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07/10/2015


97. 

O ESTADO E SUA EVOLUÇÃO


 


 


Assim a Lei reconstrói na história os equilíbrios violados e guia os acontecimentos acima da vontade dos dirigentes e dirigidos. 









A história caminha sem jamais parar. Cada século produz, elabora, assimila um conceito e o entrega realizado — patrimônio hereditário que se acumula — ao século seguinte, que se preparará para novas criações.
 
Cada época tem sua função criativa; os outros aspectos da vida, entretanto, calam-se e esperam. 

Dessa forma, a Idade Média, entre violências e paixões, terrores satânicos e visões místicas, aguardava a construção da sua consciência do bem e do mal: 

um tormento de alma, para reencontrar a voz de Deus; um esforço, acompanhado do tormento de uma dor coletiva opressora, a fim de realizar o sonho da libertação individual. 

Titânica ebulição de almas, a Idade Média, no campo da arte, da política, da ciência, lançava a semente das maiores construções espirituais. Vosso século esqueceu o espírito, a fim de criar ciência, mecânica e velocidade, que fundamentaram vossa psicologia. 

Depressa essas coisas estarão conquistadas e, mesmo utilizando-as, a consciência dirigir-se-á, por meios mais poderosos, para construções mais elevadas de espírito em todos os campos. As leis da vida, adormecidas por milênios num ritmo uniforme, sofreram uma sacudidela e hoje estão despertas para lançar-vos à civilização do terceiro milênio.
 
Como a Revolução Francesa, momento crítico e longamente preparado nos séculos, concretizou à luz da existência histórica a subida da burguesia produtiva, assim a futura revolução maior da humanidade, filha de uma maturação substancial biológica, trará à luz a subida política da intelectualidade consciente. 

Não compreendo como intelectualidade aquela miscelânea mental entulhada, cultura moderna, fato externo que não proporciona virtude à personalidade, mas entendo-a como uma maturação de raça construtora de instintos mais altos, que tornem o homem um ser escolhido pela seleção, para função social do mando. 

... cultura moderna ...


A esta função de governo estará agregada, por qualidades inconfundíveis de raça e não por superposição de cultura e de títulos, uma elite insubstituível, tal como na natureza nenhuma célula de tecido muscular poderá substituir a célula à qual foram confiadas funções nervosas cerebrais.
 
A base biológica da divisão do trabalho por especialização de capacidade é a única que pode justificar o conceito do futuro estado orgânico, diferenciado nas unidades compactas em sua fusão, expressão viva do organismo biológico coletivo. 

Estado, em sentido colaboracionista, em que, além das funções econômicas e produtivas, acrescentam-se todas as funções sociais e éticas. 

A esta substância biológica temos sempre que nos referir todas as vezes que quisermos compreender o fenômeno político; não construções ideológicas, mas a realidade da vida em suas mais profundas raízes, que se enxertam na fenomenologia universal, seu fundamento indestrutível.
 
Se a Idade Média, em suas condições sociais involuídas, só podia oferecer ao homem um sonho de libertação individual pelos caminhos da renúncia mística, hoje nasceu o Estado. A sociedade constituiu-se de forma orgânica, e no seu seio o indivíduo pode atingir toda sua realização. 

Se a Idade Média atendeu às construções prevalentemente individuais, retoma-se, hoje, o ciclo das construções e conquistas coletivas. 

Não se concebe mais o indivíduo isolado, mesmo se for santo, numa fuga mística da companhia humana, mas o indivíduo fundido nela em colaboração fecunda.
 
Hoje, podemos definir mais exatamente o poder central, como central psíquica e volitiva de uma nação, e estender o conceito de Estado a todo o organismo nacional.
 
Em sua evolução, o conceito de Estado nasceu do poder monárquico absoluto, tipo Luís XIV. 




Na longa luta feudal, uma família vencera, primeiro submetendo as outras, depois assimilando-as. Realizado o esforço da concentração do poder, antes espalhado sem coesão em mil ramificações, dando o surgimento de um órgão central numa vasta coletividade, este não podia, por sucessão natural de impulsos, deixar de elaborar logo o conceito de Estado na evolução das Monarquias que, nessa elaboração, esgotavam sua função histórica. 

O Estado tornou-se, por seu mérito, sempre mais orgânico, progressivo em profundidade, não para limitar o indivíduo, mas para valorizá-lo e elevar-lhe a consciência; tornou-se cada vez mais rico de funções e de deveres, até a hodierna concepção de Estado.
 
Hoje, o Estado não é mais apenas um poder central superposto a um povo. Esse era o Estado embrionário, filho da monarquia. Não mais se admitem essas superposições. 


O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin

Portanto, o Estado não é mais apenas um poder central dominador, mas é o cérebro de seu povo e só pode ser expressão de uma consciência nacional, de uma unidade de espíritos, baseada numa unidade ética. 

Se as unidades primordiais da matéria já atingiram tão perfeita e maravilhosa organização ao se aglomerarem nas unidades coletivas dos cristais (orientação molecular, gênese e acréscimo proveniente de um germe cristalino, reparação das zonas mutiladas e reconstrução exata da forma individual); se tanto psiquismo já explode na matéria, fundindo as moléculas em unidades orgânicas, imaginai a perfeição que terá de atingir o mesmo princípio, que maravilhosa complexidade de formas o mesmo psiquismo terá de produzir, elevado depois de tão longo caminho evolutivo à consciência social, ao expandir finalmente seu impulso na criação das superiores unidades coletivas humanas. 

Por esse caminho o Estado prosseguirá em sua evolução, absorvendo e organizando, não apenas representando um povo inteiro, num progressivo processo de descentralização e concentração, de contatos cada vez mais intensos entre periferia e centro. 

Com isso, a autoridade não se pulveriza, mas o povo funde-se nela, numa correnteza de fluxos e refluxos, que o torna cada vez mais um organismo a funcionar, consciente e compacto.
 
Nossa concepção biológica dos fenômenos sociais e nossa concepção evolucionista do Estado nos levaram, naturalmente, a esta visão atual de um Estado cada vez mais unitário e, assim, fica logicamente colocado no quadro da fenomenologia universal, no caminho da evolução coletiva para o ápice da fase $ \alpha $. Solicitei à realidade biológica que me desse as linhas do ideal social. 

Essa realidade vos reafirma, em toda a parte e sempre, que o princípio e a vontade da Lei são: 

trabalho-função e divisão, especialização e reorganização de capacidades e de atividades. 

Observai que fundamentos universais foram dados aqui a esse conceito de Estado. Nenhum sistema político jamais soube justificar-se mediante uma filosofia científica que retomasse à gênese da matéria, da energia e da vida. 

Conclusões espontâneas, encarceradas numa jaula de racionalidade, necessárias num organismo de conceitos e de fatos, tal como são o universo e esta Síntese que o descreve.
 
Hoje, o Estado nasceu. Não podiam denominar-se assim os velhos organismos políticos, baseados na superposição de classes até o absurdo, inadmissível, de um domínio estrangeiro. Hoje, um povo não é um domínio, mas um organismo cuja alma é o Estado. 

Esta é a etapa hodierna das unificações dos indivíduos em coletividades, que progridem da família à classe, à nação, à humanidade. Para chegar-se a saber viver como unidades coletivas superiores, é necessário passar pelas unificações componentes menores, vivendo-as através de uma maturação gradativa e consciente. 

Portanto, são absurdos os internacionalismos abstratos, quando o mundo ainda trabalha para encontrar suas unidades étnicas menores e sua criação atual, antes ignorada. 

A formação progride por continuidade, já que uma unidade coletiva não é mero agregado regido por pressões de leis; para resistir ao choque do tempo, tem de ser um organismo regido por uma consciência coletiva, fusão de almas, e só pode operar após longa maturação; uma unidade só se mantém na medida em que se tenha formado e enquanto a ela corresponda outra íntima unidade psíquica que a mantenha coesa.
 
Uma nação é simplesmente a veste externa de um psiquismo coletivo, a forma biológica desta unidade espiritual superior.
 
Hoje, o Estado só pode ser povo, povo só pode existir organizado em Estado. A progressão das unidades e consciências dirigentes continuará a dilatar-se na evolução, até uma unidade e consciência que abarquem toda a humanidade, e daí a uma unidade e consciência cósmica que compreenda todo o universo. 

A luta é esforço de transição que cessa ao atingir-se a meta, a unificação mais elevada. Esta é a tendência constante, o significado das grandes tentativas históricas da formação dos impérios. Política, científica e espiritualmente, o ser busca a unidade.
 



Também o campo político é campo de verdades relativas e progressivas; o conceito de Estado está em contínuo devenir, tanto quanto um povo é uma unidade em contínua evolução. 

Cada geração vive um momento do gradativo desenvolvimento da verdade política do próprio povo, como por momentos sucessivos vive sua verdade artística, científica, ética e religiosa. Só hoje se pode falar em Estado. Para chegar aí, a jornada foi longa. Trata-se de uma maturação biológica, longamente elaborada, mesmo que tenha explodido em revoluções. 

A unidade coletiva expressou-se desde as origens em seu poder central, pelo método da seleção biológica. Assim, criado esse centro, progressivamente disciplinou-lhe os poderes. 

Primeiramente, a coação, ou seja, o arbítrio de um vencedor; depois a convenção, ou seja, o arbítrio das maiorias; finalmente, hoje, a função coletiva, isto é, a justiça. Essas são as etapas evolutivas do princípio da atribuição de poderes.

 


Mais minunciosamente, temos, no princípio, um poder absoluto subdividido, como no feudalismo; depois, um poder absoluto, concentrado nas mãos do mais forte (monarquia), vencedor de uma classe inteira, mais tarde domesticada e convertida nas cortes (classe aristocrática). 

O centro ainda se ressentia das origens familiares, o cabeça era dominador de consanguíneos e o poder hereditário. Isto demonstra que o poder nasceu na família, nas mãos do chefe, e a família é o instituto basilar da sociedade humana. 

Nesta fase, o poder é conquista, a função dirigente atravessa a fase de luta, própria das formações, correspondente à da força, ainda não elevada a direito e justiça. Estamos na perfeição da monarquia absoluta, do Roi Soleil, que dizia: 

“L’État c’est moi” (“Eu sou o Estado”). 





Meio século de abusos com Luís XV e, com Luís XVI, o sistema desaba. Como todos os fenômenos, também o político procede por amadurecimento de ciclos. 

A revolução reage com um poder absoluto confiado às maiorias. O rei era o povo. Foi chamado de poder representativo, democrático; passava do máximo de concentração ao máximo de descentralização.
 
Assim caminhava a evolução do mando por excessos e reações corretivas extremas, com tendência constante ao abuso, porque o homem ainda não evoluíra, a causa não se aperfeiçoara; avançava por uma série de enérgicos contragolpes, porque a lei de equilíbrio impunha a necessidade de uma correção contínua. 

Num estado de inconsciência que gerava abuso e excesso, a evolução não podia caminhar senão oscilando entre impulsos e contra-impulsos. O conceito de soberania popular nascia como reação ao abuso da soberania de um só. Mas, substancialmente, ao arbítrio de um só, sucedeu o arbítrio das multidões.
 
Acredita-se sempre somente nas mudanças de sistemas e não se vê que a substância que decide é a maturação do homem. A revolução francesa iniciou o povo na difícil arte do mando, mas desde os primeiros momentos o povo demonstrou-se incompetente e inconsciente, excedendo-se nos piores abusos. 



O poder requer a mais alta maturidade de consciência; é uma grande força, perigosa nas mãos de uma criança. Mas desde esse momento, o povo começou a estudar a nova arte e a resolver o novo problema. 

Assim, abuso e reação amortizar-se-ão gradativamente e será conquistada a substância, conteúdo de todas essas mudanças:  

a consciência coletiva, a formação do Eu na unidade social. 

Só nesse sentido, isto é, o de ser o seu exercício um instrumento de formação de consciência, o poder representativo não podia ser um absurdo em sua alvorada, porque presume uma consciência coletiva que então estava justamente a formar-se, efeito do trabalho do Estado, não causa de sua construção. Mas, como vimos, função e órgão apoiam-se, criando-se reciprocamente. 

Aconteceu, então, que, pelo mesmo princípio de correção do abuso, pelo qual o sistema representativo tinha corrigido o poder monárquico absoluto, um novo poder centralizador corrigiu os abusos do poder representativo. 

A infertilidade da descentralização levou novamente à centralização. Assim, oligarquias e democracias se alternam e se compensam mutuamente.
 
Mas essa oscilação entre os dois extremos não tem, apenas, a função de restabelecer o equilíbrio da Lei; é a técnica evolutiva, na qual o homem é trabalhado como material político constitutivo. Esse alternar-se de sistemas não é simples compensação de contrários, mas um escorar-se de impulsos e contra-impulsos; é um jogo de forças, de cujo contraste surge um progresso íntimo. A eliminação do arbítrio é obtido não só por controles externos, mas sobretudo por amadurecimento de consciências. 

Como pode ser mais moderada a oligarquia, depois de um século de experiência democrática! Como aprendeu a executar civilizadamente as revoluções, a inclinar-se para o povo, a reencontrar, em sua elevação, a própria função justificadora! 

Com quanta maturidade se poderá voltar à democracia, quando a oligarquia tiver cumprido sua função de formar a consciência de um povo! A que distância se encontrará esse povo daquele que começava sua vida política com a Revolução Francesa! 

Como o contragolpe será mais civilizado e fecundo, num povo que, por merecimento de um poder centralizado, foi educado para saber eleger e governar, para saber evoluir nas concepções sociais! Essa é a evolução política da unidade coletiva, paralela à evolução em todos os campos.
 
Detenhamo-nos na concepção do Estado futuro, depois de tê-lo orientado assim no tempo e em seu transformismo ascensional. Concepção nova e ousada, base, no campo social, da nova civilização do terceiro milênio.
 
Estado democrático e aristocrático ao mesmo tempo, ele representará a fusão dos dois princípios de concentração e descentralização, ambos necessários. Em sua função unitária, criará uma coletividade mais compacta, em cujo seio o indivíduo não será mais um membro desordenado de um rebanho desordenado, mas será soldado de um exército em marcha, em que vibrará a alma do chefe. Pela primeira vez na história, o Estado fará do povo um organismo, em cujo centro, fundido com ele, far-se-á síntese de vontades e de poderes. 

No Estado futuro o povo não será mais um rebanho governado, que só deve dar e obedecer, mas será o corpo do cérebro central (o governo); o organismo da alma que dirigirá, que por toda parte o penetrará e vivificará com seus tentáculos e ramificações nervosas. 

Não mais um chefe, nem uma classe, nem uma maioria que mandará por si só, mas uma doação de deveres na cooperação, uma fusão completa num trabalho e num objetivo comuns. 




Sem dúvida que historicamente fixou-se na alma das massas, por hábito milenar, uma indiferença pelo poder central, mutável e ausente, mas invariavelmente senhor, diante do qual o povo tinha de ficar sempre igualmente inclinado na posição de servo. 



Formou-se, assim, um instinto de aquiescência passiva, de tolerância e desinteresse, como por uma coisa que não lhe diz respeito, que só age para pesar sobre o povo, educado apenas para a virtude de sofrer e calar. 

O Estado moderno tem de começar pelo trabalho de demolição desta psicologia de absenteísmo político, que se fixou na alma coletiva. 

Pensai que cada concepção e realização política não constitui jamais a última meta definitivamente alcançada, mas que, por ser a síntese de todo o passado, é também o germe de um futuro ilimitado.


05/10/2015


96.

CONCEPÇÃO BIOLÓGICA DO PODER


 






Nestas conclusões sociais está contido tudo o que é preciso para refazer o mundo, baseado em princípios biológicos, estritamente científicos, vinculados com o funcionamento orgânico do universo fenomênico. 








Não insisto em pormenores, porque em meu sistema tudo é orgânico; uma vez fornecida a chave dos fenômenos, exposto o princípio que os governa, é fácil concluir também nos mínimos detalhes. Basta haver definido o edifício do universo em suas linhas maiores. 

Estas conclusões poderão parecer irrealizáveis, porque distantes da involução atual, mas não são utópicas, pois movem-se e moveram-se constantemente numa atmosfera de racionalidade. 


Se vos parecerem utópicas, pensai que esta filosofia, embora se abstenha de unir-se e enquadrar-se no pensamento filosófico humano, liga-se e com perfeita aderência se enxerta no quadro da fenomenologia do universo. Esta não é filosofia de superfície, pois desde a série estequiogenética para cima, todos os fenômenos da matéria, da energia, da vida e do psiquismo a sustentam. 

Nada disso é mera sucessão de ideias, mas representa uma concatenação lógica, pela qual as conclusões estão condicionadas desde as primeiras afirmações e reforçam-se a cada passo deste tratado. 

Pensai, além disso, que meu pensamento não se move no âmbito estreito das concepções humanas, mas o sobrevoa amplamente para horizontes vastíssimos; por isso, coloca as grandes metas à distância, para onde os milênios caminham com grande esforço. 





Dei dois limites máximos ao vosso concebível, como metas da evolução humana:  

o super-homem para o indivíduo e o Evangelho para a coletividade

Em substância, constituem uma realização única. Mas o pensamento não tem limitações.
 

Temos observado a evolução das mais poderosas forças sociais que operam nas massas humanas, para a formação de sua alma coletiva. Observemos agora essas forças convergirem para a nova expressão daquela alma, ainda jovem, verdadeira central psíquica e volitiva, o Estado. Este é o organismo situado no centro do organismo social, concentrador de poder dirigente de todas as funções de um povo. 

Compreendido dessa maneira como poder, ele é o órgão motor psíquico promotor e coadjutor das maturações biológicas, individuais e sociais, que vimos. Sua função é de formar o homem, de estimular as ascensões humanas; sua meta mais alta é criar no campo do espírito. T

oda a sua multíplice atividade, jurídica, econômica e social, deve ser destilada nessas criações, únicas que fixam na eternidade todos os valores. Esta função justifica o monopólio da força, a obediência imposta ao cidadão. As posições supremas implicam supremos deveres, ai dos órgãos dirigentes que não executam suas funções.
 

Minha concepção de Estado apoia-se em bases estritamente biológicas. Elevei a ciência até o ponto de poder concluir em todos os campos, até mesmo no filosófico-jurídico-político-social; lancei as bases de uma ética científica, de nova filosofia científica do Direito. Minha concepção é racional, harmoniza-se com todos os fenômenos da natureza; portanto, é universal. 

É uma concepção progressiva, se qualquer religião, no campo ético, encontra sua posição, também no campo político, qualquer nação pode escalonar-se no seu nível, de acordo com sua maturidade e compreensão. Como os fenômenos da vida, no seu sistema, são fenômenos psíquicos, assim os fenômenos sociais são fenômenos biológicos.
 

A sociedade humana é um organismo, tanto quanto são organismos as sociedades animais, todas igualmente sustentadas por leis e equilíbrios exatos, como são organismos os organismos animais. Tudo está inter-vinculado na criação e repete os mesmos princípios. 

O corpo animal, em seus equilíbrios e intercâmbios entre centro e periferia, cérebro e órgãos, na distribuição e especialização entre funções centrais e periféricas, dá-vos o exemplo do princípio realizado das unidades coletivas, que se encaminha a fixar-se na sociedade humana.
 

Em minha concepção, os fenômenos sociais aparecem despidos de todas as incrustações exteriores, nus em sua substância, como um feixe de forças em ação. São regidos por uma lei exata e profunda; são a fisionomia externa de um conceito que se desenvolve com uma lógica própria, que os diagramas estatísticos, em seu andamento, exprimem, permitindo-vos, desse modo, a previsão de seu desenvolvimento futuro. Doutra forma, não poderíeis estabelecer o cálculo das probabilidades. 

Estudamos esses andamentos no desenvolvimento da trajetória típica dos movimentos fenomênicos (cap. 25), observando antes a lei de variação (evolução em função do tempo) em coordenadas ortogonais  




(fig. 1: tempo no eixo horizontal, das abscissas; evolução no eixo vertical, das ordenadas)

depois em diagramas em coordenadas polares (fig. 3) e por interpolação parabólica (fig. 4). 

A linha determinada pela relação entre as ordenadas e as abscissas descreve a lei com expressões de cálculo algébrico, em forma de problema de geometria, com correspondentes equações.
 

O objetivo do método estatístico é justamente chegar, por meio da observação em massa — em que se compensam e desaparecem as acidentalidades individuais — à lei oculta do fenômeno, à indução da relação real constitutiva. 

Por isso, o fundamento do método estatístico reside na lei dos grandes números, porque a aproximação do princípio ou causa constante, não cresce em razão direta, mas em proporção à raiz quadrada do número de observações.
 

Com essa relação chega-se, assim, à expressão da efetiva constituição do fenômeno. Operando com grandes números, desaparecem as diferenças unitárias e aparece uma fisionomia diversa, uma ordem nova, coletiva, que exprime um conceito da lei. 

A expressão estatística atenderá à causa, será fixa e constante, se esta for constante; será dada pela regularidade nas variações, se a causa for, mais frequentemente, um conceito de evolução. Isto vai da estequiogênese aos fenômenos sociais. 

Tudo é ordem. Todo fenômeno é expressão da Lei. Ao pesquisar as causas, guiados pelo princípio de causalidade, vos aproximais do pensamento de Deus, para aí descobrir sempre uma lógica exata. 

Se muitos fenômenos sociais vos parecem atípicos é porque a causa, complexa demais, vos escapa; no cálculo participam interferências de inumeráveis fenômenos, todos interdependentes. Mas, dominadas as causas e compreendida a lei do fenômeno, é possível, em qualquer campo, estabelecer a priori seu futuro, por meio de progressões exatas. Então, o futuro não é mais um mistério.
 

A relação de causalidade impõe, na evolução dos fenômenos sociais, um determinismo histórico inviolável. Há um destino do povo, como há um destino do indivíduo; há um cálculo exato de responsabilidades em que se equilibra a liberdade coletiva, como vimos que se equilibra a liberdade individual. 

A ignorância do materialismo pode não ter visto nada disso, mas nem por isso a lei deixa de estar presente. Insisto nas bases científicas do fenômeno histórico, que só pode ser compreendido como um momento na fenomenologia universal, com as mesmas leis de relação e de cálculo de equilíbrios, que regem o mundo físico e o dinâmico. 

Há uma continuidade psicológica no desenvolvimento dos fenômenos sociais, uma concatenação férrea de causalidades, mesmo que os atores colocados no palco, homens e povos, nem sempre o compreendam. 

A Lei age por meio do instrumento humano, movendo o mecanismo dos instintos individuais e coletivos, levando de roldão os que se rebelam, impondo por toda parte, em cada movimento, seu imperativo categórico. Essas forças interiores e profundas sobem e explodem acima da consciência dos povos. 

Elas fazem a história. Por isso, não é preciso compreendê-las. A compreensão é posterior aos acontecimentos, a consciência é o resultado da história. Além dos estrondos externos dos choques desordenados, no âmago está sempre a ordem.
 

Este princípio guia os impulsos desordenados dos instintos individuais e coordena-os para um objetivo único.
 

Doutro modo, uma mixórdia de forças só produziria o caos e, no entanto, a história segue uma linha exata de progressos e regressos, de maturações e revoluções, de ciclos criativos e destrutivos. Se cai, é para levantar-se; se destrói, é para reconstruir mais alto. Cada momento histórico é um movimento coordenado para um fim. 

Concebei a história não como uma sucessão de acontecimentos exteriores, sem nexo, mas acima de tudo nas causas e nas finalidades, como um amadurecimento biológico, uma realização progressiva de metas, um funcionamento orgânico. A história mostra-vos a técnica evolutiva do psiquismo coletivo. Olhai, para além dos fatos, o fio sutil da lei que o rege e une. 

Há o ciclo do nascimento e da morte das civilizações. Nas revoluções há um ritmo de desenvolvimento na ordem como na desordem, pelo qual, a qualquer potência social, numa curva do caminho, a lei diz:  

basta! 




Todos os desequilíbrios se recompõem num equilíbrio mais amplo, no qual se completam, para a grande onda progressiva do bem. Não compreendereis a história se não observardes, por trás dela, a Lei:  

a Lei, a única que verdadeiramente comanda, que impõe seus ciclos de maturação e esgotamento, impondo o ciclo dos renascimentos às civilizações como aos indivíduos.
 

O destino confia uma função ora a uma célula social, ora a outra, e a recolhe tão logo se esgote. 

Na tempestade das revoluções, como no trabalho de ordem, o homem é sempre uma força, é substancialmente um espírito nu que executa sua missão. Assim, muda totalmente o conceito de governantes e governados, reconduzindo tudo ao que afirmamos para um indivíduo, de vida-missão. 

É a história que utiliza os homens para seus fins, quando os coloca em evidência, e não os homens que a conquistam para si e se impõem a ela. A idéia de conquista e vantagem pode ser um mecanismo necessário para movimentar as mentalidades inferiores. 

A massa contém sempre uma reserva de grandes homens para todas as suas necessidades e chama ora um, ora outro, de acordo com sua especialização, para que sua personalidade renda o máximo. Logo que surge a necessidade, imprime eficiência aos valores de suas reservas. 

O conceito medieval de poder hereditário é substituído hoje pelo conceito de poder conquistado por seleção biológica, expressão de um substancial poder individual de governo. 

A direção suprema estará aberta a quem quer que saiba superar a prova de fogo, garantia única de valor intrínseco. Superá-la para conseguir, e superá-la diariamente para manter-se.
 

Além de todos os amontoados de leis, a substância e a garantia máxima residem nas forças biológicas, que não garantem o homem, mas a função; derrubam-no logo que ele não mais lhe corresponda. Ao conceito de direção-poder e prerrogativa, substitui-se o conceito de direção-trabalho e função. 

Assim, a história chama sempre seus homens, superando as construções legais, desperta-os, levanta-os e os utiliza; rejeita-os sem saudosismo, logo que cesse a função, ou então, logo que caiam no abuso ou na fraqueza. 

A prova é grande, o risco é tremendo, só quem tem raça vence e sobrevive. Só quem possui uma substância de valores intrínsecos sabe distinguir-se e valorizar-se, sabe compreender e comprimir as forças que o rodeiam, ao invés de ser arrastados por elas.
 

Em meu sistema, o comando supremo é apenas o trabalho da função suprema; a capacidade psíquica e volitiva, a responsabilidade, o perigo e o peso máximos. Em meu conceito, a posição de mando só é tal enquanto é posição de dever, posição de obediência aos princípios dirigentes da Lei. 

As hierarquias humanas são meramente pequena zona, que se prolonga além da Terra, além dos limites mínimos e máximos humanos. Toda posição é relativa e existe sempre uma superior, embora esteja no imponderável das forças da vida, que premia e pune a quem deve prestar contas das próprias obras. 




O comando supremo é simplesmente a suprema obediência, cuja alegria só é confiada a quem subiu tanto espiritualmente, que compreende e sabe executar a ordem divina. É função e missão, como o são todas, mesmo as mais humildes atividades sociais.
 

Esta é a base biológica da atribuição dos poderes, o alicerce único que garante a correspondência do valor à posição e a seu rendimento, base que se mantém maleável (adaptação) aos fins da evolução e, no entanto, resistente, mas sem cair na rigidez. Mesmo no campo político, o fator moral tem que ser preponderante, como em todos os campos.
 

Esses equilíbrios e proporções, entre valor e posição social, fazem parte integrante de minha ética científica exata. Nesta não há escapatória da posição de responsabilidade e de dever, a não ser na posição de obediência, porque tudo tem de ser balanceado. Quem depende tem de carregar o peso da obediência; quem dirige tem de carregar o peso do mando. 

Em minha ética nenhuma posição pode ser de vantagem, mas, em proporção às forças individuais, trata-se de esforço igual, no mesmo caminho evolutivo. Também no campo político tudo é divisão de trabalho e estreita cooperação. Não só o colaboracionismo econômico, mas também social, no seu sentido mais amplo.
 

Quem assume, em qualquer campo e nível, uma função dirigente, sem a correspondente capacidade e responsabilidade, frauda a lei e se expõe à sua reação, que armará contra ele os acontecimentos humanos. Assim Luís XV mereceu, para a monarquia francesa, a revolução. 

Luís XVI era um justo, mas nenhum exército nem habilidade política podia salvá-lo. Estava sozinho contra um destino de classe, sozinho entre forças que se lhe acumularam contra, durante um século. 

Nenhuma construção social pode resistir, por mais que seja baseada na legalidade, quando não estiver dirigida por um princípio mais alto, por um impulso da lei: ao contrário, é agredida por suas reações. 

Assim nasce Napoleão, mero instrumento da guerra difundidora das novas ideias, e é jogado fora como um trapo, logo que esgota sua função, justamente como o último rei da França, de quem rira. 

Assim a Lei domina soberana os acontecimentos humanos. Eis a história: um entrelaçamento de causas e forças em movimento, reação que estabelece o equilíbrio:  

Danton, sufocado pelo sangue do Terror, Robespierre, pelo sangue de Danton; a revolução que devora seus filhos.



02/10/2015



95. 

A EVOLUÇÃO DA LUTA

 






Mostrei-vos, também no campo econômico, o caminho das ascensões humanas. 










Se uma máquina econômica que funciona em torno de um fulcro hedonístico é vossa lei atual, ela aí está para demonstrar qual é o atual nível humano:  

a luta para a conquista dos bens em quantidades limitadas, inferiores à necessidade; luta sempre em todos os campos, esforço necessário para evoluir, condição de conquistas e superações, construção de mais perfeitas estruturas econômicas. 

Também aqui, a luta tende para psiquismos mais evidentes e, embora possa parecer torturante e tormentosa, se existe, é justa, como tudo o que existe. Ela exprime o homem: 

é o máximo de justiça que este pode hoje realizar.
 
Porém ela vos impele para a frente. Se em cada nova alegria, o hábito tende a extinguir a velha alegria, é automática a demolição de toda conquista de felicidade, pois tudo se reduz à criação de novas necessidades. 

Mas a alma é uma mina de desejos e, se em sua insaciabilidade, a alegria constitui sempre uma miragem, a progressão das miragens constrói a estrada do progresso e constitui o impulso que vos faz progredir. Reduz-se tudo não a uma ilusão perpétua, mas a uma contínua expansão e realização de desejos. 



Mesmo permanecendo sempre idêntico, o esforço transforma-se em exaltação contínua de trabalho de conquista.
Eis o mecanismo secreto da Lei: 

o psiquismo animador das formas, sede da concentração dinâmico-cinética da substância no nível a, exprimindo no instinto fundamental da vida — insaciabilidade de desejos — o irresistível impulso à descentralização. 

O desejo que nasce dos íntimos movimentos da alma, cria a função, a função cria o órgão, o qual, por sua vez, consolida a função. Tudo no universo clama a paixão de exprimir seu poder interior, a paixão do Eu, que luta para sair à luz e revelar-se. 

É o esforço cotidiano da evolução que fixa nos órgãos a expansão de um desejo tenaz e vitorioso, órgãos que refletem o psiquismo motor. Este, uma vez estabilizados seus meios, deles se serve para exprimir-se cada vez ainda mais longe, aperfeiçoando-os e multiplicando-os. 

Esse impulso está sempre motivando o órgão, indomável necessidade da alma, sob forma de desejo, que jamais se deterá com a evolução, porque esta não tem limites.
 
No campo psíquico do homem, os órgãos são as aptidões e o princípio é idêntico. Sempre diante de vós está um trecho descoberto da evolução que vos aguarda, vos atrai e para o qual vos precipitais para que absorva vosso eterno instinto de subir, e vos eleve a maiores alturas. Qualquer forma de luta cai, logo que se esgota sua função criadora, para ceder lugar a outra luta destinada a criações mais elevadas. 



Estais presos num mecanismo sem fim, estais lançados num jogo de forças, mediante as quais, de ilusão em ilusão, ascendeis substancialmente. Só isso importa. A cada satisfação alcançada, parece ilusão o passado conquistado. 

O sonho reside eternamente no amanhã, até que se transforme em saciedade, e novo sonho perenemente ressurja. Assim desloca-se, continuamente, vossa posição na linha do progresso.
 
Pode parecer-vos uma condenação essa zona de esforço, que eternamente ressurge diante de vós, mas essa é a base das criações na eternidade; essa constância de trabalho sempre na expectativa é a única que pode garantir-vos, num regime de equilíbrio, a constância de expansão e de progresso esperados. 

O ciclo criativo tem, portanto, suas fases de descida e de repouso (cfr. a trajetória dos movimentos fenomênicos). O esforço só subsiste na zona de consciência, porque o que foi assimilado torna-se instinto e necessidade. 

Esse esforço expande-se cada vez mais distante e abarca uma riqueza própria, cada vez maior. Tendes um resultado substancial que se progride em sutileza, em poder, em concepção. A luta cria e sem luta não se pode construir. 


É a evolução que avança e com ela o seu esforço. A insaciabilidade do desejo fala-vos da verdade destes conceitos. A satisfação é sempre proporcional ao trabalho realizado, depois, aniquila-se na saciedade e no tédio, nos quais a alma se asfixia, até que reaja para emergir de novo na ação. 

Não podeis parar. A insatisfação do instinto fundamental, entre todos e pai de todos os outros, é o de evoluir, o que obriga a mover-vos ao encontro de sempre novas e mais altas alegrias.
 
Como a dor, a força, o egoísmo, e todos os aspectos do mal se anulam a si mesmos com o exercício, assim lutais não para vencer e satisfazer-vos de imediato, mas para eliminar a luta mais baixa e elevá-la a formas mais altas; esforçai-vos por superar o esforço mais pesado, para atividades mais produtivas, porque o poder de conquista, por unidade de trabalho, é progressivo. 

Eis a única direção, na qual vosso esforço não se neutraliza entre impulsos contrários, mas ao contrário, cria constantemente. Reduzo ao estado de miragem, necessária ao progresso, todas as vossas concepções sociais que hoje são metas a atingir, amanhã passado superado. 

Que coisa mais, senão um jogo de espelhos, pode induzir a inconsciência humana, ignara de seus altos objetivos, a avançar no caminho da evolução? 

A realidade profunda vos escapa e vos moveis como átomos, movidos pela Lei que age sobre vós, por meio dos instintos que acreditais serem vossos, mas que são apenas o seu comando. 



Hoje ainda não constituís uma sociedade, sois apenas um rebanho, sois um desencadeamento de forças psíquicas primordiais, que explodem confusamente, mas a explosão é guiada e deve canalizar-se para o progresso. A lei não vos pede para ser compreendida, mas impõe que seja obedecida.
 
Os choques de indivíduos e de povos são feitos para que se conheçam e se combinem em unidades mais amplas e compactas. A luta é feroz porque sois selvagens, somente quando o homem não for mais assim, a luta, também, não será feroz. 

O progresso justifica, na ordem da Lei, a desordem e o mal presentes, vossa luta e seu esforço. Riscai do universo as palavras injusto e inútil. Dizei que tudo é proporcional aos valores dos seres. 

Se a luta outrora foi física, hoje é econômica e nervosa; amanhã será espiritual e ideal, muito mais digna de ser combatida. É a luta que hoje realizo, por antecipação, a fim de elevar o homem até a lei social do Evangelho. Não acrediteis que a luta possa ser suprimida. 

Quem providenciaria, doutro modo, o objetivo da seleção, o não abastardamento do homem? 

Mas a luta transforma-se e vedes como eu também luto, como o faço denodadamente, embora em campo tão diferente, acima de qualquer forma humana de agressividade. 

Trabalhai e sofrei para atingir essa meta ainda tão distante, para formar o homem digno de compreendê-la e capaz de vivê-la. 

Trabalhai e sofrei também vós, hoje, no campo social, econômico, político, artístico e científico.


30/09/2015

94. 

DA FASE HEDONÍSTICA 

À FASE COLABORACIONISTA

 


Como vedes, enfrento todos os problemas econômicos, subindo até suas fontes, que estão na alma humana. A solução é radical, substancial, e, acima de tudo, muito simples. 




Mesmo no campo econômico olhamos nas profundezas, atingindo a substância além da forma. Substituí a premissa hedonística pela premissa colaboracionista, elevando o mínimo ético das ciências econômicas, dando-lhes um conteúdo moral. 









Elevei, pois, o fenômeno econômico a um nível imensamente mais alto; mostrei-vos, sobretudo, sua evolução e sua forma futura. Indiquei-vos o caminho para ultrapassar a velha economia hedonística, lancei as bases de nova economia colaboracionista, a partir de teoremas apresentados de maneira totalmente diversa, que deveis desenvolver. 

Enquanto a base hedonística mergulha suas raízes na involução subumana, a fase colaboracionista é decidida aproximação da perfeição evangélica. 

Não podíamos deixar de encontrar — como o percebemos em todos os campos — também no econômico, as duas leis consecutivas, entre as quais oscila a maturação biológica humana. Duas leis sucessivas que, em qualquer campo, provam a evolução:  

evolução no trabalho, na renúncia, na dor, no amor; da força ao direito, do egoísmo ao altruísmo, da guerra à paz, da concorrência ao colaboracionismo, da fera ao homem e ao super-homem, da desordem à ordem e à justiça do Evangelho, do mal ao bem.
 

Vossa super-cultura torna o fenômeno econômico um problema complexo, acessível apenas aos técnicos que nada resolvem; as crises se sucedem, verdadeiros furacões econômicos que varrem tudo à sua passagem. Falo-vos simplesmente da lei, da ordem universal, de uma ordem ética com a qual é mister harmonizar esta ordem econômica menor. 




Sabeis avaliá-lo com exatidão matemática e esta vos revela toda a fisionomia do fenômeno, a face interior de seu ser e de seu devenir. Mas isto permanece isolado e, em sua sensibilidade, sofre repercussões provenientes de impulsos morais e psicológicos que vos escapam. 

Reconduzo tudo a uma atitude de espírito e chego às raízes que se encontram no campo das motivações. Mas, que pretendeis conseguir no mundo econômico, se em sua base reside um princípio de destruição:  

o egoísmo? 

Se todas as ações estão permeadas de um egoísmo que as acompanha como mal de origem, minando nos alicerces todo o edifício econômico? 

Experimentam-se todos os sistemas mais complexos, tenta-se mudar tudo, mas o egoísmo humano fica intacto, com ele fica intacta a substância das coisas. Não é possível construir com semelhantes materiais. 

Enquanto o homem for o que é, incapaz de passar da fase hedonística para a fase colaboracionista, será inútil excogit
ar sistemas distributivos. É indispensável formar o homem, antes dos programas sociais e estes construir apenas para formar o homem. É preciso transformar o problema econômico em problema ético.
 

Se o do ut des é uma necessidade psicológica do mundo humano, se a necessidade é o único meio para obter trabalho de um indivíduo, se a inconsciência ignora a função social da atividade econômica, se a grande máquina só pode mover-se por meio da mola hedonística, então contentai-vos com os resultados que obtiverdes e que esse sistema puder proporcionar. 

Podeis dizer que são inúteis minhas palavras, eu vos digo que não é inútil vosso sofrimento porque, tornando-se mais sensível vossa psicologia, ela um dia compreenderá a enorme vantagem de libertar-se desse contínuo esforço coletivo de recíprocas demolições e reagirá, refreando o egoísmo até superá-lo, transmutando-o em fraterna colaboração. Contentai-vos, hoje, com a realização da máxima justiça, permitida pelo sistema, com o equilíbrio entre o dar e o receber, de equilibrar a balança do egoísmo. 

Mas é fato que só pode produzir trabalhos de ordem inferior e o sistema não se sustenta, depois de elevar-se a serviços cuja função coletiva seja substancial. O mínimo ético do mundo econômico é demasiado baixo para se sustentar.
 

Existem na sociedade humana funções supereconômicas que, de fato, se inserem no campo econômico hedonístico e, como tais, são substancialmente compreendidas, embora seu conteúdo moral devesse ser preponderante.
 

Imaginai que degradação sofre o princípio da função social, quando reduzido nas estreitas limitações de função hedonística. 

Há funções econômicas de conteúdo moral, verdadeiras funções sociais, que sofrem constante processo de degradação, porque limitadas apenas à lei da oferta e da procura. É indispensável que essas formas de atividade sejam atribuídas ao Estado, o único organismo ético que tem a tarefa de elevá-las ao estado de função, impondo-vos o fator moral.
 

Falo-vos do problema da distribuição da riqueza como de um problema de destinos; reduzo as tentativas violentas de nivelamento econômico a uma mentira do pobre, que desejaria usurpar a posição do rico e a ele digo:  

se a riqueza pode ter sido um furto, esta não é a razão para roubá-la de novo. 


Robin Hood  por Russell Crowe - Universal Pictures.


Resolvo o problema não dando razão ao pobre que agride, mas dizendo ao rico: 

ai de ti, se não cumprires o primordial dever de levar em conta o interesse de todos no usufruto dos bens que te foram concedidos; ai de ti, se não souberes descer até o pobre, e dar-lhe o que sobra. 

Ai de quem hoje goza, porque certamente não lucrará na eternidade. 

“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico salvar-se”. 


Laurel e Hardy: ladrão que rouba ladrão ...


Isto, porque o equilíbrio não é alcançado mediante usurpações recíprocas, mas pela compreensão das mútuas necessidades. O progresso reside na concórdia e na cooperação; ai de quem se torna instrumento de involução. 

A riqueza é uma corrente que tem de circular, passando por todas as mãos, para o bem de todos. Que a beneficência seja uma doação de alma que eleva, um ato de bondade que irmana os espíritos, mas não uma exibição que cava abismos de ódio; seja também uma doação moral que se enriqueça de bens eternos.
 

Mostrando-vos a essência da Lei, destruí a ideia pueril de que a riqueza tenha de ser seguramente felicidade.
 

Como se a posse de bens pudesse mudar o destino humano! Como se a igualdade das riquezas pudesse gerar igualdade de destinos! Como se a justiça divina pudesse ser corrigida por sistemas distributivos! Com efeito, eles só levam a ilusões e a novos furtos. 

Mas a felicidade é um equilíbrio interior de forças eternas, ao passo que a riqueza é uma superposição externa e momentânea, não uma qualidade de alma; ela não consegue absolutamente fechar as portas à dor. Demonstro-vos que a riqueza não é, como vos parece, um privilégio, mas uma prova e, até por vezes, um castigo; porém, é sempre um dever e uma responsabilidade. 

Habituar-se a satisfazer-se enfraquece a satisfação; a inércia favorece a atrofia e abre as portas ao desmoronamento. Mesmo neste campo, impera a lei do equilíbrio, porque os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros.





93. 

A DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA





Diante destas minhas concepções, vereis que absurdo representam vossas utopias de nivelamentos econômicos. 






A distribuição dos bens na terra não é, como acreditais, efeito das leis, instituições, sistemas, mas é consequência de um fato primordial indestrutível: 

o tipo individual e a linha de seu destino. 




Os equilíbrios da vida são feitos de desigualdades que, em vista das naturezas diversas, correspondem à justiça, mesmo que as posições sejam diferentes. 

É absurdo um nivelamento de unidades substancialmente desiguais. Ainda que imposto à força, a natureza dos indivíduos o destruiria, em pouco tempo. Só existe um comunismo substancial:  



o que une todos os fenômenos, vincula todas as ações, vos irmana a todos e vos arrasta dentro da mesma lei, sem possibilidade de isolamento, na mesma correnteza. 

Comunidade substancial de deveres, de trabalho, de responsabilidades, apesar das inevitáveis diferenças de nível, que exprimem as diferenças de tipos e de valores. Liames férreos que vos encadeiam a todos, igualmente, ainda que por vontade vossa sejam de rivalidades e de ódio, em lugar de serem de bondade e de amor.
 
Os princípios da vida são mais sábios que vossos sistemas mecânicos de nivelamento social; conseguem o equilíbrio por meio da desigualdade, porque não tendem à equiparação num tipo único, mas à diferenciação, para depois reorganizar os que se especializaram em organismos coletivos. 

A diferença de posições sociais é simplesmente divisão de trabalho para capacidades diferentes. Esta é tanto mais acentuada — portanto, as posições são mais divergentes — quanto mais complexo e evoluído for o organismo social. 

Numa coletividade adiantada, cada indivíduo e cada classe permanece tranquilamente em seu lugar, sem coações, tal como as células e os órgãos num corpo animal. Essas irrequietudes são características das sociedades inferiores em formação.
 
Não é lícito ignorar, na construção dos coletivismos humanos, que a natureza não constrói os homens por meio de máquina e que não se podem dividir as falanges humanas por tipos em série. Ao contrário, a natureza cria tipos complementares, reciprocamente necessários. 

As diferenças são feitas para se compreenderem e para se compensarem, unindo-se a fim de se completarem em seus pontos fracos e se combinarem organicamente. Assim, por complementaridade e balanceamento de opostos, por via lógica e utilitária do menor esforço, a Lei guia irresistivelmente à fraternidade humana. O nivelamento poderá forjar um rebanho, jamais uma sociedade. 



O erro fundamental consiste em acreditar que todos os homens são iguais como valor e destino, em não se ter compreendido o mistério de sua personalidade e a finalidade da vida; permanecer no exterior, acreditando que só possa ter justiça na igualdade de superfície, ao passo que a vida alcança uma justiça mais complexa e profunda na desigualdade. 

O princípio da equiparação poderá ser um programa de enriquecimento, por meio da exploração executada pelas classes menos favorecidas e até mesmo, sabendo-se adaptar e moderar, um programa sadio de ascensão econômica. Mas, como princípio, é sempre um absurdo, pois não corresponde à realidade biológica. 

A igualdade, que não seja meramente exterior e forçada, é absurda num universo livre, em que não existem duas formas idênticas. Quando a evolução criou valores absolutamente diferentes e quando são diferentes os caminhos percorridos e os esforços executados, constitui justiça que as posições sociais exprimam exatamente o valor e a natureza do ser.
 
Compreendei a essência da vida e vereis uma realidade mais profunda, onde tudo é sempre justo. Não confundais igualdade com justiça; não acrediteis que a vida queira atender a vossos nivelamentos exteriores, para realizar, na eternidade, seus justos equilíbrios. 

Tudo é justo, compensado, equilibrado há muito tempo. Considerais como melhores as altas posições sociais; vosso espírito de igualdade é muitas vezes inveja que deseja apoderar-se do bem-estar alheio.
 
Mas compreendei que o equilíbrio de uma posição econômica e social é, como na física, tanto mais estável quanto mais baixo estiver, quanto mais próximo estiver do nível mínimo da sociedade em que se situa. É contra os cumes que as tempestades investem. Não invejeis esses grandes perigos de quedas maiores. 

Quanto mais se elevam uma posição social, mais insegura e vulnerável ela se torna, é difícil defendê-la; tende a cair mais facilmente e exige a presença de um valor intrínseco que a sustente com esforço contínuo.
 
Observai como a Lei, na sua tendência de reconduzir para o centro as posições extremas, já possui o princípio do nivelamento econômico. Trata-se da lei automática de nivelamento de todas as aristocracias, fato evidente na história.
 
sempre, mesmo no mundo econômico e social, no âmago, age uma lei que, além das aparências, dirige o equilíbrio dos fenômenos. Há sempre uma justiça substancial da qual não se escapa:  

individual, exata, inviolável, automática, alcançada não se sobrepondo à natureza das coisas, grandes capas de legalidade, mas com um equilíbrio espontâneo da Lei. 



Para além da injustiça de forma, há sempre uma justiça de substância na distribuição de alegrias humanas e nenhuma lei poderá determiná-la, senão a lei do próprio destino.
 
Não invejeis os ricos, porque essa riqueza pode ser uma prova, uma condenação, uma condição de ruína.
 
Observai como, por uma lei psicológica, tudo o que foi ganho sem esforço, por isso mesmo é destinado à dispersão; não é apreciado, não é defendido, como o é aquilo que custou esforço. A hereditariedade da riqueza é uma fábrica de ineptos.
 
É, na verdade, um processo de auto-eliminação. Tudo o que é herdado, mesmo se protegido pelas leis, tende automaticamente à dissolução, decadência da riqueza que nenhuma barreira social ou legal jamais pôde impedir. 

Só as leis da vida estão sempre ativas e são constantes, embora trabalhando subterraneamente e em silêncio. Por isso, quebram qualquer defesa social que seja peso morto, superposição inerte, não movidos por impulso íntimo que faz viver e agir, em todos os instantes, para fins determinados. 

Enquanto isso, em derredor se debruçam outros esfaimados, muito mais bem treinados para o trabalho, sem as ilusões sobre a adulação que a riqueza atrai, não paralisados pela educação mais refinada, que o desejo jamais saciado tornou astutos e ativos, impulsionados com todas as forças, pela necessidade, a conquista e, portanto, destinados a vencer na luta desigual.
 
Por isso, substituo o vosso conceito de propriedade, meramente jurídico e de superfície, pelo conceito mais profundo de propriedade substancial. Esta é a única que se fundamenta como direito no próprio destino. Se vos colocais na realidade dos fenômenos, que é sempre um devenir, vereis que não é possível possuir as coisas em sentido estático, mas apenas na trajetória de seu transformismo. 

Elas, como vós mesmos, constituem um devenir e esse contato duradouro, que se denomina posse, só é possível pela ação de uma força constante que mantenha vinculados os dois transformismos.

 


Nesse oceano de dinamismos, a propriedade é, no máximo, um usufruto, que a morte ou qualquer reviravolta pode sempre quebrar. Por isso, não é possível propriedade nem posse em sentido jurídico, mediante construção de defesas e barreiras legais, mas só se pode possuir a causa desse mecanismo de efeitos, isto é, o poder do domínio sobre as coisas.
 
Este não é dado pelos reconhecimentos jurídicos exteriores, mas pela aquisição de qualidades, de merecimentos, de direitos inerentes à própria personalidade. Além de vossas formas sociais, o que as justifica e sobretudo as mantém vivas, é a ação constante desse impulso dado por uma capacidade intrínseca, preparada e fixada no destino, única base do direito. 

Com efeito, no justo equilíbrio da Lei, logo que cessa o impulso dessa causa, cessa o direito, rui o edifício dos efeitos e, apesar de todas as defesas, pulveriza-se a construção jurídica. 

Essa propriedade substancial é a única que corresponde a uma característica da personalidade, e está escrita no destino, como impulso enxertado no equilíbrio de suas forças. Só ela poderá resistir e manter-se, enquanto esse impulso resiste e se mantém.
 
O princípio hedonístico vos enclausura num estado de miopia psíquica, que vos faz acreditar em absurdos e na possibilidade de conseguir riquezas por atalhos que excluem o esforço do trabalho. Ora, olhando de frente as mais profundas leis do mundo econômico, encontrareis um princípio de equilíbrio que impõe uma relação férrea entre esforço e prazer. 

Assim, apesar de todas as tentativas de fraudar a lei, a verdadeira alegria só é prêmio do trabalho honesto. A riqueza traz consigo, como uma natureza própria, uma marca indelével das características com que foi gerada e querida.
 
Estas a acompanharão sempre como um impulso, uma trajetória, uma direção exata, que a sustentará e guiará em todo os passos como um ser vivo. Também ela é um feixe de impulsos causais que contêm seus efeitos inexoráveis, os quais, cedo ou tarde se manifestarão em atos. Se a riqueza nasceu errada, traz sofrimentos; se nasceu bem, traz o bem.
 
Acreditais que a riqueza seja uma qualidade homogênea, igual em toda parte. Mister completar esse conceito econômico com outros fatores que sempre estão nele incluídos. Ela é uma força em movimento, que se manifestará na forma em que tenha sido definida no momento de sua gênese. Há diferença entre riqueza e riqueza. 

O lucro errado não trará vantagens, mas prejuízos. Há dinheiro que não pode dar prazer. Possuí-lo não é lucro, mas perda; não é riqueza, mas pobreza; foi substancialmente impregnado de qualidades negativas e é uma força de destruição. 



Seu vício de origem não se apaga e o levará à ruína, até que ele mesmo desapareça por esgotamento da causa. Pois o mal é negação, antes de tudo, nega a si mesmo até sua total auto-demolição. Há um dinheiro maldito que só traz maldição a quem o possui:  

o dinheiro que Judas pagou o campo de sangue.
 
Esses meus pontos de vista interiores aclaram diferentemente todo o fenômeno econômico. 

Mostrando-vos realidades mais profundas, relegam ao absurdo vossos conceitos mais comuns neste campo, que aceitais por ignorardes as leis substanciais da vida. Assim, em vossa época tendes a ingenuidade de crer supérfluo atentar tanto para as sutilezas do modo de acumular riqueza, credes que qualquer meio vale. 

Dessa maneira, levianamente, semeiam-se germes de destruição bem no centro dos próprios capitais. Falo nos termos de uma moral científica, exata, utilitária e, portanto, necessária também ao ladrão. Este é tão ingênuo e pensa que o furto possa trazer utilidade. 

Ora, é pueril o esforço de fraudar a pobre lei humana, desde que não é possível alterar a íntima lei dos fenômenos que, misteriosa e poderosamente, vigia e ressurge inata neles a qualquer momento. Pelos atalhos da usurpação só se chega ao resultado da reação.

 


Alegrem-se os sedentos de justiça que sofrem diante das injustiças humanas, há um equilíbrio profundo de que o mau tentará inutilmente escapar, embora triunfe momentaneamente. 

Mas tremei vós, a quem a injustiça de um instante deu razão, porque chorareis um dia, esmagados pelas consequências de vossas ações, que nenhum tempo poderá destruir e vos acompanharão por toda parte. Mesmo se não o sentis, o imponderável vos alcançará para golpear-vos. O dinheiro mal ganho é um prego envenenado que se cravará em vossas mãos. 

Nada rende tanto quanto a exploração do sangue humano, o mundo está cheio do dinheiro de Judas, gordo de traições, verdadeiro esterco do diabo, que vos sufocará, fazendo a Terra afundar sob vossos pés. 

É contra esse dinheiro que se levanta a maldição de Deus, não contra o dinheiro que é justa recompensa do trabalho.