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16/06/2015



65. 

INSTINTO E CONSCIÊNCIA 

TÉCNICA DOS AUTOMATISMOS

 





Não vos admireis disto, pois conheceis somente uma pequena parte de vós mesmos. O funcionamento orgânico não ocorre fora de vossa consciência, confiado a unidades de consciências inferiores, situada fora delas? 









A economia que a lei do menor esforço impõe, limita a consciência humana ao âmbito em que se realiza o trabalho útil das construções.
 
O que foi vivido e definitivamente assimilado é abandonado aos substratos da consciência, zona que podeis chamar de subconsciente. 

Por isso, o processo de assimilação, base do desenvolvimento da consciência, realiza-se justamente por transmissão ao subconsciente, em que tudo fica, mesmo se esquecido, pronto para ressurgir se um impulso a excita, ou um fato o exija.
 
O subconsciente é exatamente a zona dos instintos, das ideias inatas, das qualidades adquiridas; é o passado superado, inferior, mas adquirido (misoneísmo). 

Aí depositam-se todos os produtos substanciais da vida; nessa zona encontrais o que fosteis e o que fizesteis; reencontrais o caminho seguido na construção de vós mesmos, tal como nas estratificações geológicas reencontrais a vida vivida pelo planeta. 

A transmissão ao subconsciente ocorre justamente através da repetição constante. Então dizeis que o hábito transforma um ato consciente num ato inconsciente; com ele forma uma segunda natureza. 

Este é o método da educação. Palavras comuns que exprimem exatamente a substância do fenômeno. Podeis, assim, com a educação, o estudo, o hábito, construir-vos a vós mesmos. 

Logo que um ato é assimilado, a economia da natureza o deixa fora da consciência, porque, para subsistir, não mais precisa que ela o dirija.
 
Logo que uma qualidade é apreendida, também é abandonada aos automatismos, em forma de instinto, de caráter que se fixou na personalidade.
 
Não se trata de extinção nem de perda, porque tudo subsiste e está presente e ativo, se não na consciência, pelo menos indubitavelmente no funcionamento da vida, e continua a produzir todo o seu rendimento. 

Somente é eliminado da zona da consciência, porque agora já pode funcionar sozinho, deixando o Eu em repouso. A qualidade assimilada e transmitida ao subconsciente cessa de ser fadiga e se torna necessidade, instinto. 

O impulso impresso na matéria fica e quando reaparece, exprime-se como vontade autônoma de continuar na sua direção, como criatura psíquica independente, criada por obra vossa; mas, agora, quer viver sua vida. 

Dessa maneira, a consciência representa apenas aquela zona da personalidade em que ocorre o esforço da construção do Eu e de sua ulterior dilatação. Em outros termos: limita-se unicamente à zona de trabalho, e é lógico. O consciente compreende somente a fase ativa, única que sentis e conheceis, porque é a fase em que viveis e trabalha a evolução [13].
 
Agora, podeis compreender algumas características inexplicáveis do instinto, assim como sua maravilhosa perfeição. No instinto, a assimilação está terminada. Então o fenômeno não está em formação, mas já atingiu sua última fase de perfeição. 

Por isso, o instinto é tenaz e sábio: existe por hereditariedade e sem aprendizado, justamente porque esse já ocorreu; age sem reflexão (tanto no animal, como no homem), exatamente porque já refletiu bastante. Foi superada a fase de formação, o ato reflexivo é inútil e é eliminado; a repetição constante cristalizou o automatismo numa forma que corresponde perfeitamente às forças ambientais; estas agiram de maneira constante.
 
Cálculo de forças, adaptações, ações e reações, sensibilidade e registro, concorrem para o transformismo. 

No crisol das formações estavam misturadas, em ebulição, forças reguladas, cada uma por um inato princípio-lei, próprio, perfeito; o resultado tinha de ser perfeito e exato. O princípio diretor, que garantia a constância das ações e condições ambientais, permitiu a estabilização de reações constantes no instinto e, portanto, a correspondência deste com o ambiente.
 
Compreendeis, agora, a estupenda presciência do instinto e da infinita série de experiências, incertezas e tentativas, de que ela resulta. O indivíduo deve ter aprendido alguma vez essa ciência, porque do nada, nada nasce; deve ter experimentado a constância das leis ambientais pressupostas, a que correspondem seus órgãos, para as quais ele é feito e proporcionado. 

Sem uma série infinita de contatos, de experiências e adaptações no período de formações, não se explica uma tão perfeita correspondência de órgãos e instintos, antecipados à ação, dentro de uma natureza que avança por tentativas, e nem se explica sua hereditariedade. 

No instinto, a sabedoria já está conquistada; foi superada a fase de tentativas e a necessidade de submeter-se a uma linha lógica que, oferecendo várias soluções, demonstra a fase insegura e incerta dos atos raciocinados, onde o instinto conhece um só caminho, o melhor.
 
A razão cobre um campo muito mais extenso que o limitado pelo instinto (nisto o homem supera o animal, dominando zonas que ele ignora). 

Entretanto, em seu pequeno campo, o instinto atingiu um grau de amadurecimento mais adiantado, expresso pela segurança dos atos, e um grau de perfeição ainda não alcançado por nenhuma razão humana. Esta, nas tentativas, revela as características evidentes da fase de formação. 

Da mesma forma que o animal raciocinou rudimentarmente no período da construção de seu instinto, assim a razão humana, terminada a formação; alcançará um instinto complexo e maravilhoso, que revelará sabedoria muito mais profunda.
 
No homem, conserva-se todo o instinto animal, de que a razão é mera continuação. Agora podeis compreender que instinto e razão são simplesmente duas fases de consciência, a primeira já superada e, portanto, funcionando automaticamente; a segunda, em vias de formação. Não coloqueis os dois momentos do mesmo processo evolutivo em antagonismo. 

Fera - Marvel.


No homem, não apenas sobrevive todo o instinto do animal, como também a formação de novos instintos não cessa, tal como ocorreu para aquele e com o mesmo sistema, embora muito mais rapidamente, em vista da potência psíquica do homem, e num nível muito mais alto, em virtude da complexidade de seu psiquismo. 

Da mesma forma que, no homem, a fase instinto é inconsciente e a fase razão consciente, assim no animal, além do instinto inconsciente, existe pequena zona de formação, portanto, consciente e racional, embora de consciência e racionalidade primitivas. Se observardes, vereis que nem todos os atos dos animais estão cristalizados no instinto, existe sempre uma porta aberta para novas aquisições (aprendizado, domesticação etc.).
 
Entre a planta, o animal e o homem só existe a diferença devida ao caminho maior ou menor que foi percorrido.
 
Pensais quanta parte de vós mesmos está confiada aos automatismos, como também a racionalidade humana tende a cristalizar-se em atitudes instintivas, como passa a ser instinto tudo o que foi profundamente conquistado.
 
Existe, pois, uma zona obscura do subconsciente e uma zona lúcida do consciente. Além disso, há uma terceira zona, a do superconsciente, em que tudo são expectativas, preparando-se as conquistas do amanhã: fase possuída apenas como pressentimento e contida, em germe, nas causas que atuam no presente, de que ele representa o desenvolvimento.
 
Zonas que, em sua amplitude e posição, são relativas ao ser, de acordo com seu grau de desenvolvimento. Variam grandemente também no homem, conforme sua evolução pessoal, os limites do consciente. 

Aquilo que é consciente ou superconsciente para alguns, pode ser subconsciente (ou seja, caminho percorrido e experiências adquiridas) para outros mais adiantados. Esses limites variam, também, durante a vida do mesmo indivíduo, pois a vida é justamente o período das aquisições e transformações de consciência. 

A idade mais adequada a essas aquisições — em outras palavras, mais susceptível de educação — é a juventude. A consciência, refeita pelo repouso, é mais propensa à assimilação, ao estabelecimento de novos automatismos, que depois se fixarão indelevelmente no caráter; os primeiros, serão os mais profundos e mais resistentes.
 
Reassumindo rapidamente todo o caminho percorrido pela evolução, a zona da consciência tende sempre a subir, deslocando-se para o superconsciente; educação, hábitos bons e maus, tudo se fixa em automatismos transmitidos ao subconsciente. A fase lúcida do trabalho construtivo se transfere para campos mais elevados e mais profundos, para o âmago do ser, na assimilação de qualidades espirituais.
 
Assim nada se perde de todas as dores e lutas da vida, de todo bem e mal praticados. Não se perde fora de vós, pelo princípio de causa e efeito; não se perde dentro de vós, pelo princípio de transmissão ao subconsciente. 

A herança de vossas culpas como de vossos merecimentos, o resultado de todas as vossas fraquezas ou esforços, vós os carregais sempre convosco, de acordo com o que quisestes. 

A assimilação por automatismos e a transmissão ao subconsciente é o meio de transmissão para a eternidade das qualidades adquiridas, fruto de vosso trabalho. Cada ato tem um eco e deixa uma marca. A técnica dos automatismos reside em vossa experiência cotidiana, na aquisição de cada habilidade mecânica ou psíquica. 

A objeção que poderíeis levantar contra a teoria da assimilação, por automatismos, das experiências vividas (isto é, perde-se um hábito por falta de uso) não vale, porque o que se transmite ao subconsciente é a aptidão e não o conhecimento. Vede que aquela permanece, mesmo quando o conhecimento esvanece pelo desuso, e sabe reconstruir rapidamente o que parece destruído. 

Daí todas as diversíssimas capacidades inatas, às quais tanto deve a vida, doutra forma não teriam explicação. Se a repetição de inumeráveis atos de defesa deu ao animal o instinto da defesa, o agir moralmente conferirá ao homem hábitos morais; o pensamento desenvolve e enriquece a inteligência. 

Tendes, assim, um meio para poderdes retificar, continuamente, a substância de vossa personalidade: vós mesmos podeis plasmá-la para o bem ou para o mal. Assim, vosso destino, produzido pelas qualidades que assimilastes, constituído e cercado pelas forças que movestes, pode sempre sofrer retoques por vossas próprias mãos. 

Assim, o férreo determinismo, imposto pela lei de causalidade, abre-se na zona das formações estendidas para o futuro, num campo em que domina, unicamente, vosso livre-arbítrio, senhor da escolha, que mais tarde, salvo ulteriores correções, vos prenderá, por sua vez, na mesma lei de causalidade.


[13] - Para um estudo mais particular do problema, ver Ascese Mística, Cap. XIX, “O Subconsciente” e Cap. XX, “O Superconsciente”.
Veja também os últi-mos capítulos sobre a “Personalidade Humana”, em A Nova Civilização do Terceiro Milênio. (65.3)



15/06/2015


64. 

TÉCNICA EVOLUTIVA 

DO PSIQUISMO E GÊNESE DO ESPÍRITO


 






Após termos enfrentado o problema da gênese da vida, encontramo-nos, agora, diante de um ainda mais formidável, o da gênese do espírito. 













É um fato que, a partir das primeiras unidades proto-plasmáticas, filhas do raio globular para cima, protoplasma e célula possuem uma sensibilidade e uma capacidade de registrar impressões, devido à íntima estrutura da permuta química, pois, desde suas primeiras manifestações, a vida devia produzir fenômenos de psiquismo, embora muito rudimentar. A mobilidade, ainda que estável e elástica do sistema atômico da vida, era o meio mais adequado ao desenvolvimento e a progressiva expressão desse psiquismo.

Indagais, sem certeza, se a função cria o órgão ou se o órgão cria a função, porque ignorais o princípio da vida e não sabeis como interpretar-lhe os fenômenos. Nem um caso, nem o outro. 

Pois, o organismo é uma construção ideoplástica; ocorre logo que a maturação evolutiva do meio, matéria, permita a manifestação do princípio latente e este se manifeste diversamente, de acordo com as circunstâncias do ambiente, onde e como permitir-lhe o desenvolvimento do meio, de manifestação. 

Órgão e função, pois, surgem juntos, e seu progresso é recíproco, devido a um apoio mútuo do órgão sobre a função que o desenvolve e da função sobre o órgão que a aperfeiçoa. Assim, a consciência não cria a vida, nem a vida cria a consciência, mas ambas trabalham e ajudam-se mutuamente a vir à luz: o princípio plasmando e desenvolvendo para si uma forma cada vez mais adequada à sua manifestação e a vida fixando esse impulso e organizando-se para maior perfeição. 

O princípio move a matéria, torna-a cada vez mais aderente à sua expressão; nesse trabalho se reforça, expande-se e se manifesta mais poderosa. Enquanto a vida é o efeito de um dinamismo íntimo organizador, constitui ao mesmo tempo o campo em que esse dinamismo se exercita e se desenvolve. 

Se a modelação das formas não proviesse de um princípio interno, não veríeis esse crescimento provir sempre de dentro, indo da reprodução dos tecidos, por vezes de órgãos inteiros, até a formação dos organismos adultos.
 
Em sua íntima estrutura cinética, a vida conserva a memória das ações e reações dinâmicas anteriores, concentra em si os traços marcantes e pode realizá-los todos. Assim é possível a concentração de toda a arquitetura de um organismo em um germe, sua reconstrução completa a partir da semente até a forma adulta. 

Toda a evolução vos apresenta o espetáculo desse processo de centralização e descentralização cinética que, no caso da semente, é como se o tocásseis com a mão. Nela, o movimento conserva todas as características de seu tipo; o germe conserva em seu âmago uma estrutura indelével e a lembrança do passado vivido, que terá de reproduzir intacto; já o organismo maduro terá a capacidade de modificá-lo mas somente em escala mínima; então, ele assimilará essa modificação e a transmitirá ao novo germe.
 
Os resultados da experiência da vida, em qualquer nível, gravitam para dentro; lá são destilados os valores, resumidos os totais e processada a síntese da ação. Para lá descem, em camadas sucessivas, os produtos da vida. 

O psiquismo fica em crescimento constante porque em redor do primeiro núcleo depositam-se, por superposição progressiva, os valores, os totais e as sínteses da vida. Assim, a consciência, embora em graus muito diferentes, é um fato universal em biologia; seu desenvolvimento, por adição dos resultados de experiências (variações cinéticas introduzidas na unidade vorticosa), é o resultado do fenômeno da vida. 

De um a outro extremo da vida (embora a consciência só apareça com intensidade nos organismos superiores onde, para divisão do trabalho, ela constrói para si órgãos particulares), a consciência, todavia, está sempre presente, desde a consciência elementar dos proto-organismos até o espírito humano, o sistema de seu desenvolvimento é idêntico e constante. 

O centro enriquece-se em qualidade e em potência. Com isso adquire a capacidade de construir para si órgãos cada vez mais adequados a exprimir sua mais complexa estrutura. Assim, princípio e forma, mutuamente ativos e passivos sob o aguilhão dos choques das forças ambientais, sob o estímulo do impulso íntimo que, por lei de evolução, forceja por exteriorizar-se, evoluem gradualmente; pela tensão desse contraste desponta do mistério do ser à luz, do polo consciência ao polo forma, a manifestação da vida.

Desde a primeira forma proto-plasmática, a vida tinha de possuir uma consciência orgânica própria, embora rudimentar. Sem isso não poderia subsistir aquela primitiva permuta. Se vida = permuta e permuta = psiquismo, então a vida = psiquismo. 

Essa primordial consciência orgânica, em que já estão presentes as leis fundamentais da vida, está em toda a parte, em qualquer organismo. Desenvolvida na complexa estrutura cinética dos movimentos vorticosos, já era integrante da vida em seu primeiro nascer, como substrato fundamental de todos os crescimentos futuros. 

Essa consciência orgânica tornar-se-á inteligência orgânica e instinto; finalmente, ascenderá à consciência psíquica e abstrata no homem. Desde as primeiras formas, a matéria possui as propriedades psíquicas fundamentais, os elementos dessa consciência, inseparável da vida, porque é a essência e a condição dela. 

A ameba já possui todas as propriedades básicas biológicas: metabolismo, movimento, respiração, digestão, secreção, sensibilidade, reprodução e psiquismo. A técnica da vida já lançou suas bases e as grandes linhas arquitetônicas estão traçadas. 

O desenvolvimento se produz em todos os níveis, de acordo com a mesma técnica da transmissão ao centro psíquico já constituído, e do crescimento desse núcleo pela estratificação em torno dele das capacidades sucessivamente adquiridas. A repetição de uma reação, como resposta a uma ação exterior constante, tende a fixar-se na trajetória íntima como nova forma.
 
A vida, ansiosa por expandir-se e evoluir, mantém seus braços abertos às forças ambientais, que são introduzidas em grande quantidade; as reações multiplicam-se e a consciência, ávida de sensações, enriquece-se e aperfeiçoa-se.
 
Complica-se sua estrutura; nada se perde, nem um ato, nem uma prova passam sem deixar sua marca. Transforma-se a consciência primordial, a forma que a reveste, o ambiente que a circunda, num processo lento de ajustamentos contínuos.
 
O ser torna-se cada vez mais sábio por ter vivido, pelas experiências acumuladas; especializa sua capacidade. Nasce o instinto e uma consciência mais complexa que lembra, sabe e prevê.
 


Subamos, ainda, até o homem. Os substratos precedentes subsistem: a consciência orgânica, obscura, automática, mas presente, porque em funcionamento, embora abandonada na profundeza do ser; o instinto vivo, presente, como nos animais, sábio e memorioso. 

Mas acrescenta-se nova estratificação: a razão, a inteligência, aquele feixe de faculdades psíquicas que formam a consciência propriamente dita. Assim como o germe sintetiza todo o organismo que produzirá, também a vida sempre se refaz para recomeçar de novo, repetindo em cada forma o ciclo percorrido em toda a evolução precedente — como fenômeno orgânico e como fenômeno psíquico — assim, o homem resume em si todas as consciências inferiores; cada célula possui sua pequena consciência, que preside ao seu metabolismo, em cada tecido, em cada órgão; uma consciência coletiva mais alta que lhe dirige o funcionamento; todo o organismo é dirigido pelos instintos, que regem e conservam a vida animal.



11/06/2015


63. 

CONCEITO DE CRIAÇÃO


 
Os Pilares da Criação



Compreendei bem meu pensamento, quando vos falo de desenvolvimento do psiquismo até a gênese do espírito, isto sem intervenção de uma força exterior, mas por um processo automático. 



No meu sistema, a Substância, mesmo em suas formas inferiores $ \gamma $ e $ \beta $, inclui, em estado potencial e latente, todas as infinitas possibilidades de um desenvolvimento ilimitado. Compreendei que uma criação exterior e antropomórfica é absurda. 

Não interpreteis mal meu pensamento, nem tenteis reconduzi-lo, à força, ao materialismo, porque se lhe conserva a forma, dele se afasta enormemente na substância, chegando a coincidir nas conclusões, com o mais alto espiritualismo. Não digais: então a matéria pensa. Dizei que, na vida, a matéria, elevada a um grau mais alto de evolução, é veículo capaz, pela íntima elaboração sofrida, de produzir em maior medida o potencial nela incluído. 

É incomparavelmente mais científico, mais lógico e mais correspondente à realidade, este conceito da Divindade sempre presente e continuamente operando no âmago das coisas, precisamente na essência delas, do que o de uma Divindade que, num ato único, num momento determinado no tempo, à maneira de um ser humano, age fora de si, de forma imperfeita e, ao mesmo tempo, definitiva.
 
O Absoluto divino só existe no infinito. Sua manifestação (existir — manifestar-se) não pode ter tido um início.
 
Em sua essência totalitária, ele não age no tempo, a não ser no sentido de um átimo de seu eterno devenir, no sentido de uma particular descida Sua no relativo, e neste sentido devem ser entendidas e são compreensíveis as Escrituras. 

Além disso, o fato de que verificais um transformismo incessante e uma progressiva suscetibilidade de aperfeiçoamento em todas as coisas, fala-vos claramente de uma criação progressiva, entendida como progressiva manifestação do conceito divino no mundo concreto e sensório dos efeitos. O conceito de prodígio, com o fito de correção e de retoque, é inerente apenas à fraqueza e à relatividade humanas, não pode aplicar-se ao Absoluto e à Divindade.
 
Não pode alterar-se a perfeição da Lei para espetáculo humano. O milagre, compreendido como violação e refazimento de leis, não é prova de poder, mas um absurdo que não pode existir senão na ignorância humana. Não tomeis justamente essa concessão à vossa fraqueza, como base apologética das religiões, porque com esse contrassenso, diminuís, ao invés de reforçar a fé.
 
Vede que tudo o que existe provém de um princípio que age sempre, não de fora para dentro, mas de dentro para fora, princípio oculto no íntimo mistério do ser, que aparece como sua manifestação e expressão. Igualmente antropomórfica é a idéia do nada, inadmissível no Absoluto. Como poderão existir zonas externas ou zonas de vazio, senão no relativo? 

O fato que verificais, da indestrutibilidade e da eternidade da Substância, demonstra-vos o absurdo desse nada, que é apenas uma pseudo-ideia. Deus é o Absoluto e como tal não pode ter contrários nem pontos externos:

nenhuma das características do relativo. 

Suas manifestações não podem ter princípio nem fim. No relativo podeis colocar uma fase de evolução, mas não o eterno devenir da Substância; no finito podeis colocar-vos a vós mesmos e os fenômenos de vosso concebível, mas não a Divindade e suas manifestações. 

Podereis chamar criação a um período do devenir e só então falar de princípio e de fim. Neste sentido falam as revelações. Compreendei-me, pois, e não vos escandalizeis deste conceito religiosíssimo da gênese do espírito. 

Este não é princípio infuso de fora (esta foi a fórmula necessária à tradição mosaica, para que os povos primitivos pudessem compreender), mas é princípio que se desenvolve de dentro, exteriorizando-se daquele centro profundo, no qual deveis comprovar que está a essência das coisas e o porquê dos fenômenos. 

Deus é a grande força, conceito que age no íntimo das coisas. Desse íntimo expande-se nos períodos do relativo, num aperfeiçoamento progressivo, progressivamente manifestando sua perfeição. 

O universo permanece sempre Sua obra maravilhosa; todas as criaturas são sempre filhas Suas; tudo continua sempre efeito da Causa Suprema. Não pode haver blasfêmia nesta concepção; se não corresponde à letra das Escrituras, agiganta-lhes o conceito, eleva-as e lhes vivifica o espírito, até uma racionalidade de que o homem tem hoje absoluta necessidade, para que sua fé não se destrua.

 


Dizer que o universo contém sua própria criação, como momento de seu eterno devenir, é apenas demonstrar e tornar compreensível a onipresença divina. 

Tudo tem de reentrar na Divindade, caso contrário, esta constituiria uma “parte” e, portanto, seria incompleta. Se existem forças antagônicas, isto só pode ocorrer em Seu seio, no âmbito de Sua vontade, como parte do mecanismo do Seu querer, do esquema do Todo. 

Em verdade, a obra humana também é manifestação e expressão em que se realiza e se exterioriza, como na criação, um pensamento interior. Isto justifica a concepção antropomórfica, mas não leveis o paralelismo até conceber uma cisão, uma duplicidade absoluta entre Divindade e criação. Isto não pode ocorrer neste meu Monismo.
 
Não limiteis o conceito de Divindade a um ou a outro aspecto, pois esse conceito tem de ter a máxima extensão do concebível e muito mais. Não tenhais medo de diminuir-lhe a grandeza, dizendo que Deus é também o universo físico, porque este é apenas um átimo de seu eterno devenir em que Ele se manifesta. 

Onde vossa concepção é mais particular e relativa, a minha tende a manter compacto o todo, numa visão unitária, e fazer ressaltar os vínculos profundos que ligam princípio e forma. No caminhar das verdades progressivas, esta concepção continua, aperfeiçoa e eleva a vossa.
 
Deus é um infinito, e a essência de Sua manifestação vós a percebereis cada vez mais real, à medida que vossa capacidade perceptiva e conceptual souber penetrar o âmago das coisas. 

Deus é o princípio e Sua manifestação, ambos fundidos numa unidade indissolúvel; é o absoluto, o infinito, o eterno, que vedes apenas pulverizado no relativo, no finito, no progressivo. 

Deus é conceito e matéria, princípio e forma, causa e efeito, ligados, indivisíveis, como a realidade fenomênica vo-los apresenta, como a lógica vo-los demonstra, como dois momentos e dois extremos entre os quais se agita o universo.
 
Que maior profundidade ética e, ao mesmo tempo, verdade biológica (extremos que jamais soubestes unir) existem nesta concepção: o corpo é o órgão da alma; não é o cérebro que pensa, mas o espírito por meio do cérebro; o corpo é veste caduca que a alma eterna constrói para si, para as necessidade de sua ascensão? 

Que maior altitude espiritual do que esta: cada forma existente, em perfeita fusão de pensamento e de ação, é manifestação divina, expressão daquele supremo princípio de uma centelha animadora, sem a qual qualquer organismo cairia repentinamente?
 
A matéria subsiste, como poderia ser destruída? Mas está fundida com o espírito num complexo poderoso; como serva fiel, ajudou-lhe o desenvolvimento, recebeu-lhe a gênese em seu seio materno. 

Depois, completada a criação, inclina-se diante do fruto de sua elaboração e continua sendo serva, porque se, no todo, o baixo está ligado com o alto em fraternidade de origem e de trabalho, cada individuação não pode ultrapassar seu nível. Assim, a matéria, na vida, permanece no grau intermediário, e jamais o ultrapassa.
 
Depois deveis compreender que matéria, energia, vida e consciência, toda essa florescência incessante que do âmago se projeta para fora, não se deve a uma absurda gênese pela qual o mais se desenvolve do menos, o ser se cria do nada, embora automaticamente. Tudo isso é forma, aparência externa, é a manifestação sensível daquele devenir contínuo em que o Absoluto divino se realiza, projetando-se no relativo. 

Não penseis que os movimentos vorticosos, em que o complexo atômico transforma-se na vida, contenham e desenvolvam o espírito e o vosso pensamento, mas pensai que eles formam a mais complexa disciplina a que a matéria se submete, para poder produzir o princípio que a anima e corresponder ao impulso interior que a solicita sempre a evoluir.


10/06/2015


62. 

AS ORIGENS DO PSIQUISMO

 

 




Vimos o aspecto conceptual da fase $ \alpha $, a evolução do princípio diretor da vida. Observemos, agora, o aspecto prevalentemente dinâmico do devenir, em que se manifesta esse princípio. 








Vimos transformar-se o princípio básico da luta. Vejamos, então como se exprime essa transformação nas formas de um psiquismo crescente. As três forças que sustentam as leis de conservação e evolução e se manifestam nos impulsos — fome, amor e insaciabilidade do desejo — transformam profundamente a natureza do ser, paralelamente à transformação dos princípios, porque é sua exata expressão.

Se a finalidade da vida é a evolução, logo o objetivo da evolução, com sua tendência constante à realização máxima na fase vida é o psiquismo. Observemos como ele surge e se desenvolve até às formas superiores humanas. Um germe do psiquismo já existe, como vimos, na complexa estrutura cinética dos movimentos vorticosos. 

Desde esses primeiros sintomas, até o espírito do homem, passa-se por gradações sucessivas de desenvolvimento, através das formas vegetais e animais, cujos órgãos e formas são meras manifestações de um psiquismo progressivo. Esse psiquismo crescente, que rege todas as formas de vida, é um dos espetáculos mais maravilhosos apresentados por vosso universo.
 
Nele reside a substância da vida e a essa substância mantemo-nos aderentes. Para nós, vida = $ \alpha $, ao passo que suas formas constituem apenas veste exterior de um íntimo psiquismo. Evolução biológica é, para nós, evolução psíquica. Para compreender a evolução dos efeitos, é mister compreender a evolução das causas. 

Para nós, zoologia e botânica são ciências de vida, não um catálogo de cadáveres, e consideramos as formas apenas enquanto são a expressão do conceito que as plasmou. Não as ligamos por parentela orgânica senão onde e enquanto esta é indicadora de uma parentela psíquica mais substancial. 

Botânica e zoologia vós as reduzistes a necrópoles, ao passo que são reinos palpitantes de vida, de sensibilidade, de atividade, de beleza.
 
Assim consideramos, desde o princípio, o problema da vida e o desenvolveremos até o fim, porque só desse modo podem ser resolvidos racionalmente todos os problemas biológicos, psíquicos, e éticos. É absurdo conceber que as formas da vida sejam objetivos em si mesmas e sua evolução não possua finalidade nem continuação, justamente onde um eterno transformismo as precede nas fases $ \gamma $ e $ \beta $

A continuação da evolução orgânica só pode ocorrer a partir da evolução psíquica, como de fato se realiza no homem. Este psiquismo é a meta mais alta da vida. Seu desenvolvimento é o resultado final da permuta, da seleção, da transformação da espécie, de tão grande sabedoria, de tamanha luta, de tão alta tensão. 

Esse psiquismo fixa-se nos órgãos, nas formas; plasma-as, anima-as em todos os níveis, delas faz um meio para evoluir ainda mais. Nas formas da vida, o psiquismo se revela e se exprime, a partir das formas, observando-as podeis subir até o princípio psíquico, à centelha que se agita em seu âmago. 

Tudo isso constitui um esforço, uma ascensão dolorosa, do protozoário ao homem, sempre subindo, até os mais altos cimos do psiquismo, onde se realiza a gênese do espírito, obra maravilhosa e progressiva, em que a Divindade, princípio infinito, está sempre presente num ato constante de criação.
 
No estudo dos movimentos vorticosos, vimos como eles contêm, em germe, o desenvolvimento das leis biológicas e como a estrutura íntima cinética da vida lhes permite, desde suas unidades primordiais, admitir em sua órbita impulsos de fora e conservar seus traços em suas subsequentes alterações cinéticas íntimas. 

Um cálculo exato de forças existe, pois, como base dessa capacidade de conservação dinâmica, que se tornará recordação atávica, base sobre a qual se elevará a lei da hereditariedade. 

O ambiente externo, em que continuava a existir a matéria e a energia, ainda não elevadas à vida, representava um campo de intensa atividade cinética e se a onda dinâmica degradada tinha — ao investir a íntima estrutura atômica — gerado a vida, o ambiente externo, saturado de impulsos, continha e representava uma riqueza inexaurível de impulsos aptos a introduzir-se e a combinar-se no vórtice vital.
 
Logo que surgiu, estabeleceu-se uma rede de ações e reações entre a nova individuação e as forças do ambiente, desenvolveu-se aquela cadeia de fenômenos, em que se apóia e progride a evolução, e são agrupados sob os nomes de assimilação, adaptação, hereditariedade, seleção. 

A vida, com seu mais intenso dinamismo, respondeu a todas as impressões dinâmicas provenientes do mundo exterior. Estabeleceu-se uma permuta de impulsos e respostas. 

A vida adaptava-se e assimilava, acima de tudo recordava, diferenciava-se, selecionava-se. O íntimo princípio cinético enriquecia-se e complicava-se, aumentava sua capacidade de assimilação. 

Não se trata do nascimento automático do mais complexo provindo do menos complexo; apenas os entrelaçamentos cinéticos mais complexos permitiam a manifestação do princípio cinético, fechado em sua fase potencial. Direção, escolha, memória foram as primeiras manifestações daquele dinamismo que já agora assume os caracteres de psiquismo. 

Nasce a possibilidade de uma construção ideoplástica de órgãos. O princípio cinético, que emanou do vórtice íntimo, plasma para si os meios específicos para receber as impressões ambientais, isto é, os sentidos, infinitos, que progridem da planta ao homem, meio para alimentar a sensibilidade acrescida, devida à mais veloz mobilidade íntima do ser.


09/06/2015


61. 

EVOLUÇÃO DAS LEIS DA VIDA








Essa evolução, cujo maravilhoso caminho estamos observando, é produzida, em seu aspecto conceptual, por uma transformação de princípios e de leis. 















As formas do ser, como as encontrais em todos os níveis ($ \gamma $ , $ \beta $, $ \alpha $) são simplesmente a expressão desse pensamento em contínua ascensão. Na reconstrução desse pensamento, que atingis mediante a análise e a observação, está a síntese máxima que resume o mistério da criação. 

Por isso, melhor que nos entretermos no estudo das formas orgânicas — fenômeno que conheceis porque exterior e mais imediatamente acessível — é insistir na compreensão dos princípios que as determinam e regem o transformismo, isto é, o estudo das causas, mais do que os efeitos.
 
Comecemos, pois, pelo que é prevalentemente o aspecto conceptual dos fenômenos biológicos, o princípio diretor em sua ascensão, para depois observar o aspecto dinâmico do devenir das formas em que se exprime a ascensão desse princípio. O aspecto estático das individuações orgânicas está suficientemente expresso por vossas categorias botânicas e zoológicas e pelo princípio evolucionista, darwiniano das formas, já conhecido.
 
Nesses três aspectos, como nas fases precedentes, esgota-se o estudo da fase a. Na realidade, estão fundidos juntos, presentes em qualquer gênero e a qualquer momento, como cada pensamento está fundido na veste que o manifesta; assim vos aparecem na história do desenvolvimento ontogenético e filogenético (embriologia-metamorfologia e genealogia da espécie). Só compreendereis isso se o considerais como desenvolvimento mais de princípio que de formas, de psiquismo que de órgãos.
 
Por tudo o que dissemos sobre a teoria dos movimentos vorticosos e sobre a lei biológica da renovação, o movimento ou princípio cinético da substância torna-se cada vez mais intenso e manifesto e guia-nos às portas da terceira fase, $ \alpha $, com um conceito fundamental: o metabolismo. 

Vimos a sua íntima estrutura. Metabolismo, fato desconhecido em $ \gamma $ e em $ \beta $, fato novo, que significa ritmo acelerado de evolução. Vimos que os movimentos vorticosos contêm, em germe, todas as leis biológicas. O princípio básico da indestrutibilidade da substância torna-se, na vida, instinto de conservação; o princípio de seu transformismo ascencional torna-se lei de luta. 

A vida manifesta-se desde seu primeiro aparecimento com a característica fundamental de atividade, de luta pela conservação. Esse princípio logo se divide em dois: conservação do indivíduo e conservação da espécie, a que presidem duas funções básicas: 

nutrição e reprodução.
 
Há uma linguagem comum a todos os seres vivos, que todos compreendem: a fome e o amor. Mesmo na reprodução por cissiparidade, há uma doação de si, há o germe de um altruísmo a favor da espécie. A vida aparece imediatamente, desde suas primeiras formas, com a marca de ilimitado egoísmo; este somente cede lugar a um egoísmo diferente, o individual que apenas faz concessões ao coletivo. 

Trata-se de leis férreas, ferozes em seus primórdios, mas sempre equilibradas em perfeita justiça. No íntimo do fenômeno existe, como vimos, o princípio de todos os futuros desenvolvimentos e das mais altas ascensões. O embate e o equilíbrio das forças do mundo dinâmico tornar-se-ão dor e justiça nos níveis mais elevados. 

Conservar-se é o mais premente e sempre presente esforço da vida. Tesouros de sabedoria são dissipados, todas as astúcias, os meios mais poderosos, todos os sistemas e os mais diferentes estilos são empregados, contanto que se alcance esse objetivo. Dever supremo a que não podeis escapar, mesmo que quisésseis ficar ocioso; o instinto de conservação vos defende do suicídio, dando-vos o medo da morte.
 
Compreendei, porém, que se a conservação é necessidade inviolável, não pode, sozinha, constituir o fim último, porque é absurdo um ciclo fechado e estacionário de finalidade, uma vida que só tenha como meta a autoconservação. A vida não é fim em si mesma, mas meio para um objetivo mais alto: evoluir. 

Evoluir significa progredir na alegria, no bem; significa libertação das formas inferiores de existência, realização progressiva do pensamento de Deus: meta suprema que vos revela por que o fenômeno da vida está tão ciosamente protegido por leis sábias. Refleti que nela se quer, supremamente, vossa felicidade, e elevai um hino de gratidão ao Criador.
 
Eis o novo instinto universal e insuprimível: a necessidade de progresso e a insaciabilidade do desejo. O próprio hábito da satisfação, pela lei dos contrastes, base da percepção, ao diminuir a alegria, acentua a insaciável necessidade de progresso. A Lei contém em si todos os elementos do desenvolvimento futuro. 

Longo caminho evolutivo reunirá os germes das leis biológicas contidas nos movimentos vorticosos, com as mais altas leis da ética e das religiões. As formas primordiais evoluem. O princípio originário subsiste tenazmente, inviolável, superior a todas as infinitas resistências do ambiente que sempre o obstaculizam e nessa resistência ele se tempera. A lei baixa e feroz requinta-se. 

Fome e amor — primeira expressão da lei da luta pela conservação — tornar-se-ão mais tarde, através das duas formas de atividades que impõem ao ser (isto é, trabalho e afetos) duas qualidades elevadas e poderosas: inteligência e coração, que governam, nos níveis humanos mais altos, a conservação individual e coletiva. 

A função cria o órgão também no campo psíquico, ou seja, hábitos e qualidades. Surge imperceptivelmente, com o exercício, a nova característica que, afinal, estabiliza-se com nitidez.
 
Assim, a evolução fixa gradualmente suas conquistas; desenvolvendo seus princípios, diferenciando-os e multiplicando-os por diferenciação, opera no mundo dos efeitos uma verdadeira criação. Mas, é sempre o absoluto que se manifesta no relativo, a causa única que se multiplica em seus efeitos. 

Nascerão, assim, órgãos e instintos, funções novas e novas capacidades. Do primordial funcionamento orgânico, do simples princípio de permuta, subir-se-á até as mais complexas formas de psiquismo do espírito humano. Então aparecerá, por evolução, como elemento substancial na economia da vida, aquele absurdo biológico, o altruísmo. 

A lei que regula a vida assume uma forma de expressão mais elevada ou mais baixa, de acordo com o grau do ser; revela-se na medida que corresponde à potencialidade conquistada por ele. A evolução torna cada vez mais transparente, na vida, um pensamento cada vez mais alto e transforma as leis biológicas.
 
Jamais vos perguntasteis o significado do contraste tão evidente entre a lei sem piedade da luta e a lei humana mais doce, da compaixão, bondade e altruísmo? O próprio animal conhece a compaixão, mas só para si e para seus filhos. Afora esses casos, a luta é feroz, sem exceções. O esforço da evolução se realiza mediante uma seleção implacável e o triunfo cabe, incondicionalmente, ao mais forte. 

No homem, os objetivos da seleção são alcançados por outros meios, pelo trabalho, pela inteligência, pelos sentimentos. Só no homem surgem essas superações e a percepção do contraste com a lei mais baixa.
 
O animal ignora essas formas superiores e é atroz, sem piedade, indiferente à dor do vizinho, mas em perfeita inocência; não por maldade, mas em plena justiça, porque esse é seu nível e sua lei. O equilíbrio na consciência animal é mais mecânico, simples e primitivo; ressente-se mais fortemente das origens e ainda aparece como uma resultante de forças, sendo mais facilmente calculável em sua simplicidade do que na complexidade do espírito humano.
 
Nas mesmas circunstâncias, o ser humano comporta-se com liberdade de escolha e independência pessoal, ignoradas no mundo animal, justamente porque em seu campo entram em função elementos desconhecidos nos níveis inferiores. Observai em que rede de forças e de princípios se movem as formas; observai que imensas criações pode produzir um mero desenvolvimento de princípios. 

Só o homem olha para trás e pela primeira vez percebe a distância que o separa do passado, dele se horroriza porque se encontra no limiar do mais alto psiquismo, representando a forma de transição entre a animalidade e a super-humanidade, entre a ferocidade e a bondade, entre a força e a justiça. 

Duas leis contíguas e, no entanto, profundamente diferentes. O homem oscila entre dois mundos: O mundo animal que diz: ou comer ou ser comido, agressão, força brutal, luta sem piedade, triunfo incondicional do mais forte, pois a força física sintetiza toda a vitória nesse nível; e o mundo superior, anunciado pelo Evangelho do Cristo, a Boa-Nova, a primeira centelha da maior revolução biológica em vosso planeta.
 
Em meu conceito, fenômeno psíquico e social é fenômeno biológico, porque sempre reconduzido à sua substância, lei da vida. Neste novo mundo, a força torna-se justiça. Somente o homem, finalmente amadurecido, pode compreender esta antecipação de realizações biológicas, reveladas pelo céu. 

Jamais, desde o aparecimento da vida até o homem, fora iniciada mais profunda transformação, porque a vida animal é, apenas, uma vida vegetal mais acelerada e lhe conserva os princípios fundamentais. 

A lei do amor e do perdão constitui tamanha revolução substancial, que o animal não pode ficar excluído dela; diante de tão grande desenvolvimento dos princípios da vida, o ser inferior — em que tantas vezes o homem regride — pára, como diante de muralha insuperável. Esses conceitos são verdadeiramente, nesse nível, um absurdo, uma impossibilidade; direi mais, são uma impotência biológica.
 
Veremos como ocorre, por um sistema de reações naturais e de registros destas na consciência, por progressiva aproximação e disciplina da força desordenada, a transformação da lei do mais forte, na lei do mais justo; da lei desapiedada da seleção, na lei do amor. 

A lei do Evangelho não é um absurdo em vosso nível biológico; não é aquilo que, visto de níveis mais baixos, pode parecer fraqueza e falência. Nesta fase mais alta de evolução, o vencido da vida animal pode ser um vitorioso, porque outras forças, ignoradas naquela vida, são atraídas e postas em ação. 

Aparece o mundo moral, que supera, vence e reprime o mundo orgânico, arrastando-o e dominando-o em esferas superiores. Em qualquer caso, a inconcebível fraqueza da bondade, a deposição de todas as armas — base da luta pela vida — o altruísmo para qualquer ser, sobretudo para com o inimigo, transforma-se em novo princípio de convivência e de colaboração, a lei do homem que se eleva a outra unidade coletiva mais alta, que se organiza em nações, sociedades, humanidades. 

Os homens que praticam (não os que pregam) esses princípios, ainda são poucos e incompreendidos. Mas aumentarão e só a eles pertence o futuro.
 
Mais perfeita manifesta-se a lei à proporção que as unidades menores se diferenciam e se organizam em unidades mais amplas. Cabe ao homem transformar a natureza. Direi melhor: ele mesmo é a natureza e nele a natureza se transforma. Compete ao homem, mudando-se a si mesmo, realizar a transformação da lei biológica em seu planeta; realizar, fixando, nas formas psíquicas, estas criações superiores da evolução.
 
Cabe ao homem o dever e a glória de responder ao grande apelo descido dos céus para o ser mais escolhido e para o produto mais elevado da vida terrestre, para que se cumpra o trabalho de transformar a natureza que ignora a compaixão, numa natureza movida por uma lei superior de amor, de fusão, de colaboração, de compreensão, de fraternidade.



08/06/2015


60. 

A LEI BIOLÓGICA DA RENOVAÇÃO











Com a vida, o transformismo da estequiogênese e da evolução dinâmica acelera ainda mais seu ritmo. 













trajetória daquele devenir fenomênico, que estudamos nas fases $ \gamma $ e $ \beta $, torna-se a linha de vosso destino. Matéria e energia não nascem e morrem tão rapidamente, não mudam com essa velocidade. 

A vida tem que nascer e morrer sem jamais deter-se, sem possibilidade de parar esse movimento mais rápido, inexoravelmente batido por um ritmo mais veloz de tempo. O equilíbrio da vida é o equilíbrio do voo, em que a estabilidade está condicionada à velocidade. 

Vimos que a estabilidade das combinações químicas de um metabolismo que se renova sempre é a característica fundamental do fenômeno biológico. Nascer e morrer, morrer e nascer, essa é a trama da vida. A constituição cinética da substância se exterioriza e aparece cada vez mais evidente, à proporção que a evolução ascende até sua forma mais alta, a vida. 

matéria é tomada num turbilhão cada vez mais veloz, que a permeia em sua essência mais íntima, para que possa responder aos novos impulsos do ser e tornar-se meio de desenvolvimento do novo princípio psíquico da vida, $ \alpha $.

Parece-vos uma fraqueza da vida, essa fragilidade, essa contínua necessidade de reconstrução, para suprir sua contínua dispersão e desgaste; mas essa é sua força. Parece-vos que não sabe manter-se numa estabilidade constante. Ao contrário, esse transformismo mais rápido é a primeira condição de suas capacidades ascensionais, um poder absolutamente novo no caminho da evolução. 

Na vida, o espasmo da ascensão se torna mais intenso, rapidíssimo. O turbilhão psíquico nasce e se desenvolve cada vez mais poderoso, de forma em forma; a veste da matéria se torna cada vez mais sutil; o pensamento divino se torna cada vez mais transparente. É necessário reconstruir, continuamente, vossos corpos, e só uma troca ou recâmbio constante pode sustentá-los. 

Esta, que parece vossa imperfeição, constitui vosso poder. Neste ritmo rápido tendes que viver: 

juventude e velhice, sem jamais parar. 

Mas nessa corrida é indispensável experimentar continuamente, provar, assimilar, avançar espiritualmente, esta é a vida.

Poder existir à custa de uma renovação contínua significa tão somente ter que marchar, cada dia, na grande estrada da evolução. Vós vos prendeis à forma; acreditais que sois matéria; quereríeis paralisar esse maravilhoso movimento; para prolongar a ilusão de um dia, gostaríeis de parar a marcha estupenda. 

Mas possuís, além da juventude do corpo, a inexaurível e eterna juventude de uma vida maior, não a terrena. Naquela sois indestrutíveis, eternamente novos e progressistas, sois jovens, não no corpo caduco, mas no espírito eterno. Não deis importância às alvoradas e aos crepúsculos de um dia, pois cada crepúsculo prepara nova aurora. É lógica simplicíssima, evidente lei de equilíbrio esta, pela qual tudo o que nasce, morre, mas também tudo o que morre tem de renascer.

Não vos iludais a vós mesmos; não percais um tempo precioso no esforço inútil de tentar parar a vida. A beleza da mulher deve servir à maternidade; a força do homem é feita para desgastar-se no trabalho. Só quando não tiverdes fraudado a Lei, mas houverdes criado de acordo com sua ordem, vosso tempo “não será passado” e não tereis lamentações. Se pedis o absurdo, tereis que colher ilusões. 

Colocai-vos no movimento, não na imobilidade. Desembaraçai vosso pensamento do passado que vos prende. Superai-o. O passado morreu e contém o menos. Interessa o futuro, que contém o mais. A sabedoria não está no passado, mas no futuro. Só vossa ignorância pode fazer que acrediteis na possibilidade de violar e fraudar a Lei, de deter-lhe o caminho fatal. Se parais, o pensamento cristaliza-se, o tédio vos persegue, a satisfação de todas as necessidades, de todos os desejos vos torna ineptos; ócio significa morte por inanição. 

O repouso só é belo como pausa, como consequência de um trabalho anterior e condição de novo trabalho. A necessidade de evoluir, imposta pela Lei, está gravada no mais profundo instinto de vossa alma: a insaciabilidade. 

A insatisfação que permanece no âmago de todas as vossas realizações, qualquer desejo satisfeito que vos faz debruçar para outro horizonte mais amplo, o descontentamento que vos atormenta logo que parais, o ilimitado poder de ambicionar, inato em vosso espírito, tudo vos diz que sois feitos para caminhar. 

Isso pode constituir ânsia e ilusão, mas é estrada de progresso, é o esforço da ascensão. A centelha, que guia vossa vida, sente a Lei, mesmo sem o saberdes; segue-a com seu instinto profundo, indelével, que jamais conseguireis fazer calar. Isso não é condenação nem ônus de ilusões. 

Moveis-vos de acordo com a Lei, criai substancialmente, e sentireis quanta alegria vos inundará o espírito! Ao invés, que tristeza sutil vos prende quando vosso tempo é desperdiçado! Ocasiões perdidas, posições estacionárias: o universo caminhou e ficasteis parados em vossa preguiça. A alma o sente, entristece-se e chora. Então gritais: 


Vanitas vanitatum



Mas vão sois vós: a vida não é vã. Não desperdiceis vossas energias, não pareis à beira do caminho, não adormeçais enquanto a vida está desperta e caminha; se cada dia tiverdes sabido criar no espírito e na eternidade, se tiverdes dado a cada ato esse objetivo mais alto e mais substancial, tereis caminhado com o tempo e não direis: 

o tempo passou! 

Tereis renovado vossa juventude com vosso trabalho e não tereis envelhecido tristemente. Então não direis mais da vida: 

vanitas vanitatum.

Realizai o trabalho oferecido por vosso destino e não invejeis quem está no ócio. Vós, humildes, não invejeis os ricos e poderosos, porque eles têm outros trabalhos a fazer, outros problemas a resolver, outros pesos a suportar.

Ninguém repousa verdadeiramente. Não há parada para ninguém no caminho da vida. Mas considerai-vos todos soldados do mesmo exército, encarregados de trabalhos diferentes, coordenados ao mesmo objetivo. Não invejeis aqueles cuja aparência os apresenta felizes: a verdadeira alegria não se usurpa, não se herda. Aquilo que não se ganhou não dá satisfação, não se aprecia e se desperdiça.

A alma quer a sua alegria, sua propriedade, fruto de seu trabalho; só isso é apreciado, só isso traz prazer. As vantagens gratuitas não trazem satisfação. A Lei distribui alegria e dores acima de vossas partilhas humanas, com profunda justiça. Como poderíeis ser felizes, se vossas vidas fossem mais substanciais! Por que acumular, com qualquer meio, se tudo deverá ser deixado? 

Considerai antes a vida como campo de adestramento, onde estais para temperar vossas forças, para provar vossas capacidades, para aprender novos caminhos, para aprofundar vossa consciência. Estais no mundo para construir não na areia, mas para edificar-vos a vós mesmos.

Não busqueis o absurdo de querer prender-vos definitivamente numa matéria instável e caduca; a troca que a vida a submete, não permite que sua imagem resista um instante. Desprezai a miragem das formas. O que existe fica e sobrevive à renovação contínua dos meios, o que verdadeiramente importa sois vós, vossa personalidade espiritual. Não façais do mundo um fim, pois é apenas um meio. 

Não invertais as posições e as funções. Não vos transformeis de senhores em servos. Caminhai. Lançai-vos à grande correnteza. A vida é feita para correr e avançar. Triste é o lamento do tempo perdido no sono, do tempo que não trouxe nenhum progresso e vos deixou para trás, estacionários; triste é o choro da alma que se vê iludida em sua maior necessidade, em que a Lei fala e exprime-se. 

Avançai, se não quiserdes que a correnteza vos ultrapasse e vos abandone. Sede insaciáveis, como Deus vos quer, trabalhando substancialmente, criando no bem, na eternidade.

Como podeis ser tão crianças, para acreditar que num universo tão perfeito a felicidade possa ser usurpada por vias transversas, com meios injustos? Trabalhai: procurai vossas alegrias, conquistai-as com vosso trabalho. 

Vossa alma jamais se alegrará com as maiores conquistas se não forem vossas, se não forem produto de vosso esforço, testemunho e medida de vossa capacidade. Mais que o resultado exterior, a alma quer a demonstração de seu íntimo poder, quer a prova de sua sabedoria progressiva, quer o obstáculo para poder vencê-lo, quer a prova constante de seu valor íntimo e indestrutível.

O resultado prático, concreto, na economia da vida, é quase um produto secundário e de refugo. Por isso, a Lei não cuida dele e, logo que sai das mãos do homem, abandona-o à mercê de forças de ordem inferior. Como é triste ver vosso contínuo esforço inútil para realizar-vos num mundo ingrato e rebelde, para imprimirdes na matéria o sopro de vossa alma eterna! 

Que trágico espetáculo, o inconciliável contraste entre a vontade e os meios, entre o pensamento e sua realização! Por causa dessa correspondência inadequada, dessa incurável impotência da matéria, as maiores almas, muitas vezes abatem-se exaustas aos pés de seus ideais, altos como rochas, cujos cimos resplandecem fora da Terra.

Terra móvel e vã, que recolhe a ruína de todas as vossas grandezas humanas! E como podeis ainda insistir no doloroso jogo, ou concluir tristemente que nascesteis apenas para colher ilusões?

Concebei a vida não mais na superfície, mas em sua realidade mais profunda, e se dissipará a condenação aparente; construí no espírito, que mantém eternamente as impressões, e vossas aspirações encontrarão eterna expressão.

Este ritmo mais rápido da vida, cuja essência e origem vimos no estudo dos movimentos vorticosos, manifesta-se nas formas orgânicas como uma permuta química contínua. Tal como a vida psíquica é um veículo em marcha, que avança de curva em curva, de estação em estação, sem possibilidade de parar, assim a vida orgânica é uma renovação contínua; o material de que é constituída é uma corrente. 

Esse material, no entanto, no seu conjunto, é sempre o mesmo, move-se circulando de organismo em organismo. A vida é feita de unidades comunicantes, ligadas em indissolúvel vínculo por contínuas permutas do material constitutivo. Como um rio, em que sempre mudam as águas, assim o ser se mantém, na mudança dos elementos constitutivos, sua própria individualidade.

A lógica vos indica a presença de um princípio superior e diferente de cada uma das partes componentes, porque o mesmo material é plasmado diferentemente, individualizado em diferentes formas específicas, de acordo com a natureza do ser, que dele se apropria. 

O organismo superior é uma verdadeira sociedade de células, com funções distintas, mas há uma coordenação de funções de cada uma das unidades menores diante das maiores; há uma subordinação do interesse individual ao coletivo. 

Os organismos superiores são agrupamentos associados, semelhantes à sociedade humana, em que existe um poder central dirigente. As unidades componentes nascem e morrem, de uma vida menor englobada no âmbito da vida maior. Basta o fato de que ela permanece constante, para demonstrar a existência em vós de uma individualidade superior e independente. 

Vede como à vida e ao seu desenvolvimento está subordinado todo o transformismo dos materiais tomados na sua circulação; à vida maior são oferecidas em holocausto, como a um interesse superior, todas as vidas menores que a atravessam e nela se sustentam. 

Contínuos nascimentos e mortes menores, coordenados num organismo que, por sua vez, nasce, morre e se coordena em organismos coletivos mais amplos; que, por sua vez, nascem e morrem, sejam espécies animais ou famílias, povos, civilizações, humanidades. 

A vida se organiza coordenando em unidade, de acordo com o princípio das unidades coletivas.

Embora a substância viva e morra continuamente, a vida jamais se extingue. Renovar-se é sua condição. A vida e a morte são apenas fases dessa renovação, a vida e a morte da unidade menor constituem a permuta da unidade maior de que ela é parte orgânica. 

Nessa rede de leis, nas quais ocorrem os fenômenos e nas quais a matéria está presa, não há lugar para absurdos, como seria o fim de qualquer unidade menor ou maior. 

Ao contrário, tudo se reagrupa em unidades coletivas e coordena a própria evolução, na evolução das unidades superiores, de que é o elemento constitutivo (lei dos ciclos múltiplos).