecham-vos num círculo, sem possibilidade de saída. Jamais discutisteis vós mesmos e nem pensasteis que se devesse superar vosso instrumento — esta é a primeira coisa a fazer. Eu quebro os grilhões e escapo do círculo em que vos haviam trancado vossa ciência e vossa filosofia. 

Era preciso quebrar de uma vez por todas esse anel: análise e síntese, síntese e análise, e encontrar um ponto de partida fora de vosso relativo. Um sistema filosófico ou científico pode ser uma concatenação e uma construção perfeitas, do ponto de vista lógico e matemático. Mas o ponto fixo, a base de onde partis, está sempre lá, no relativo; por isso, vossas construções são em tão grande número e tão diferentes, todas prontas a ruir, logo que sejam deslocadas desse ponto. Muitas vezes vos isolais numa unilateralidade de concepção, elevando-vos, vós mesmos, a sistema.
 

Muitas vezes sabeis, pelo poder da mente, mas depois vosso coração não segue junto. De que serve saber, se não sabeis amar? Separais pesquisa e paixão, mas o homem é síntese feita de luz e calor. Além disso, como pudesteis crer possível chegar sozinhos — por força de análises e hipóteses, esflorando os fenômenos com vossos sentidos limitados — a alguma coisa que ultrapassasse uma síntese parcial, isto é, a síntese máxima? O que tendes sob os olhos? Como pode caber em vosso pequeno mundo terreno, todo o mundo fenomênico? 

Entretanto, eu resolvo, mas mudando de sistema; arraso o método indutivo, para substituí-lo pelo método intuitivo [8]. Mas nem por isso deixo de dirigir-me e de ficar aderente à realidade, verdadeira base de qualquer filosofia. Eu vos digo: as realidades mais poderosas estão dentro de vós. Olhai o mundo, não com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma. Os métodos dos quais tanto se ocupam certas filosofias, os métodos clássicos de pesquisa que vos parecem inabaláveis, já deram até agora todo o seu rendimento; são meios superados, que não vos farão mais progredir um passo sequer. 

[8] - Esse problema do método é aprofundado no volume Ascese Mística— parte I: “O Fenômeno”. (31.6) 

12/04/2015


30. 

PALINGENESIA

(Eterno Retorno)











Que vem a ser, neste sistema, o vosso conceito de Divindade? Compreendeis que Deus não pode ser algo mais e exterior à criação, ou distinto dela; que só o homem que está no relativo pode acrescentar a si, ou devenir além de si, não Deus, que é o absoluto. 











Vossa concepção de um Deus que cria fora e além de si, acrescentando algo a si mesmo, é absurda concepção antropomórfica, é querer reduzir o absoluto ao relativo. Não pode haver criação no absoluto. Só no relativo pode haver nascimento e transformação. 

O absoluto simplesmente “é”. Não queirais restringir a Divindade aos limites de vossa razão; não vos eleveis a juízes e à medida do todo; não projeteis no infinito as pequeninas imagens de vosso finito; não ponhais limites ao absoluto. Em sua essência, Deus está além do universo de vossa consciência, além dos limites de vosso concebível. É irreverência aviltar esse conceito para querer compreendê-Lo. 

Constituindo-vos em medida das coisas, colocais como sobrenatural e miraculoso qualquer fato novo para vossas sensações, tudo o que exorbite do que sabeis e conheceis. Mas, a natureza é expressão divina e não pode haver nada acima dela, nenhum acréscimo, nenhuma exceção, nenhuma correção à Lei.Sobrenatural e milagre são conceitos absurdos diante do absoluto, aceitáveis apenas em vosso relativo, aptos a exprimir vosso assombro diante do que é novo para vós e nada mais. 

Neles está contida a idéia de limite e de seu superamento; conceitos inaplicáveis à Divindade. Esta é superior a qualquer prodígio e o exclui como exceção, como retorno ao que já está feito, como retoque ou arrependimento e, sobretudo, como vontade de desordem no equilíbrio da lei estabelecida. Limitai a vós mesmos esses conceitos e não vos julgueis centro do universo. 

A palingenesia: Antigo tratado alquímico.


Guardai para vós os conceitos de tempo, de espaço, de quantidade, de medida, de movimento, de perfectibilidade. Não deveis medir a Divindade como medis a vós mesmos; não tenteis defini-La, muito menos com aquilo que serve para definir-vos a vós mesmos, por multiplicação e expansão de vosso concebível. Se quereis somar ao infinito vossos superlativos, dizei ao infinito: isto ainda não é Deus. 

Seja Deus para vós uma direção, uma aspiração, uma tendência; seja para vós a meta. Se Deus está no infinito — inconcebível para vós em sua essência — nosso finito dele se avizinha por aproximações conceptuais progressivas. Vede como na Terra cada um adora a representação máxima da Divindade que pode conceber, e como, no tempo, essa aproximação se dilata. 

Do politeísmo ao monoteísmo e ao monismo verificais o progresso de vossa concepção, que é proporcional à vossa força intelectiva e progride com ela. A luz aparece mais intensa à proporção que o olhar se torna mais penetrante. O mistério subsiste, mas empurrado cada vez para mais longínquos horizontes. Por mais que este se dilate, haverá sempre um horizonte mais afastado para atingir. 

Ao verificar vossa relatividade que progride, eu não destruo o mistério, mas o enquadro no todo e dele dou a justificação racional, torno-o um mistério relativo, que só existe pela limitação de vossas capacidades intelectivas, que recua continuamente diante da luz, em função do caminho das verdades progressivas; um mistério fechado dentro dos limites que a evolução ultrapassa dia a dia. 

Se a divindade é um princípio que exorbita vossos limites conceptuais, ela lá está a esperar-vos; para revelar-se, espera vossa maturação. Hoje, que finalmente vossa mente está amadurecendo, não é mais lícito, como no passado, “reduzir” aquele conceito a proporções antropomórficas. Hoje, eu já trouxe ao vosso relativo nova e maior aproximação; projetei em vossas mentes a maior imagem que as humanidades futuras terão de Deus. 

Este é um canto mais alto de sua glória. Isto não é irreligiosidade, mas ao invés, pela maior exaltação de Deus, é religiosidade mais profunda. Não procureis Deus apenas fora de vós, tornando-O concreto em imagens e expressões de matéria, mas O “sentis”, sobretudo , em sua forma de maior poder dentro de vós, na idéia abstrata, estendendo os braços para o universo do espírito, que vos aguarda.


Obs: Sinceramente não encontrei referência à palingenesia neste capítulo que venha justificar seu título. Caso encontre retorno e corrijo essa nota.

07/04/2015


29. 
O UNIVERSO COMO ORGANISMO, MOVIMENTO E PRINCÍPIO



Chegados a este ponto e realizada em grandes linhas a exposição do sistema cosmográfico, podeis ter uma ideia aproximada de sua incomensurável grandiosidade. Por simplicidade e clareza, tive que seguir uma exposição esquelética e esquemática. 





Observamos o fenômeno reduzido à sua mais simples expressão de desenvolvimento linear; assim mesmo, que complexidade orgânica e de funcionamento, que riqueza de pormenores, que vastidão e profundidade de ritmo, que grandiosidade de conjunto! Acenei a uma síntese de superfície, mas esta é apenas a seção do dilatar-se de uma esfera; os ciclos, para corresponderem mais exatamente à realidade, teriam de ser esféricos, porque a evolução, espacial em $ \gamma $ , dinâmica em $ \beta $, conceptual em $ \alpha $ etc., — mudando de qualidade em cada fase — constitui verdadeira expansão em todas as direções. 

Vós não possuís sequer as palavras próprias que englobem exatamente todos estes conceitos ao mesmo tempo. Passais dos símbolos e abstrações matemáticas, em que o aspecto mecânico-conceitual do universo está isolado do dinâmico e estático e de outros aspectos que estão além de vossa inteligência, à realidade vestida de miríades de formas, complicada de infinitas minúcias de ações e reações. 

Imaginai a miríade de seres movidos por incessante dinamismo, que exorbitam do universo de vosso concebível, atentos a esse grande esforço da própria evolução, que consiste em conquista de perfeição, poder, consciência e felicidade sempre maiores; impelidos pela Lei, que é o princípio de seu ser, pelo instinto irresistível, pela aspiração máxima; atraídos pela imensa luz que baixa do Alto, cada vez mais alta à proporção que eles sobem. Imaginai os seres todos escalonados, cada um em seu nível, de ciclo em ciclo, tal como concebeis os anjos organizados nas esferas celestes. Imaginai o canto imenso que, da harmonia desse organismo, na ordem soberana dominante, eleva-se de toda parte e um pouco da grandiosa visão se abrirá diante de vossos olhos.
 
Olhai. Cada fase é um degrau, um átimo no grande caminho. As fases matéria, energia, espírito formam um universo. Outros universos seguem e precedem, organizando-se em sistema maior, o que é o elemento de um sistema ainda mais amplo e complexo, sem jamais haver fim, nem no mais nem no menos. O princípio das unidades coletivas (em seu aspecto estático) e dos múltiplos (em seus aspectos dinâmico e mecânico) é a força de coesão que sustenta a estrutura dos universos. 

Como a evolução é palingenesia, que leva do simples ao complexo, do indistinto ao distinto, e multiplica os tipos que levaria à pulverização do todo se essa força de coesão não reorganizasse o diferenciado em unidades cada vez maiores. Viveis, vós mesmos, esse princípio quando, ao progredir na especialização do trabalho, sentis a necessidade de reorganizá-lo; quando, paralelamente ao maior desenvolvimento das consciências individuais, vedes nascer consciências coletivas cada vez mais amplas e mais compactas. 

Assim, todos os seres tendem a reagrupar-se, à proporção que evoluem, em unidades coletivas, em colônias, em sistemas sempre mais abrangentes. Isso vos explica porque a matéria, que consideramos em sua estrutura e em seu devenir, apresenta-se a vós na realidade das formas e não em suas unidades primordiais, mas amalgamada e comprimida em agregados compactos, organizada em unidades coletivas de indivíduos moleculares. É a trajetória da espiral menor que se funde na espiral maior. Da molécula aos universos, a mesma tendência a reorganizar-se num sistema maior, a encontrar um equilíbrio mais completo em organismos mais amplos. 

Por isso, não encontrais moléculas isoladas, mas cristais, verdadeiros organismos moleculares, e amontoados geológicos; não encontrais células, mas tecidos: órgãos e corpos, que são sociedades de sociedades. Sempre sociedades moleculares, celulares, sociais, com subdivisões de trabalho e especialização de atitudes e de funções.
 
Essa possibilidade de estabelecer contatos e ligações entre os mais distantes fenômenos, que é possível por causa da universal unidade de princípio, permitir-nos-á mais tarde reconstruir uma ciência jurídico-social em bases biológicas. Por isso, também não encontrais planetas isolados, mas sistemas planetários; não estrelas, mas sistemas estelares; não universos, mas sistemas de universos. 

Em vosso universo, essa força que cimenta e mantém unidos e compactos os organismos, vós a chamais coesão no nível $ \gamma $ , atração no nível $ \beta $, amor no nível $ \alpha $. Um Princípio Único que se manifesta diferentemente nos diversos níveis e que assume diversas formas, adaptadas à substância em que se revela. Encontrais essa força unificante manifestada na concentricidade de todas as volutas da espiral. Tudo se entrelaça em redor de um centro, o núcleo, o Eu do fenômeno, em cujo derredor gira a órbita de seu crescimento.
 
O princípio das unidades coletivas dispõe as individuações por hierarquia, escalona os seres em diferentes níveis, segundo seu grau de desenvolvimento e suas capacidades intrínsecas. Por isso, o tipo superior domina naturalmente, sem esforço, o inferior, que não tem possibilidade de rebelar-se, porque o mais está totalmente acima de sua compreensão e de sua capacidade de ação. Estabelece-se, desse modo, um equilíbrio espontâneo nos diversos níveis, devido simplesmente ao peso específico de cada individuação. O diagrama das espirais fornece o conceito das hierarquias.
 
Agora, pensai apenas isto: vós não sois somente membros de vossa família, de vossa nação, de vossa humanidade, mas sois cidadãos deste grande universo. São apenas os limites de vossa consciência atual que não permitem que vos “sintais” uma roda da imensa engrenagem, uma célula eterna, indestrutível, que com seu trabalho, concorre para o funcionamento do grande organismo. Esta é a extraordinária realização que vos prepara a evolução às superiores formas de consciência. Quando lá tiverdes chegado, olhareis com pena e desprezo vossas atuais fadigas ferozes.
 
Esta é a visão das esferas celestes, donde promana o hino da vida. É imensa e, no entanto, é simples, em comparação com a visão de seu movimento. Os seres não se detêm nos diversos níveis, mas se movem, num íntimo movimento que os transforma a todos. Em vosso universo físico-dinâmico-psíquico não é apenas a esfera física que é dominada pela energia; esta por sua vez, é dominada pelo espírito, mas, todas juntas constituem todo um incessante
movimento de ascensão, das esferas inferiores às superiores. 

A matéria, o universo estelar, é uma ilha que emergiu do nível das águas do universo inferior. A segunda pulsação produziu uma emersão mais alta, a energia; a terceira, uma emersão utilíssima para vós, o espírito. 

Desse modo, a substância se muda de forma em forma, as individuações do ser elevam-se de esfera em esfera; aparecem, provenientes do infinito, em vosso universo concebível; desaparecem imersas no infinito. No alto, está a luz, o conhecimento, a liberdade, a justiça, o bem, a felicidade, o paraíso; é a grande luz que se projeta, e acende em vós aquilo que, com um pressentimento, está por cima de vossos ideais e de vossas aspirações já elevadas. 

Embaixo estão as trevas, a ignorância, a escravidão, a opressão, o mal, a dor, o inferno, vosso passado, que vos enche de terror no presente e este, por sua vez, será amanhã o passado que também vos encherá de terror. A evolução corresponde a um conceito de libertação dos limites que sufocam, dos liames que estrangulam, é um conceito de expansão cada vez mais amplo do nível físico ao dinâmico e ao conceptual. Por isso, é subida, progresso e conquista. 

Embaixo, nos graus sub-físicos, o ser está apertado em limites ainda mais angustiosos do que são o tempo e o espaço que atormentam vossa matéria; no alto, nos graus super-psíquicos, não apenas caem as barreiras de espaço e de tempo — tal como já ocorre em vosso pensamento — mas desaparecem também os limites conceituais, que hoje circunscrevem vossa faculdade intelectiva. O horizonte do concebível será deslocado imensamente, para mais longe, mas ainda constitui um limite para vós e só podeis superá-lo pela evolução. 

O universo psíquico já é muito mais vasto que os outros dois, o limite tempo-espacial já desapareceu completamente! Vossa mente, é inegável, perde-se em tanta amplidão. Mas deveis compreender, certamente, que o absoluto só pode ser um infinito, porque só um infinito pode conter e esgotar todas as possibilidades do ser. 

Deveis compreender: se sois cidadãos do universo, não sois o universo; sois órgãos e não o organismo; sois um momento do grande todo e não a medida das coisas. Infelizmente, vosso concebível se restringe aos limites de vossa consciência, que só se comunica com o exterior pelas portas estreitas dos vossos únicos cinco sentidos. O que pode acrescentar a isso a maioria das pessoas? Muito pouco, para conceber o absoluto.
 
O limite sensório é restrito e, diante da realidade das coisas, mantém-vos num estado que poderia chamar-se de contínua alucinação. Essa é a base de vossa pesquisa científica.Suponde em vós outros sentidos diferentes e o mundo mudará. A distância que separa os seres não é distância espacial, é um modo diferente de vibrar, em resposta às vibrações do ambiente. Cada ser é um relativo, fechado num limitado campo conceptual. A série infinita dos seres sentirá o universo de infinitas maneiras, inimagináveis para vós. O relativo vos submerge, a consciência que se apóia na síntese sensória é um horizonte circular fechado. 

Não há dúvida que para vós é difícil sair de vossa consciência, superando-a, impulsionando-vos até os mais longíquos horizontes, conquistando novos concebíveis. Mas é isto que vos ajudo a fazer, a isso vos leva a evolução. Quem vive satisfeito com a pequena visão que domina, poderá saciar-se durante algum tempo, mas corre o risco de encontrar grandes desilusões, logo que chegue a mudança da morte.
 
É verdade que muitas coisas que vos estou a dizer, não podeis verificar hoje com vossos meios sensórios. Mas a convergência de todos os fenômenos que conheceis para esses conceitos, vos faz confiar que eles correspondem também às realidades que atualmente não podeis controlar. Tudo está aqui contraído num sistema orgânico completo e compacto.
 
Por que o desconhecido deveria mudar de caminho e fazer exceções num organismo tão perfeito? Quando eu tratar das normas de vossa vida, esta massa enorme de pensamento que estou acumulando constituirá um pedestal que não podereis mais derrubar. Dessa forma, a evolução, acossada por baixo pela maturação dos universos inferiores, ávidos de expansão e de progresso e atraídos pela imensa luz que desce do Alto, fecundando e incentivando a subida, avança qual maré imensa que arrasta todas as coisas.
 
A lei que estudamos na trajetória típica dos movimentos fenomênicos é a lei desta evolução; é o canal através do qual se move a grande corrente; é o ritmo que organiza o grande movimento. Os seres não sobem ao acaso. Para atingir a é indispensável atravessar $ \beta $, e, antes, passar por $ \gamma $ . Ninguém é admitido na fase mais alta a não ser pelo amadurecimento, depois de ter vivido “toda” a fase precedente. Só se pode avançar por degraus sucessivos. Por isto, as formas mais evoluídas compreendem as menos evoluídas, mas não ao contrário. Só depois de haver alcançado a plenitude da perfeição, que advém do fato de ter atravessado todas as possibilidades de uma fase, pode-se passar para a fase sucessiva.
 
Assim avança a grande marcha. A estrada está traçada e não é possível sair dela. A evolução não é um subir confuso, desordenado, caótico, é um movimento perfeitamente disciplinado, sem possibilidade de enganos, nem de imposições.A lei possui um ritmo próprio, absoluto, segundo o qual só se avança por continuidade; é indispensável existir, viver, experimentar, amadurecer, semear e recolher, em estrita concatenação de causas e efeitos. Pode parecer-vos caótico o mundo e os seres misturados e abandonados ao acaso, mas não importa uma aparente confusão espacial, pois cada ser traz em si escrita a lei, inconfundivelmente, na própria natureza. 

Além disso, o caminho evolutivo não é um caminho espacial. O princípio vale mais que o movimento; é o princípio que lhe traça o caminho. Eis o aspecto conceptual (mecânico) do universo, que colocamos acima de seu aspecto dinâmico, o movimento, e além de seu aspecto estático, o organismo das partes. 

O organismo, movimento e princípio, vede como se encontra, mesmo na trindade de aspectos de vosso universo, este conceito de progresso; há uma gradação de amplitude e de perfeição nesses aspectos. Só se passa aos superiores depois de completar e amadurecer os inferiores, completando e amadurecendo o próprio princípio.
 
Por meio de uma dilatação progressiva, a expansão evolutiva transforma-se de física em dinâmica e em conceptual. Essa evolução é a íntima respiração em que vibra todo o universo. Os seres existem como individuações; movem-se segundo a evolução, seguindo o princípio que os rege. O princípio contém, em embrião, todas as formas possíveis, é o desenho que inclui todas as linhas do edifício, mesmo antes que surja a primeira pedra para manifestá-lo. 

A cada momento ocorre a criação, alguma coisa emerge de um nada relativo, surge em realização de algo que estava à espera no germe. Não existe um nada absoluto. O ser toma uma forma nova, vestindo-a como uma roupa, um meio para subir, como um veículo que depois abandonará. O conceito, o tipo já estava fixado, à espera, no princípio que o próprio ser enfeixava em si, e do qual é a manifestação.
 
Assim, as individuações atravessam a série das formas, cujos projetos contém. Cada ser contém em si também aquilo que será a forma que deverá atingir; contém em germe o esquema de todo o universo; não o ocupa, não é o universo inteiro, mas nele se transforma sucessivamente. Por isso, o princípio, mesmo existindo nas formas, é algo acima e independente delas. 

Na realidade, o tempo infinito permitiu que o ser ocupasse formas infinitas; desse modo, o futuro, tal como o passado, está efetivamente presente no todo. Não o está no relativo, onde a forma é isolada e aguarda novos desenvolvimentos. Mas ocorre o desenvolvimento e os universos futuros que atingireis e atravessareis, são dados, existem, foram vividos, são o passado para outros seres, ou seja, são vistos de um ponto diferente, do qual o todo olha para si mesmo. 

Essa relatividade de posições, de passado e de futuro, de criação e de nada, desaparece no absoluto e todas as criações existem no infinito e na eternidade. Só o relativo que se transforma, possui tempo, isto é, ritmo evolutivo. A Lei, sem limites, está à espera, no eterno. O tipo preexiste ao ser que o atravessa, as coisas vão e vêm.
 
Aí está a visão bíblica da escada de Jacó. Os seres sobem e descem. Um chega, outro parte, outro se detém. Somente entre graus afins é possível a passagem por continuidade. Existem universos contíguos ao vosso, que o precedem ou o superam; é apenas isso que torna possível a passagem ao longo da cadeia. Contiguidade, mas não em sentido espacial, mas de afinidade, de semelhança de caracteres, de comunhão de qualidades, de trabalho, de possibilidades na jornada evolutiva. 



Se, do ponto de vista estático, cada universo é um organismo completo em si mesmo, com a evolução, todos os seres se comunicam e se deslocam ao longo dele, de um infinito a outro. Nas fases inferiores à vossa, isto é, $ \gamma $ e $ \beta $, os seres sobem e descem de acordo com o abrir-se e fechar-se da espiral, ou de acordo com a linha quebrada do diagrama da fig. 2; isso acontece por um princípio de necessidade que não admite escolha. 

Trata-se de uma maturação fatal, que o ser segue inconscientemente. Mas, em vosso nível a, aparece um “quid” novo, liberta-se um princípio mais amplo que se chama livre-arbítrio: a livre escolha que nasce paralelamente quando surge a consciência. Podeis acompanhar a evolução ou não acompanhá-la, e fazê-la à velocidade que quiserdes. É a liberdade que preludia a fase +x, em que a consciência humana atingirá o novo vértice e conquistará nova visão do absoluto.
 
Desse modo, vosso mundo humano contém a e é atravessado por seres que sobem e descem; seres que, provindos das formas inferiores de vida, mais próximas de $ \beta $, avançam custosamente, trabalhando na criação do próprio eu espiritual; ou então, seres que, tendo decaído das formas superiores de consciência, abandonam-se à ruína, abusando do poder conquistado. Uns retrocedem, outros avançam; uns acumulam valores, outros os perdem. Existem ainda os que param, indolentes, preferindo o ócio, ao invés de esforçar-se com fadiga pelo próprio progresso. Daí a grande variedade de tipos e de raças no mundo. 

Essa é a substância de vossas vidas. Sois sombras que caminham, consciências em construção ou em demolição. Estais todos a caminho, cada um grita diferentemente com voz da própria alma, luta, agita-se, semeia e acolhe. Livremente, com as próprias ações, lança a semente da qual nascerá aquilo que, mais tarde, constituirá seu inexorável destino. Em vosso nível, é livre a escolha dos atos e dos caminhos; livres a colocação das causas; isso vos é concedido por vossa maturidade de habitantes da fase a. 

No entanto, não é livre a escolha da série de reações e dos efeitos, pois esta é inexoravelmente imposta pela Lei. Cada escolha vos prende ou liberta. O poder de escolher e de dominar aumenta com a capacidade e com o merecimento, que lhe garantem o bom uso. Dessa forma, o determinismo da matéria gradualmente evolui para o livre-arbítrio da consciência, à proporção que esta se desenvolve. 

O livre-arbítrio não é um fato constante e absoluto como em vossas filosofias, em insolúvel conflito com o determinismo das leis da vida; mas é um fato progressivo e relativo aos diversos níveis que cada um atingiu. Por isso, apesar de vossa liberdade, o traçado da evolução permanece inviolável. Essa liberdade é, como vós, relativa, e vossas ações só podem afetar o que se refere a vós mesmos.
 
Eis, pois, em grandes linhas, o imenso quadro da criação. Ciclo infinito, de fórmulas abertas e comunicantes, progredindo das unidades mínimas às máximas, mediante uma elaboração que opera, em todas as profundidades do ser, o progresso da espiral maior, que é movido pelo progresso de todas as espirais menores, até o infinito. 

E, no âmbito de cada ciclo, uma pulsante respiração evolutiva que se inverte e se equilibra num período involutivo, a fim de retomar dessa involução uma respiração mais ampla. Isso se dá desde o infinitamente simples até o infinitamente complexo, e a respiração evolutiva de cada unidade é dada pela respiração evolutiva de todas as unidades menores. O vórtice maior progride por saturação dos vórtices menores que o constituem.
 
Pensai! O progresso de vossa consciência vive pelo concurso e pelo progresso de todos os ciclos menores:
 
eletrônico, atômico, molecular, celular; 

Antes de ser um vórtice psíquico, é um vórtice de metabolismo orgânico, elétrico, nervoso, cerebral, psíquico e, finalmente, abstrato. Todo o passado está presente, indelevelmente fixado por todos os retornos involutivos.Todo o futuro está presente, porque o presente o contém todo, como causa, como princípio, como desenvolvimento, concentrado em estado latente. Se esta derivação do mais, determinada pelo menos, pode parecer-vos absurda, é apenas porque não podeis sair das fases de vosso universo, que constitui todo o vosso concebível. 

O mais é apenas a explosão de um mundo fechado em si mesmo, mas que já continha tudo em potencial.Evolução significa expansão de vórtices, que são depósitos de latências, tal como seria um bloco de dinamite. Não se trata de mais ou de menos substância, o absoluto, que não tem medida, não possui quantidade. Trata-se de transformação, de criação no relativo. É a auto-elaboração que traz à luz $ \beta $ de $ \gamma $ e $ \alpha $ de $ \beta $. Nem por isso digais que o espírito é um produto da matéria.
 
Dizei: $ \gamma $ se eleva até $ \alpha $, revelando o princípio que continha latente em sua profundidade. Pensai! A respiração do átomo, dada pela respiração do universo; a respiração do universo, dada pela respiração do átomo; uma criação sem fim, sem limites, em que tempo e espaço são apenas propriedades de uma fase, além da qual desaparecem; onde o relativo limitado, imperfeito, mas em evolução e inexaurível no infinito, forma e iguala ao absoluto.
 
Dai a tudo isso uma concentricidade, uma coexistência, que não pode ser expressa pela forma linear da palavra, e tereis uma imagem aproximada do universo em sua complexidade orgânica, em sua potência dinâmica, em sua vastidão conceptual.

 

06/04/2015


28. 

O PROCESSO GENÉTICO
DO COSMOS

 



Formação de Estrutura em um Universo LCDM.


Ilustremos, agora, tudo isso, com exemplos. Tal como fizemos antes com o conceito do retorno cíclico, que reconduz a espiral a seu caminho, façamos agora com este conceito do desenvolvimento da espiral maior, produzido pelo desenvolvimento da espiral menor. 















Notemos que, se a linha da criação não é a reta, mas a espiral, isto é devido ao fato de que esta é a linha de menor resistência e de maior rendimento. Tratando-se de realizar um complexo trabalho de destruição e reconstrução, a espiral é a linha mais curta, no sentido de que responde mais imediatamente à lei do mínimo esforço, pela qual se obterá o máximo efeito com o mínimo trabalho. 

No universo estelar, onde tudo acontece por atração, isso ocorre sempre por curvas. Até no nível físico vedes que a linha do menor esforço, lei universal, não é a reta, mas a curva, que responde a um equilíbrio mais complexo e é o caminho mais curto no sentido mais completo, não o espacial, em que vos isolais e limitais vossa concepção de reta.





 

No nível físico vedes, nos movimentos estelares e planetários, a coordenação dos ciclos menores com os maiores, expressão visível do princípio dos ciclos múltiplos. Também o encontramos junto com o outro, o do retorno cíclico, nos fenômenos mais próximos de vós. Observai o círculo pelo qual passam as águas, do estado de chuva ao de rio e de mar e, por evaporação, voltam ao estado de nuvens e chuva; um ciclo contínuo, idêntico, no entanto, a cada rotação muda um pouco, e vai amadurecendo um ciclo maior, o da dispersão das águas por absorção na terra e difusão nos espaços; ciclo que caminha para a lenta morte do planeta. O ciclo volta sobre si mesmo, mas sempre com pequeno deslocamento progressivo de todo o sistema.
 
Observai, em vosso mundo químico, como os elementos que constituem vosso organismo, provêm da terra, introduzidos no círculo pela nutrição, e voltam à terra pela morte. Sempre o mesmo material e o mesmo ciclo, mas que se desloca lentamente ao longo da trajetória do ciclo maior, na transformação da espécie. Observai o ciclo de vosso metabolismo orgânico e como ele constitui função de longa cadeia de ciclos. 

Vosso corpo é uma corrente de substâncias, que tomais de outros seres plasmófagos (animais), que por sua vez os tomaram de seres plasmódomos (as plantas), as quais, finalmente, operam a síntese orgânica das substâncias protéicas do mundo da química inorgânica da terra e do mundo dinâmico das radiações solares. Vosso pensamento é um ciclo mais alto, que se alimenta dessa cadeia, porque não poderia ele subsistir em vosso cérebro sem restauração física e dinâmica. 

Vosso funcionamento psíquico está, assim, em relação com processos químicos de vosso organismo, do organismo dos animais de que vos nutris, das plantas de que os animais se alimentam, dos processos químicos da própria matéria, de que os processos de síntese vital das plantas são apenas uma consequência.

Os ciclos têm de caminhar inexoravelmente, e basta que um deles pare, para que toda a cadeia, também pare e se quebre. Todo o ciclo da energia mecânica e psíquica, que se desenvolve no organismo humano, está em estreita relação com o ciclo da energia química dos elementos que configuram um círculo, pelas suas reduções, hidrólises, oxidações,sínteses e processos afins. Quando a molécula de um corpo químico introduz-se por assimilação no organismo protoplasmático da célula, o ciclo do fenômeno atômico entra, através do ciclo do fenômeno molecular de que faz parte, no ciclo maior do fenômeno celular. 



No mundo das substâncias proteicas, a química do mundo inorgânico acelera seu ritmo, dinamiza-se, adquirindo em velocidade, o que perde como estabilidade de combinação. A individuação fenomênica não mais assume o aspecto de estase mas se torna, como veremos melhor depois, uma corrente, em que nova química instável e fragílima, de ciclo continuamente aberto, decompõe-se e se recompõe no metabolismo celular, base do recâmbio. Isso ocorre em seus dois momentos: anabólico, da assimilação, e catabólico, da desassimilação, quando atinge os vértices da fase $ \beta $, penetrando na fase a, porque isso implica e significa uma pequena consciência celular que preside às funções de escolha, base do recâmbio, e mantém na corrente deste a individuação do fenômeno.
 
A realidade vos mostra esta íntima transformação do ser, da fase $ \gamma $ à $ \beta $ e desta à $ \alpha $, e como isso ocorre por ciclos contíguos e comunicantes. A assimilação é algo mais que simples filtragem osmótica: é a ponte de passagem de um ciclo para outro, em que a estrutura íntima do fenômeno sofre uma mutação. Através de que complexa cadeia de ciclos tem de passar a matéria, em sua íntima estrutura atômica, para chegar a poder produzir efeitos de ordem orgânica e psíquica! De que número de movimentos cíclicos resulta o fenômeno da consciência humana!
 
Estes exemplos mostravam-vos como em realidade existe o conceito da formação progressiva da trajetória dos ciclos maiores, através do desenvolvimento da trajetória dos ciclos menores.

27. 

SÍNTESE CÍCLICA — 

LEI DAS UNIDADES COLETIVAS E LEI DOS CICLOS MÚLTIPLOS




Compreendido bem este conceito do retorno dos ciclos e sua razão, por meio dessa exemplificação, que vos desmonstra como a realidade corresponde ao princípio que vos expus, podemos agora levantar o olhar para um horizonte ainda mais amplo. Antes de proceder a essa exemplificação demonstrativa, já acenamos que o resultado final do abrir-se e fechar-se da espiral pode ser expresso (fig. 4) por uma espiral maior, em constante expansão. 












Agora pode dar-se a essa expressão sintética do fenômeno, uma expressão ainda mais resumida. Considerando o progredir dessa linha maior ao longo da abscissa vertical, vemos que a cada quarto de giro ela cobre a altura de uma fase (fig. 4). Dessa forma, a coordenada das fases -y +x resume, em seu traçado, todo o movimento da espiral e eleva-se com a expansão desta.

Podemos, agora, construir o diagrama da fig. 5. 




A linha maior, em expansão constante, que exprime o progresso da evolução, está aqui traçada simplesmente, abandonando as fases de retorno, expressas no diagrama da fig. 4. 



Ela é vista na pequena espiral da esquerda. 



A abscissa vertical não é mais uma reta, mas uma curva e parte de uma espiral maior, ao longo de cujo traçado escalonam-se as fases sucessivas -y, -x, $ \gamma $ etc. A síntese de todo o movimento evolutivo da primeira espiral é dada, assim, não pelo prolongamento retilíneo da vertical, mas pelo desenvolvimento de uma espiral maior, também de abertura constante. As fases sucessivas, segundo as quais ela avança, são de amplitude maior. Abarcarão, por exemplo, ao invés de uma das fases $ \alpha $, $ \beta $, $ \gamma $ etc., uma criação inteira ou uma série de criações. 



Mas esta espiral maior ascende também segundo uma linha que, igualmente aqui, será uma curva, que faz parte do traçado de uma espiral ainda maior que progride também em abertura constante. O percurso da espiral maior resume em si todo o movimento progressivo da espiral menor que, por sua vez, é produto sintético do movimento de outra espiral menor, assim por diante. 

Desse modo o traçado maior se resume, e é dado por todos os desenvolvimentos menores. O pequeno organiza no grande; o grande é constituído do pequeno. A série das espirais, naturalmente, é ilimitada, cada movimento é decomponível e multiplicável ao infinito — propriedade de todos os fenômenos — mesmo permanecendo idêntico seu princípio. Eis a síntese máxima dos movimentos fenomênicos. O processo avança por um movimento interno de íntima auto elaboração, que liga e une, num modo indissolúvel e compacto, o infinito negativo ao infinito positivo. 

Um mecanismo de exatidão matemática dirige, toda a criação, com a simplicidade de um princípio único e alcançando uma complicação que vos atordoa. Tudo se compenetra, coexiste; tudo, a cada instante equilibra-se; tudo, do mínimo fenômeno até a criação dos universos, encontra em cada ponto, sua justa expressão.

À série de unidades coletivas (pelas quais as unidades menores se organizam em unidades maiores e a tendência à diferenciação que a evolução produz, compensam-se em reorganizações mais amplas, de tal forma que a auto elaboração não desagrega nem pulveriza, mas consolida a estrutura do cosmos), corresponde aqui a série dos ciclos múltiplos

Cada individuação é um ciclo; se tudo o que existe constitui uma individuação em seu aspecto estático, compõe um ciclo em seu aspecto dinâmico de transformação. Na infinita variedade do caso particular, tudo reencontra sua unidade, o princípio único que irmana todos os seres do universo. Assim como cada individualidade maior é o produto orgânico das individualidades menores, assim cada ciclo maior é produzido em seu desenvolvimento pelo dos ciclos menores. 

A evolução do conjunto só pode obter-se por meio da evolução de suas partes componentes: processo de maturação íntimo e profundo. Em cada nível, a qualquer distância, o mesmo princípio, idêntica construção orgânica, idêntico processo evolutivo, idêntica conexão funcional. Como não existe individuação máxima nem mínima, assim também não há ciclo máximo nem mínimo, sem jamais ter fim. O sistema prolonga-se, multiplicando-se, subdividindo-se ao infinito. 



A constituição íntima do ser, a lei de sua transformação é independente da fase de evolução, mas é idêntica no microcosmo tal como no macro cosmo.

A lei das unidades coletivas pode, por isso, transportar-se de seu aspecto estático ao dinâmico. Diz ela: “Cada individualidade é composta de individualidades menores, que são agregados de individualidades ainda menores, até o infinito negativo; por sua vez, é elemento constitutivo de individualidades maiores, as quais são de outras ainda maiores, até o infinito positivo”. Cada organismo é composto de organismos menores e é componente de maiores. 

A lei, repetida em seu aspecto dinâmico na lei dos ciclos múltiplos, reza: “Cada ciclo é determinado pelo desenvolvimento de ciclos menores, que são a resultante do desenvolvimento de ciclos ainda menores, até o infinito negativo; por sua vez, é a determinante do desenvolvimento de ciclos maiores, que por sua vez o são de ciclos ainda maiores, até o infinito positivo”. 

Cada individualidade, como cada ciclo, é produzida e definida pela unidade que a precede; forma e define a unidade superior. A organização, o desenvolvimento, o equilíbrio maior é constituído pela organização, pelo desenvolvimento, pelo equilíbrio menor. Cada movimento constrói o seguinte, da mesma forma como foi construído pelo precedente. Cada ser equilibra-se num ponto da série, na hierarquia das esferas, que não tem limites. 

Isto do átomo à molécula, ao cristal, à célula, à planta, ao animal, a seu instinto, ao homem, à sua consciência individual e coletiva, à sua intuição, à raça, à humanidade, ao planeta, ao sistema solar, aos sistemas estelares, aos sistemas de universos, antes e além desses elementos de vosso concebível, antes e além das fases $ \gamma $ , $ \beta $, $ \alpha $. Eis a que processo de íntima auto elaboração deve a evolução. Nenhuma força age nem intervém do exterior, mas tudo existe no fenômeno e tudo caminha por síntese progressiva. Progresso e decadência cósmica se ressentem da evolução e do esgotamento atômico. Os extremos se tocam. A grande respiração do universo é dada pela respiração do átomo.