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27/10/2015


I


COMO FALA A VIDA

 


Escutemos a história de um homem que ouvia vozes de todos os seres e com eles conversava.
 

Um dia, o vento enfurecia. E esse homem lhe falou:  

"Cala-te, não vês que danificas a vida? 

Arrancas as árvores, matas os animais, ameaças as pessoas. modera a tua corrida! 

Ninguém te impede de andar e, com um pouco de calma, chegarás da mesma forma ao teu objetivo, sem causar danos. 


Na Terra, não existis somente tu e os demais elementos. Há, também, a vida das plantas, dos animais, dos homens. Há lugar para todos, tanto para ti como para eles, porque todos devem viver”.
 

Ah! O vento não podia ouvir a voz nem compreender os conceitos, não sabia responder. Entretanto, o vento não é coisa morta. É energia, movimento, tem um corpo físico, embora gasoso, é vida. 

Há, na profundeza de todas as coisas, um oculto pensamento que elas ignoram e que lhes guia a existência, até nas formas mais simples das combinações químicas e movimentos atômicos. 

À medida que o ser sobe na escala da evolução, vai tomando pouco a pouco consciência desse pensamento. Àquele homem sabia ouvir interiormente a voz desse pensamento, que, através do vento, como se ele falasse, lhe respondeu:
 

- É fatal que eu assim aja, porque fui feito assim e porque fatal é a força que me impele e arrasta. Sou a expressão que veste essa força e outra coisa não faço, senão exprimi-la porque ela é todo o meu eu. 

Quando ela quer e diminui o impulso, também eu paro, tornando-me carinhosa aragem para as plantas, os animais, os homens, para tudo o que chamas vida e que desconheço. Sou surdo e cego no plano em que falas. Não sei o que seja sentir. 

Para mim somente o movimento é vida. Quando me falas das experiências desses seres, não sei o que estás dizendo. Não compreendo o mal que tu lamentas que eu faça, como seja arrancar e matar.
 

O homem replicou:
 

- "Mas, por que não compreender?"
 

E a voz da vida respondeu:
 

- "O fato de não compreender é alguma coisa de que tens conhecimento para que fales dela, mas de que eu não tenho, pelo menos para as coisas que dizes. Só conheço o que diz respeito à minha existência; somente a ela e não às outras. 

E como aparentas compreender mais que eu, não entendes que não posso conhecer mais que a mim mesmo? Também tu, conquanto mais adiantado do que eu, não podes conhecer mais do que a ti mesmo.
 

"Vê bem: só tenho uma alma elementar, mecânica, sem direito de escolha, sem responsabilidade e sem outras coisas a que dás nomes que ignoro. Sou apenas um cálculo de forças uma fórmula dinâmica, uma férrea concatenação de causa e efeito, como dirias. 

Cabe a ti, que tens o que não tenho - a inteligência - como a denominas, estudar a minha realidade, que podes penetrar em sua estrutura e significado, coisas minhas que certamente existem e das quais eu nada sei, mas a que obedeço naturalmente. Ignoro quem o saiba por mim. 


Apenas obedeço. À ti cabe estudar e compreender-me, porque te sou inferior, não me cabendo penetrar-te, porque me és superior. 

E para evitar o que chamas de males, ignoro o que dizes que eu faço, para salvar deles os seres de que me falas, compete a ti e a eles, que me sois superiores, aprenderdes a defender-vos, não só porque sabeis mais que eu, senão também porque interessa à vossa existência e não à minha usar os meios necessários de cautela. Cada um deve aprendei a sua lição, vivendo. 

Eu, a minha; vós, a vossa. E já que tendes a disposição mais recursos do que eu, deveis aprender coisas mais complexas e difíceis. 

Pareço estar na ociosidade? Se me agito sempre, é porque também tenho o meu trabalho a fazer e as forças, que são a minha alma, devem resolver problemas e aprender soluções, transformações e equilíbrios que ignorais e que têm a sua função na harmonia do Todo em que estais e de que tenho necessidade. 

Tenho a minha função, que cumpro, na ordem das coisas. Não me podeis pedir mais”.
 

Em seguida, o vento retomou a sua corrida, que era a sua expressão de vida, e, sibilando, se elevou aos espaços.
 

O homem voltou-se então para uma planta que, cheia de folhas e de espinhos, havia invadido todo o espaço livre ao sol, sufocando as plantas vizinhas, e lhe disse:
 

"Por que és assim egoísta e malvada, prejudicando os teus semelhantes vizinhos, para que tu sozinha possas viver?" "Malvada, egoísta?" - respondeu a planta e continuou:
 

Que significam estas palavras? 

E natural que eu cuide apenas da minha vida, da mesma forma que os outros só cuidam da sua. 

Não tenho que viver? 

Possuo o mesmo direito que os outros. Por que deveria preocupar-me com eles, se não se preocupam comigo? 

Por que evitar sufocá-los, se eles estão sempre prontos a fazer isso contra mim, em seu proveito? 

Se possuo os meus acúleos, é porque por mim mesma aprendi a formá-los, a fim de que os animais não me comam e mãos como as tuas não me arranquem da terra. 

Como poderia agir de outra forma para defender-me e para fazer-vos compreender o meu direito de viver, senão através do vosso dano, único ao qual sois sensível? Se quiser viver, esta defesa é necessária. 

Por minha conta tive de aprender que não me resta outro modo de viver. Tudo isto foi o que a vida, com a sua dura escola, me constrange a aprender e tu sabes que todo ser deve aprender a sua lição.
 

O homem acrescentou: "Mas, por que não procuras compreender, além da tua vida, também a vida dos teus semelhantes, para que haja lugar para todos e todos possam viver?"
 

E a voz da vida, respondeu: "Mas, compreenderão porventura, os outros a minha? Somos inimigos, rivais. O lugar ao sol existe para os vencedores. A vida certamente se defende, mas através do meu trabalho, pois devo aprender a vencer por mim mesma. Essa é a lição que a vida me impõe. 

Não existem em meu mundo o que chamas piedade e bondade. Há somente a férrea justiça do mais forte. Este é o melhor entre os de seu nível, sendo justo que ele vença. Se me transportares para um ambiente protegido, então eu me domesticarei e perderei os espinhos. 

Mas, assim civilizada, eu me enfraqueço e, se me abandonares, morrerei. Desta forma, vês que a minha rudeza é necessária e obrigatória, pelo menos enquanto eu estiver entregue a mim mesma. 

Cabe a ti, que te encontras em nível superior e possuís meios para melhor compreensão, e não a mim, fazer com que existam no mundo piedade e bondade. Executo honestamente a minha parte de trabalho no organismo universal, produzindo a síntese química da vida do mundo inorgânico. 

O resto exorbita ao meu labor. Cumpro assim a minha função na ordem das coisas, evidentemente no meu nível. 

Não me podes pedir mais. O homem se voltou, então, para um animal que avidamente espreitava a presa, dizendo-lhe:
 

- “Por que este assalto contínuo? Vós, animais, sois superiores às plantas, tendes liberdade para correr e voar, possuís olhos e ouvidos, tato e olfato, muitos sentidos e possibilidades desconhecidas pelas plantas. Por que permaneceis sob a lei feroz desta, que vos é tão inferior?"
 

E a voz da vida replicou:
 

- "Se nós somos superiores à planta, e mais coisas podemos perceber, não temos, porém, liberdade para agir. 

A nossa vida acumula experiências sensórias, mas não temos, como tens, as que chamas de experiências morais e espirituais. Não somos livres para escolher, devendo seguir fatalmente a lei que nos impele sempre nesse caminho, fazendo-nos agir assim. 

Nós nos alimentamos, procriamos, vivemos quase mecanicamente, como quer uma lei que desconhecemos. Esta é toda a nossa vida e outra não conhecemos. Que pretendes acrescentar? 

Esta é a nossa experimentação, é a lição que devemos aprender. Dessa forma, tudo vai bem para nós. Estando em plano mais elevado, podes viver assim. Se nos levares para vivermos contigo, poderás modificar-nos, domesticando-nos. 

Todavia, permanecerás sempre distante, porque não podemos seguir-te". Em seguida, o animal fugiu em perseguição da presa, seguindo cegamente o seu instinto. O homem voltou-se, então, para um seu semelhante e lhe disse:
 

- "Eis finalmente um igual a mim. Resumes todos os seres com que tenho falado até agora. Tens as férreas leis físicas do vento, a sabedoria vegetativa da planta, os sentidos e o instinto do animal, além de uma qualidade nova - a tua liberdade de escolha, o mundo moral com as suas consequências. Tu, que dispões de tudo, por que não és perfeito, por que caís em culpa?"
 

O homem respondeu - "Caio, porque não sou perfeito. Se peco, é exatamente porque possuo uma qualidade nova. Sou livre, tenho responsabilidade e o direito de escolher".
 

O animal é mecanicamente sincero na sua ferocidade e não peca, pois que não dispõe de liberdade; não compreende e não pode escolher. A sua visão não se eleva acima de sua Lei, simples, quase mecânica. 

Eu a domino porque vejo de mais alto, mas ele está encerrado nela. Menos sujeito a errar, é um autômato movido por uma mais profunda sabedoria, que não é sua, mas que tudo sabe. Devo aprender a manejar uma potência diversa, diretora, o que implica lutas que o animal ignora. 

Devo viver a Lei de Deus, não como cego instrumento constrangido por impulsos íntimos, através dos quais a Lei se faz presente, mas devo vivê-la por livre escolha para assim chegar a compreender a lógica e a bondade dessa Lei e, dessa maneira, tornar-me consciente dela. 

Esta é a minha experimentação e, se cada um tem a sua lição, esta e a lição que devo aprender. A Lei é única para todos, mas é diverso, segundo os planos evolutivos, o conhecimento que o ser atinge dela. 

Os elementos, a planta, os animais, aplicam-na em graus diversos, sem nada saber a seu respeito. Só o homem consegue conhecê-la, para livremente segui-la, depois de ter tomado consciência dela, um instrumento, espontâneo executor, porque compreendeu que só nessa ordem está o seu bem e a felicidade.
 

"A minha vida é dura e difícil, repleta de fadigas e esforços, de abismos que a mecânica do instinto ignora. O animal obedece cegamente, até à brutalidade, às leis da fome e do amor e não pode superá-las. 

O homem, mesmo sentindo-as prepotentes, como as sente o animal, tem pela superior natureza humana, possibilidade que ele não possui, de sobrepor-se-lhes e subjugá-las: pode completar a catarse biológica ignorada pelo animal, do herói, do gênio, do santo, do místico, que o conduz a um plano de vida ainda mais elevado, no qual as conhecidas características da animalidade são subjugadas e, vencidas. 

Se no homem ainda sobrevive a besta, já existe em germe o anjo. O homem sofre e luta justamente para desenvolver em si esse germe e tornar-se anjo. 

Essa é a fase evolutiva que me compete viver. Se, por isso, eu posso criar muito mais do que o animal, porque sou livre também sofrendo posso aprender muito mais do que ele, através de lições que de modo nenhum ele pode conhecer. 

Enquanto a sabedoria do animal consiste em aguçar os sentidos e as possibilidades físicas, e nisto está toda a expressão de sua vida, eu aguço os sentidos, os meios morais e espirituais, cuidando cada vez mais destes últimos. 

Quando o animal tiver conseguido ver e ouvir de mais longe, a farejar com maior delicadeza, para assim vencer com meios cada vez mal perfeitos a luta pela vida, terá assim aprendido completamente a lição. 

Eu terei aprendido a minha somente quando tiver conseguido ver e ouvir com maior bondade e justiça para todos, para vencer a luta pela vida, não destruindo o meu semelhante, mas com ele me coordenando e colaborando na ordem divina".
 

Então o homem que ouvia a voz da vida dirigiu-se a um anjo e lhe disse; "Ó tu bem-aventurado que vives nos céus, distante do inferno terrestre e que progrediste muito mais do que nós, por que não nos ajudas? 

O animal se equilibra em sua ignorância, guiado apenas pelo instinto, parecendo estático. Mas o homem, quanto mais sobe, tanto mais adquire consciência da Lei, para melhor ver que longa estrada ainda tem a palmilhar e quanto está atrasado no caminho para a meta final!".
 

E o anjo explicou; "Eu estou mais avançado do que tu, mas ainda muito distante da perfeição infinita de Deus. E pareço bem-aventurado e o sou de fato relativamente ao que representa a vida na Terra. 

Pareço-te bem-aventurado, despreocupado de fadigas e lutas, mas também nós as temos e grandes, embora elas só visem ao bem. Justamente porque compreendo mais do que tu, meus deveres são maiores do que os teus. 

A fatal transformação em que consiste a existência, para nós mais vizinhos de Deus, se torna uma ascensão rápida. Vivemos mais diretamente atingidos pelos raios divinos do Amor, não podendo viver senão para os outros.
 

Poderemos ser felizes, mas vimos colher na Terra as vossas dores que tornamos nossas  para o vosso bem, só porque assim podemos melhor sentir Deus. A nossa não é uma beatitude ociosa. Esta é a nossa experiência e, se cada qual deve ter a sua lição, esta é a lição que devemos aprender. 

Quanto mais subimos, tanto mais nos tornamos fortes operários, porque nos transformamos em mais poderosos instrumentos de Deus na realização do Seu plano no universo. 

O paraíso seria um inferno se abrigasse alegrias egoístas como as vossas. Sem um trabalho permanente, perderemos as nossas qualidades e volveremos a formas inferiores de vida. Aqui fervilha o trabalho do bem, como embaixo se agita o do mal. Aqui se respira Amor, como embaixo se respira ódio.
 

E nós somos os canais do Amor, que recebemos de Deus, para fazê-lo descer até vós. Ele dirige a grande harmonia da vida, a imensa sinfonia do universo, da qual nós somos as notas mais altas e vos as mais baixas".
 

Então, o homem voltou-se para Deus e Lhe falou: "Senhor, agradeço-te me haveres dado, pelo Teu Amor, o supremo dom de existir. Tu me fizeste um "eu sou", à Tua imagem e semelhança, no seio do Teu infinito "Eu Sou". 

Assim, eu existo em Ti, assim eu canto uma nota na grande orquestra do Teu Universo, sou um operário, embora ínfimo da Tua obra uma célula, ainda que diminuta, do Teu grande organismo".
 

Enquanto assim orava, o homem volvia o olhar para todas as formas do ser e via as criaturas irmãs, hierarquicamente dispostas de acordo com os graus de evolução, cada qual em seu lugar no grande edifício da criação, cada uma com a sua função na ordem universal, cada elemento útil no grande organismo do Todo.
 

E a cada uma, segundo a respectiva posição, a voz da vida lhe havia falado, conforme à lei dominante no plano em que cada ser se coloca, revelando limites e deveres proporcionais. 

Mas contra a fatalidade de permanecer encerrado, o esforço próprio, de trabalho e dor, abre as portas, podendo o ser subir cada vez mais para a suprema glória do divino. Esta é a grande experimentação de toda vida, esta é a lição que cada qual deve aprender: 

O divino freme nas profundezas de todo ser. 

O espírito adormecido deve despertar para chegar até Deus. Em todos os níveis, tanto baixos quanto elevados, se revela o animador e íntimo pensamento de Deus.
 

Então o homem sentiu que havia compreendido o universo e abriu os braços a todos os seres, cuja voz ouvia e disse: 

"Aperto-vos todos no Amor de Deus. Fundidos todos no mesmo amplexo, subi comigo, subamos unidos para Ele. 

Vós de cima, prodigalizando amor; nós, inclinando-nos para os inferiores e ensinando-os a subir. E os inferiores aceitando o dom de sacrifício e amor dos superiores, que procuram ajudá-los a conquistar com justiça a própria felicidade.
 

Só assim unidos em um amplexo, nós, criaturas dispersas no infinito pulverizado da forma, poderemos encontrar-nos e, refundidos em um só organismo, poderemos, através do amor, reconstituir-nos no Uno-DEUS.

24/10/2015




DEUS 
E
UNIVERSO

 
Autor: 
Pietro Ubaldi 



PREFÁCIO

Numa grande reviravolta da minha vida e da vida do mundo, nasceu este livro, subitamente, como uma explosão. 

Foi escrito em vinte noites, pouco antes da Páscoa de 1951, aproveitando-me de uma bronquite que me forçava ao repouso, furtando-me ao trabalho diurno normal, necessário para a manutenção de minha família. 

Escrevi-o sob intensa febre, que facilitava a elevação do potencial nervoso, na solidão gelada de Gubbio. Como aqui está registrada, a visão me apareceu, em vinte etapas ou capítulos, nos imensos silêncios daquelas longas noites hibernais.
 
Qual explosão de pensamento e de paixão, este livro não poderia revelar-se a não ser à aproximação da Semana da Páscoa, após um longo e íntimo tormento preparatório. 

Sob a exposição fria e racional, que pretendeu, sobretudo, ser fiel às visões, oculta-se e arde essa paixão, a ânsia do inexplorado, o terror de debruçar-se sozinho sobre os abismos dos maiores mistérios, a imensa festa da alma pelo conhecimento obtido. 

No esforço aqui despendido para galgar os últimos cimos, como coroamento da obra, há como que uma vertiginosa desesperação da alma, que se sente perdida e desfeita diante do lampejo de uma concepção que não é sua, que dardeja sobre ela, ofuscando-a e arrebatando-a para os vértices do pensamento, onde tudo se faz uno, e para os vértices das sensações, onde alegria e dor se unificam num imenso espasmo de êxtase.
 
Este livro, que não é meu, apareceu assim como um relâmpago, para trazer a solução dos problemas últimos, em meio a uma humanidade descontrolada, delirante com os sofismas e os requintes da decadência, neste momento em que a História está procedendo à liquidação da velha civilização europeia. 

A hora é apocalíptica, porque é a hora da justiça quando todas as almas e os valores da humanidade devem ser joeirados, de uma forma implacável, a fim de que tudo o que não seja vital se incinere. 

Estamos asfixiados por montanhas de falsidades e a vida se rebela por que está faminta de verdade. 

E a verdade deve ser dita a qualquer custo, pois que o mundo em breve será sacudido pelos alicerces Ela deve ser dita antecipadamente, de uma forma clara, simples e una. Urge lançar a semente da ideia que deverá reger o novo mundo do terceiro milênio, aquele que ressurgirá da destruição do atual.
 
Este é o décimo volume desta Obra, que agora, depois de haver superado infinitos obstáculos, transborda pelo mundo e, de puro sistema de conceitos, está se transformando em vida. 

O milagre, predito com exatidão, ainda que proibido, torna-se realidade: 

o milagre consiste em que um homem sozinho, pobre, cruciado de dores, voltado à renúncia e esmagado sob o peso de um árduo trabalho, consiga sobrepujar tudo isso e lançar uma ideia ao mundo. 

É que, em geral, onde existe o que, humanamente, por inexplicável, se chama milagre, está Deus e, onde Deus está é possível se chegar até aos fundamentos. 

Há quarenta anos luto com esta certeza e os fatos de cada dia mais a confirmam. Em breve surgirão os volumes undécimo e duodécimo; - aqui já estão lançadas as suas bases. 

Desta maneira, uma obra completar-se-á pelo trabalho penoso e íntimo de um homem, a fim de que o mundo possa afinal, enxergar claro todos os problemas e, assim ser levado, unicamente pela via da razão e do utilitarismo, a uma vida mais honesta e justa e a fim de que a fé seja demonstrada, fazendo-se a paz entre ideias e homens.
 
Quis, por isso, interrogar, por meio de recente contato direto, os povos mais jovens das Américas; encontrei-os preparados para compreender melhor as nossas ideias do futuro do que a velha Europa. 

E, graças a isso, agora tampouco devemos preocupar-nos se a difusão destas ideias se faz aqui com mais lentidão e se as edições em italiano se vão tornando cada vez mais lentas, em face das dificuldades sempre crescentes do ambiente. 

Essas dificuldades locais não mais conseguirão conter a divulgação da Obra que se desenvolve no mundo. O importante é que tudo seja logo escrito e publicado, não importa onde. Outras gerações, depois, após outras provas, virão e compreenderão.
 
Na sua última missiva, na primavera de 1951, Albert Einstein assim me escrevia de Princeton. N. J., a propósito do oitavo volume da Obra Problemas do Futuro – que
mais dizia respeito a sua especialidade: 

I have studied part of your book and have admired the force of the language and the vast extension of your interest...” 

(“Estudei parte do seu livro e admirei a força de expressão e a vasta extensão de seus objetivos....”). 

Mas o presente volume está construído em outro terreno, a que podemos chamar teológico, além da ciência atual. Por isso é mais vasto do que o primeiro livro – A Grande Síntese – que ele encerra, como um seu momento, desenvolvendo-se em um campo que a visão de A Grande Síntese encarando apenas o nosso universo atual, não podia atingir. 

Com o presente volume pode se dizer estar exaurido o ciclo dos grandes conceitos básicos, atingindo-se a solução dos máximos problemas. 

Possivelmente depois deste esforço de racionalismo cerrado, o undécimo volume, por compensação, deverá assumir característica oposta, ou seja, de vitória da vida no espírito.
 
"Através da vida tenha caminhado, caindo e levantando. Através dos meus escritos tenho caminhado por uma longa senda de fadiga e de fé. Quantas etapas superei! 

O meu pensamento desenvolveu-se através de inúmeras conceitos e a minha paixão amadureceu de tanto sofrer. Ao fim de tanta ansiedade de alma e de coração, não restará mais que uma palavra, a última de tantas que foram ditas: 

Cristo. 

Sobre esta palavra, que é a síntese suprema da conhecimento e do amor, eu me reclinarei satisfeito e feliz, para morrer. Satisfeita como quem, superando todas as ilusões. humanas, reencontrou a verdade absoluta. Feliz como quem, vencendo todas as dores humanas, reencontrou a sua suprema alegria". (Do quarto volume: Ascese Mística - 1939).
 
Aventurar-se em um terreno teológico poderá parecer excessiva audácia. Mas, eu não pude escolher o tema das visões, que apenas registrei. Ademais, era necessário resolver tudo, também os problemas últimos, a fim de que o sistema se completasse. Afinal, por que o teológico deve ser um terreno proibido? 

Por que a indagação deve se furtar aos cimos máximos e se impor eternamente o mistério? 

Por que relegar ao museu das coisas mortas certos problemos, apenas porque hoje se acredita na ciência que sabe fazer descobertas úteis e não é capaz de formular tais questões? Deveremos, então, cancelá-las de nossa mente? 

A pesquisa da verdade, feita com sinceridade, com fé e com respeito, não tem sentido de culpa. Possuímos inteligência para usá-la e esforçamo-nos honestamente para compreender, até ande for possível, tem mais valor do que a dormência passiva da crença. 

Além do mais, se o mundo e as religiões progrediram, isto se deve à paixão de conhecimento que almas sedentas e isoladas cultivaram com o próprio risco e grande tormento.
 
A este propósito, permitimo-nos citar algumas páginas de Giovanni Papini:
 
Cartas do Papa Celestino VI aos homens, páginas que ninguém taxou de heterodoxia.
 
"Por que é a divina teologia hoje tão pouco popular entre os homens? Por que a ciência suprema, a ciência de Deus é hoje ignorada, mesmo pelos não ignorantes? Por que a vemos relegada, sobretudo em nossa Igreja, às classes dos seminários e aos estudantes dos mosteiros?”
 
Que aconteceu? 

Não aflige a vossa alma a dúvida que de tão funesto desinteresse a máxima culpa vos cabe?
 
"Interrogai a vossa consciência e respondei com franqueza cristã. A responsabilidade desse abandono não é inteiramente vossa, mas é, antes de mais nada, vossa. As grandes coisas jamais são vencidas pelas adversárias, mas pela fraqueza e infidelidade dos seus divulgadores. 

Que uso fizestes, de muitos séculos para cá do patrimônio sobrenatural que vos foi confiada? 

Por que permitistes que outros (... ) tenham tomado o seu lugar na atenção dos pensadores?
 
“A verdade, dolorosa verdade, é que a vida ardente e criadora do pensamento se afastou de vós. Depois de S. Tomás (...) não fostes capazes de construir uma nova e poderosa síntese teológica (...)”.
 
"De há muito tempo não aparece entre vós um gênio que saiba, como os grandes escolásticos, conduzir à meta única por novos caminhos. Não soubestes acrescentar uma nova prova da existência de Deus, depois das apresentadas por S. Anselmo e S. Tomás.
 
Não soubestes oferecer uma ideia mais profunda da redenção depois de Duns Scott e não soubestes verter o vinho eterno da verdade em odres ardentes, em cálices de cristal mais puro.
 
"A Escolástica decaiu pelos excessos de sutilezas verbais e pelo pedantismo sofistico dos occamistas [1]. Vós a depositastes decomposta no féretro lúgubre da repetição.
 
Há séculos vós, teólogos, não sois mais que compiladores de sinopses, manipuladores de manuais, registradores de lugares-comuns; não sois mais do que entediantes comentadores, glosadores, exumadores, postiladores, ruminadores de antigos textos venerados (. . .). 

Não vos haveis de que os alimentos requentados em demasia despertam aversão aos mais gulosos, e de que as comidas e remexidas nas velhas panelas de barro e com os mesmos condimentos, acabam saturando os mais pacientes paladares? 

Cada século possui a sua linguagem, os seus apetites, os seus sonhos, os seus problemas. Vós parastes o relógio da História no século XlV e continuais a servir uma sempiterna sopa aos dóceis candidatos ao sacerdócio, sem dar atenção aos cristãos que estão fora das portas claustrais e que já agora estão habituados a acepipes mais apetitosos e saborosos (. . .). 

Essa inapetência obstinada, que já dura alguns séculos, será devida somente ao gosto pervertido e gasto de dos leitores modernos ou, também, se não mais, à vossa fastidiosa mediocridade de capciosos repetidores? Se entre vós existisse uma estrela de primeira grandeza, bem elevada sobre o horizonte, todos a veriam e a procurariam. Mas não passais de círios mortiços que a grande custo iluminam as trevas dos oratórios. 

Os antigos e majestosos "in fólios" dos teólogos dormem um poeirento sono entre almofadas de pergaminho e pele, nas estantes carcomidas das bibliotecas, onde de raro em raro os leigos vão despertá-los. As obras dos teólogos modernos são prontuários para uso interno dos clérigos, ou áridos tratados (. . .).
 
"Mas pode a ciência de Deus, se quer reconquistar o afeto dos desatentos e dos desviados, permanecer sempre sobre as fundamentos e nas portinholas do século XIII?
 
Não poderá também a teologia, como todas as ciências, apresentar avanços e progressos?
 
O próprio S. Tomás de Aquino não pareceu revolucionário em seu tempo, a ponto de suscitar oposições e provocar condenações?(....).
 
"Existem, ainda, nas Escrituras, revelações maravilhosas que se poderiam mais amorosamente desvelar (. . .). Não é verdade que tudo tenha sido dito e que tenhamos de ser porta-vozes dos mortas. 

Cada século avança no caminho do espírito e possivelmente se verá, no futuro, uma teologia de fulgor tão brilhante (. . .) que, a por nós herdada, não obstante a sua admirável arquitetura, parecerá, aos venturosos cristãos da futuro, pouco mais que um esboço, isto é, julgá-la-ão como os titãs da escolástica julgaram as primeiros sistemas doutrinários dos Pais da Igreja. 

gênero humano e o povo cristão foram educadas por graduações e por isso quem ousará estabelecer confins de tempo aos designos divinos e aos esforços humanos? 

Espero com fé uma outra idade de ouro da nossa ciência:  

novas iluminações de santos, novas intuições de poetas, novas interpretações de doutores farão a teologia, como em tempos de antanho a dominadora dos espíritos superiores (. . . ).
 
"Mas, é necessário que vos afasteis, teólogos, das batidas estradas da repetição, da mecanicidade silogística, do pedantismo verbalistíco e formalístíco que tresanda demasiado a ranço, e mofo às narinas modernas ( . . .).
 
"Saí algumas vezes ao ar livre (. . . .), não desdenheis de aprender alguma coisa com os não-teólogos (. . . .). Hoje que estais bocejando no mar morto da indiferença e da monotonia, exorto-vos a ousar (. . ..). Nas palavras da revelação podem-se encontrar novos sentidos, possivelmente mais profundos do que os que já se encontraram; aos dogmas, a esses dogmas pode-se chegar por novas vias, anda mais firmes do que as das velhas estradas.
(. . .) dos homens de estudo e de engenho dependem sempre, em última instância, as opiniões e os pendores das multidões. Se conseguirdes reconquistar as aristocracias do espírita, vereis, logo depois, que os povos as seguirão" (. . . .).

"Bastaria uma inspiração audaz e feliz para fazer convergir de todas os lados os sequiosos. 

Muitos têm sede hoje (. . .)”.

                                                                    * * *
[1] -  Seguidores de Guilherme de Occam filósofo inglês e franciscano de Oxford, para quem o saber verdadeiro é o sensível (empirismo). O occanismo teve êxito nos séculos XIV e XV declinando, em seguida e descambando para um formalismo lógico. Com ele termina a escolástica medieval. 
(N. do T.)

                                                                    * * *
Assim falou Papini. Transcrevemos-lhe as palavras apenas porque, ditas por ele, catolicíssima, encontram, receptividade na Itália, enquanto ditas por nós, seriam condenadas como heresia.
 

Embora este livro, por necessidades editoriais, deva vir a público primeiro em português, no Brasil, da que em italiano, na Itália foi ele, todavia, escrito na Itália, levando em consideração as diretrizes do pensamento europeu, que não são idênticas às brasileiras Levou-se, assim, em linha de conta, sobretudo a pensamento católico. 

Foram-lhe, todavia, acrescentadas algumas páginas no Brasil, para que com imparcialidade e universalidade, se colocasse também diante da pensamento espiritualista e espírita.
 

Com respeito a este último, podemos afirmar, aos que temam que este livro fuja ao seu ponto de vista estritamente ortodoxo, que ele pode constituir uma das maiores provas da reencarnação. Realmente o sistema aqui exposto admite e prova que houve uma criação única de Espíritos. 

Estes, justamente por motivo da queda (primeiro, através da fase de descida – involução – e depois, no decurso da fase de subida – evolução), devem, sempre os mesmos filhos da criação única, infindas vezes reencarnar-se na matéria, que é filha da queda, para espiritualizá-la novamente, através das provas e da dor, para que tudo retorne e reintegre em Deus.
 

Uma grande vida eterna, qual foi na origem, fragmentada na queda em inúmeras vidas e mortes sucessivas na matéria, é elemento necessário e fundamental do sistema, é a imprescindível condição do processo evolutivo.
 

O sistema é todo sustentado pela ideia reencarnacionista, que tão firme se abriga no coração dos espiritistas. Esta teoria encontra aqui, mesmo quando explicitamente nela não se fala, uma confirmação, uma prova, uma demonstração. Sem ela, cairia o sistema exposto neste volume, como cairia A Grande Síntese e também toda a obra.
 

E se o leitor encontrar aqui conceitos que não são os habitualmente repetidos, recordará que sobre o problema teológico propriamente dito a Doutrina Espírita ainda não pronunciou em definitivo, pois é uma doutrina em desenvolvimento, aberta sempre a novos aperfeiçoamentos que a amadurecem e a fazem evoluir sempre mais.

Na noite de 9 de maio de 1932 eu registrava, por via da inspiração, uma mensagem particular para Mussolini que lhe foi entregue na tarde de 5 de outubro do mesmo ano. Ele a leu e agradeceu, através de autoridades governamentais. 

Tudo está documentado, mesmo na imprensa. Eis algumas frases da mensagem: "(. . .) trata-se de ajudar o nascimento do humanidade nova, que surgirá do convulsão do mundo (. . . ).

Evita, com todas as tuas forças, qualquer guerra. Não há razão humana que passa justificar hoje uma guerra que, com os hodiernos meios de destruição, significaria uma tal catástrofe que poderia assinalar a fim da civilização europeia, através da invasão asiática e impeliria, enfim, a civilização a emigrar, depois de tremendas cataclismos, para as Américas (. . .)

Outras mensagens, depois transmitidas, diziam, entre outras coisas, o que se segue:

(. . . ) o momento histórico está maduro para grandes acontecimentos (. . .), o momento histórico chegou, porque hoje fala a dor. 

O momento histórico é grave, porque a dor falará ainda tremendamente, como jamais falou 
(. . .). 

A civilização europeia, que é civilização cristã, ameaça ruir-se (. . .). 

A presente tranquilidade, operante, é a calma que precede as grandes tempestades (. . .). 

O mundo hoje joga tudo e por tudo".

Estava-se assim em 1932, bem distante das condições mundiais que somente hoje começamos a ver claramente e que nessa ocasião foram previstas com exatidão.

Para quem tem olhos para enxergar, o plano de Deus é evidente. É vontade Sua que no ano dois mil deva surgir uma nova civilização do espírito, em que o Seu Evangelho seja vivido seriamente, a fim de que Crista não se tenha sacrificado em vão. 

E esta hora chegou, já anunciada há vinte anos pelo que foi mencionada e por outras mensagens já publicadas [2].

Pode-se atingir esta meta por duas vias: corrigir-se espontaneamente, pela mudança de psicologia, inteiramente integrada no amor evangélico, ou então continuar a trajetória iniciada, com uma guerra que poderá destruir o hemisfério norte e a sua civilização. Em qualquer caso, o plano de Deus se realiza. No primeiro, por compreensão rápida de seres inteligentes; no segundo por compreensão lenta dos seres involuídos, através da dor que sabe fazer compreender por todos.

A humanidade padece a doença do materialismo e agora caminha para a mesa cirúrgica. No ano dois mil, Deus terá completado a operação. A bomba atômica será instrumento de liquidação da civilização materialista que a produziu. 

A destruição bélica, se essa for a via que o mundo escolher, será a obra de Satanás, que terá a incumbência, assim como a traição de Judas preparou a redenção, de preparar a nova civilização do espírito. E a hora chegou, e a fim de que a humanidade, com o terceiro Milênio, entre no seu terceiro dia, aquele em que Cristo ressuscitou. 

Cristo que afirmou que reconstruiria o Templo em três dias. Assim a velha civilização materialista deve ceder lugar uma nova civilização do tipo oposto.

Desta forma, se a humanidade não for suficientemente inteligente para compreender, será a própria guerra que destruindo um pouco de tudo, lhe ensinará que ela não constitui o meio adequado para resolver os problemas. Esta será a maior descoberta do século. 

O tipo biológico condutor de exércitos, o ideal nietzscheano do homem da força, cada vez mais desacreditado hoje, já surge como um tipo falido e uma nova guerra o sepultará definitivamente no reino passado do involuído feroz. 

O novo homem de comando, assim como a classe dirigente, deverá ser cada vez menos guerreiro e cada vez mais inteligente, até à plena espiritualidade.

Neste momento histórico, nasce o presente volume, terminado na Páscoa de 1951. Logo após os dois volumes: 

Problemas do Futuro e Ascensões Humanas, completados na Páscoa de 1950. 

Estamos nos dois primeiros anos da segunda metade do nosso século, no qual se decidirá a sorte do mundo para o futuro milênio. É neste momento que A Grande Síntese é ampliada e aperfeiçoada até o terreno teológico.

                                                                        * * *

[2] - Referencia às primeiras das Grandes Mensagens (Messaggi Spirituali), volume inicial da obra completa. (N.do T.)

                                                                        * * *
E, após ter atingido nos dois volumes acima mencionados a solução de problemas parciais mais próximos a nós, aqui é oferecida a solução dos problemas máximos, de modo que se lance luz sobre tudo, já que o mundo deverá prestes seguir nova orientação e necessita, assim, de um modo absoluto de novas e completas concepções, por meio das quais possa avançar. 

Para isto é indispensável um sistema de conhecimentos que resolva e esgote todos os problemas até os fundamentos. Para que se possa ter uma orientação até à realidade da vida, é, pois necessário também resolver os problemas últimos, reservados à Teologia, hoje negligenciados como inúteis pelos espíritos adormecidos no materialismo.

Na introdução do livro Problemas do Futuro, explicamos que a terceira trilogia, da qual este volume, o décimo, constitui o segundo termo, é a trilogia da sublimação, quanto a primeira trilogia foi a da explosão e a segunda, a da assimilação. Assim após o primeiro momento de simples espontaneidade inspirativa, superado o segundo, de introversão reflexa. 

Assistimos aqui agora, ao desenvolvimento do terceiro momento em que, por meio de uma maturação cada vez maior, os motivos da primeira trilogia são retomados, desenvolvidos e potencializados em uma compreensão crescentemente profunda, elaboração pela qual eles se completam e consolidam definitivamente. 

É assim que o volume. Problemas do Futuro retoma e aperfeiçoa a parte inicial, filosófica-científica de A Grande Síntese, enquanto o volume seguinte. Ascensões Humanas retoma e aperfeiçoa o problema social, biológico e místico, desenvolvendo teses apenas acenadas em A Grande Síntese. 

Mas, a fim de que o plano do conhecimento desenvolvido em toda a Obra pudesse ser executado, urgia completar a concepção de A Grande Síntese que encara o universo em função do homem, enquadrando-a em uma concepção ainda mais vasta, que encara o universo em função de Deus. Se esse livro nos dizia como é construído a universo, era necessário explicar por que ele é assim construído a não de outro modo. 

Era indispensável contemplá-la não mais apenas em relação ao homem, mas em relação aos fins supremos da Criação impunha-se ultrapassar os confins de nosso universo para imergir no pensamento de Deus transcendente. Que está além de toda a Sua Criação, por nós contemplada. 

Era imprescindível alcançar a solução dos problemas últimos, diante da qual a mente deve conter-se saciada e assim ascender até à fonte de tudo, às causas primeiras de que tudo deriva. 

Para tocar o extremo limite do conhecimento, era forçoso subir até o plano teológico, de modo que a visão de A Grande Síntese assim fosse compreendida e colocada no seu justo lugar, na mais vasta visão de Deus e Universo. 

O primeiro livro parte da Gênese para alcançar o homem, no segundo se contempla o pensamento e a abra de Deus, mesmo antes da Gênese e se atinge a solução última do problema da ser até as confins do espaço e do tempo, onde a Criação terá atingido as suas metas.

Tudo isto confirma o caráter continuamente ascensional de toda a Obra, que agora supera as últimas etapas da sublimação. O próprio método de recepção se faz mais completo e profundo e a intuição conceptual e inspirativa torna-se visão orgânico que resolve os últimas problemas da ser nos braços de Deus. 

Mas, nestas primeiras etapas da terceira trilogia, da sublimação, quer, antes, no terreno científico, como depois, no teológico, a ascensão, assim retomada, mantém-se sempre no plano racional. 

Que forma tomará ele no terceiro volume, última desta terceira trilogia? A visão se lançará ainda freneticamente para frente, perdendo qualquer contato com a forma mental humana?
Tratar-se-á, então, não mais de sublimação racional, de intelecto, mas de sublimação mística, de um incêndio do sentimento? Será possível levar ainda mais adiante os assomos deste, surgidas nos volumes precedentes? 

Não sabemos anda se a maturação poderá alcançar novas cimos. Mas, sem ter atingido e transposto estes, como poderemos chegar ao ultimo vértice:  

- Cristo?  

Não podamos saber porque ainda não vivemos essas maturações. 

Mas, é certo que as trajetórias já estão traçadas, tanto na vida do indivíduo, como no do mundo, tudo devendo prosseguir e amadurecer. O tempo assinala, com o seu inexorável ritmo, o desenvolvimento dos destinos.

Assim, esta grande tarefa encaminha-se para o seu término. Encontramo-nos nos últimos registros sempre mais altos, sempre mais distantes do inferno terrestre.

Superando sozinho montanhas de obstáculos, consumiu-se uma vida, mas amadureceu uma alma. Martírio de um homem, mas que se enxerta no martírio do mundo, porque una é a lei para todos:  

se quisermos redimir-nos não resta senão a Cruz de Cristo. 

E hoje, queira ou não, também a humanidade nela está pregada para a sua redenção.
Cristo fez a sua parte. Agora toca-nos fazer o nossa, acima de todas as tempestades, impassível. Deus observa e aguarda. A grande força do Evangelho está no fato de que ele jamais é superado:  

pertence ao futuro e, por isso, não envelhece. Está no fato de que ele constitui um ponto de chegada e não de partida.

Frequentemente, é necessária toda uma geração para compreender um livro. A Grande Síntese só começará a ser compreendida pelo mundo depois de vinte anos. Somente uma nova geração compreenderá toda esta Obra. 

Entrementes, resta a quem a escreveu o ultimo encargo conclusivo de acompanhar sua difusão no mundo. Depois, após a longa e exaustiva jornada, o repouso em Deus. Mas, somente assim, vivendo para o bem, vale a pena viver.

Agora que a ciclo volve ao seu fim, podemos ver que tudo se desenvolveu com a calma das coisas pré-ordenadas por uma vontade superior, segundo um plano em que cada momento está no seu lugar, na sua justa posição, ainda quando se defronta com obstáculos e quedas. 

Estas três trilogias se desenvolvam, assim, segundo o ritmo de um esquema muito mais vasto: o dos três dias após os quais Cristo ressurgiu e o desenvolvimento da Sua ideia nos milênios.

A primeira trilogia, explosiva, corresponde, pois, à primeira fase do cristianismo que avança no ímpeto de fé dos mártires. (As próprias "Mensagens Espirituais", com que se inicia a Obra, surgem! Nos primeiros três anos que vão do Natal de 1931 à Páscoa de 1933, e continua com o XIX Centenário da morte de Cristo.

Depois a igreja se consolida na Terra, após três séculos da perseguições, com o ato da Constantino e o decorrente reconhecimento oficial, da mesma forma que a A Grande Síntese, logo após as Mensagens, lança os bases científicas do sistema, partindo da matéria. Tudo isso no princípio da primeira trilogia, como do primeiro milênio.

A segunda trilogia, a da reflexão e da assimilação, representa o segundo milênio, em que a ideia de Cristo é racionalmente desenvolvida pelos pensadores, assimilada em parte pelos povos, incorporada aos hábitos e instituições. Mas, Cristo ainda dorme no sepulcro.
A terceira trilogia é da sublimação e ressurreição no espírito. Cristo ressurge.

No terceiro dia o templo é reconstruído. No terceiro milênio começa a atuação do Evangelho, até agora à espera, na vida coletiva. 

Avizinha-se o pré-anunciado Reino de Deus Entramos lia fase da luz e do triunfo. Assim, no terceiro milênio, o mundo se unificará em um só rebanho sob um só pastor: 

Cristo.

Não há dúvida da que é estranha esta impensada coincidência, seguramente não preparada, pela qual este ritmo de três elementos se repete e retorna do período trienal das Mensagens (fase preparatória), para estas três trilogias da Obra; do ritmo da ressurreição no terceiro dia e reconstrução do templo, ao dos três milênios em que o Cristianismo se afirma:  

primeiro na matéria, segundo na razão, terceiro no espírito.

Dante também se fundiu neste ritmo, na Divina Comédia. 

E a terceira trilogia nasce na Páscoa da Ressurreição de 1950, ano santo, centro do século, e se orienta para Cristo.

Mas toda a Obra não passa de um anúncio e de uma preparação, porque na alvorada do terceiro milênio Cristo romperá a pedra do sepulcro e ressurgirá triunfante. 

E a humanidade ressurgirá com Ele.

Gubbio, Páscoa de 1951.

14/10/2015


DESPEDIDA

 






Nossa longa viagem está terminada. Tudo já foi demonstrado, tudo está concluído até as últimas consequências.
 













A semente está lançada no tempo, para que germine e frutifique. Dei meu verdadeiro testemunho, minha obra está completa. O pensamento desceu, imobilizou-se na palavra escrita: 

não podereis mais destruí-lo. Está demais antecipado, para ser todo imediatamente compreendido. 

Nem todos os séculos são capazes de compreender totalmente uma ideia, mas é necessário que, com a psicologia, a perspectiva mude para vê-la sob novos ângulos. 




Vosso julgamento está viciado por uma visão imediatista, mas os anos correrão; quando tiverdes visto o futuro, compreendereis esta Síntese em profundidade e a enquadrareis na história do mundo. Para alguns, esses conceitos ainda estarão fora do concebível.
 

Outros recusarão um trabalho de compreensão, porque não desfrutam dele vantagem imediata. 

Outros procurarão afastar a verdade porque ela perturba o ciclo animalesco de suas vidas e continuarão a dormir, a esses falará a dor. O cerco aperta-se e amanhã será muito tarde.
 

A convicção não é tanto filha de cálculos lógicos e racionais, mas um estado de amadurecimento interior, que só se consegue por meio de provas, lutando e sofrendo. Inútil, pois, falar a respeito desta 

Síntese para demonstrar a erudição, se não é “sentida” como orientação, se não for assimilada como vida. É verdade que a alma coletiva dos povos sente, por intuição mais do que pela razão. 

A filosofia, o sistema político e a forma social que mais convenham para realização dos fins da própria evolução varrem tudo o que não corresponda ao trabalho que o momento histórico exige.
 

Mas, assim como é inútil criar sistemas lógicos e esperar que sejam compreendidos quando incompatíveis com o momento histórico, minha concepção é uma visão fecunda que antecipa a realização, é síntese não apenas do que pode ser conhecido, mas também das arrojadas aspirações da alma humana.
 

Falei ao mundo, a todos os povos. Disse a verdade universal, verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. Valorizei o homem e a vida, deles fazendo uma construção eterna; através de todos os campos, até os mais disparatados, tudo fiz convergir para a unidade; de todo vosso disperso conhecimento humano, fiz um estreito monismo.
 

Nesta síntese, ciência, filosofia e fé são uma só coisa. Tornei a dar-vos a paixão do bem e do infinito. A tudo o que vossa vida possa abraçar, dei uma meta:  

arte, direito, ética, luta, conhecimento, dor, tudo canalizei e fundi no mesmo caminho das ascensões humanas.
 

Vós vos moveis no infinito. 

A vida é uma viagem e nela só possuís vossas obras. A cada hora se morre, a cada hora se renasce, mas sempre como filhos de vós mesmos. A evolução, pulsando segundo o ritmo do tempo, não pode parar. Vedes através de falsa perspectiva psíquica. 

É preciso conceber não as coisas, mas a trajetória de seu transformismo; não os fenômenos, mas os períodos fenomênicos; tendes de colocar-vos dinamicamente na fluidez do movimento, realizar-vos neste mundo de coisas transitórias, como seres indestrutíveis, num tempo que só pode levar a uma continuação, lançados para um futuro eterno, que vos abre as portas da evolução.
 

Após milênios e milênios, não sereis mais as crianças de hoje, e alcançareis formas de consciência que hoje nem sequer sabeis imaginar. Mostrei-vos o destino e o tormento dos grandes que vos precederam na jornada. Eles vos dizem o que será o homem amanhã. 




Não podeis parar. 

Vimos o funcionamento orgânico da grande máquina do universo em seus aspectos, nas fases de seu devenir. É um movimento imenso e tendes que funcionar como parte do grande organismo.
 

Uma grande atração governa o universo por inteiro:  

Amor. 

Ele canta na arquitetura das linhas, na sinfonia das forças, nas correspondências dos conceitos, sempre presente. 

Chama-se atração e coesão no nível da matéria; impulso e transmissão no nível energia; impulso de vida e de ascensão no nível espírito. É a harmonia na ordem cinética, em que reside nossa respiração e a respiração do universo. 

Ousamos desvelar o mistério e olhar sem véus a Lei, que é o pensamento de Deus. Em todos os campos vimos os momentos desse conceito que governa tudo. Que os bons não tenham medo de conhecer a verdade.
 

O quadro está ultimado, a visão é completa. Dei-vos um conceito da Divindade muito menos antropomórfico, muito mais transparente em sua íntima essência, muito mais purificado das reduções feitas pela representação humana; um conceito mais luminoso, adequado à vossa alma moderna mais amadurecida. Assim o mistério pode emergir em termos de ciência e de razão, saindo dos véus do símbolo. 




Caminhamos do mineral ao gênio, para contemplar a vitória do homem; choramos e ansiamos com ele na cansativa conquista do bem contra o mal, no caminho de sua ascensão.
 

Ouvimos uma sinfonia grandiosa, em que, da matéria ao espírito, tudo canta o hino da vida. Oramos em sintonia com todas as criaturas irmãs. 

A concepção move-se no infinito. Os únicos limites que vos dei são os impostos pelo vosso concebível. Nosso estudo foi a adoração da Divindade.
 

Dei-vos uma verdade universal e progressiva, em que podem coordenar-se todas as verdades relativas. 

Dei-vos conclusões que não se podem negar, sem negar toda a ciência, todo o universo. A premissa é gigantesca; não pode ser abalada. 

Cada palavra é um apelo à vossa racionalidade, não podeis negá-la. Sempre afirmei, muito mais do que neguei.
 

O ponto de partida desse organismo conceptual não é egocêntrico nem antropomórfico, mas implica, em sua gênese, numa transferência para fora de vosso plano de concepção. Conclamei-vos às grandes verdades do espírito; recompletei vossa vida dividida ao meio pelo materialismo; restituí-vos como cidadãos eternos ao infinito. A ciência tem grande responsabilidade:  

ter destruído a fé sem saber reedificá-la.  

Com seus próprios meios, ergui-vos até a Síntese; dei-vos uma ética racional baseada em vastíssima plataforma científica

Dei ao supersensório um peso real objetivo. Mostrei-vos a realidade que está além da ilusão, a substância que reside no transitório, o absoluto que existe nas modificações do relativo. 

Ergui a ciência até a demonstração das verdades metafísicas. Reuni os extremos inconciliáveis, a matéria e o espírito, equilibrando e fundindo num só plano de trabalho a Terra e o céu. 





Encaminhei o homem à sua futura consciência cósmica. No âmago de meu pensamento, sempre se moveu a visão da lei de Deus.
 

Não podeis negar neste escrito, em que se agitam todas as esperanças e todas as dores humanas, uma palpitação de vida substancial; não podeis deixar de sentir, por trás da demonstração objetiva, uma paixão pelo bem, uma sinceridade absoluta, uma potência de espírito que vivifica tudo. Este escrito possui uma alma que lhe dá vitalidade.
 

Podereis negar ou discutir nele o supranormal. Mas este é normal em todas as outras criações de pensamento, normal nelas é a inspiração, sem a qual não se atingem as verdades eternas; normal a intuição super-racional. 

É normal um abismo de mistério na consciência, da qual nada sabeis. Cada alma vibrará e responderá de acordo com sua capacidade de vibrar e responder.
 

Aqui fala também o coração, exortando-vos a subir. Aqui reside imenso amor pelos homens, como Cristo sentiu na cruz; há um desejo violento de beneficiar, iluminando. Este livro quer ser um ato de bondade e de bem, num plano vastíssimo. 

Na férrea racionalidade está contido o ímpeto de uma alma que vê o futuro e sabe que a tempestade vos espera. Compreender é simples e natural na fase intuitiva. 

Só aceitei a ciência, as pesquisas, a racionalidade, como um meio que vossa psicologia me impôs. A quem queira atacar esta doutrina para demoli-la, vou a seu encontro de braços abertos, para dizer-lhes: 

és meu irmão, só isto importa de verdade. Eu sei: estes conceitos estão afastados do mundo feito de mentira e de desconfiança, que vos parecem inaceitáveis e inconcebíveis. 

Mas minha linguagem precisa ser substancialmente diferente.
 

Este constitui um apelo desesperado de sabedoria, para o mundo. No coração dos homens e de seus sistemas, domina o egoísmo e a violência; não o bem, mas o mal. A civilização moderna lança as sementes com grande velocidade e aguarda a produção intensiva de sua dor futura. Será a dor de todos. 




Poderá tornar-se maré demolidora que destruirá a civilização. Os meios estão prontos para que hoje um incêndio se alastre por todo o mundo. Falei aos povos e aos chefes, religiosos e civis, em público e em particular. 

Depois da conciliação política entre Estado e Igreja, na Itália, urge esta conciliação maior, espiritual, entre ciência e fé no mundo. Se um princípio coordenador não organizar a sociedade humana, esta se desagregará no choque dos egoísmos.
 

Falei num momento crítico, numa curva da história, na aurora de nova civilização. Podereis não ouvir e não compreender, mas não podereis mudar a Lei. 

Se a civilização, agora, tem bases muito mais amplas que nos tempos do império romano e não é mais um simples foco num mundo desconhecido, ainda existem enormes desníveis de civilidade, de cultura e de riqueza. 

A Lei leva ao nivelamento e à compensação. Enquanto houver um só bárbaro na Terra, ele tenderá a rebaixar a civilização ao seu próprio nível, invadir e destruir, para aprender. 

As raças inferiores depressa desfarão a sua impressão sobre superioridade técnica europeia; dela se apossarão para pular à garganta do velho patrão.
 

A todas as crenças, digo: 

o que é divino, permanecerá; o que é humano, cairá; qualquer afirmação temporal é uma perda espiritual; cada vitória na Terra é uma derrota no céu. 

Evitai os absolutismos e preferi o caminho da bondade.




 



Não se aplica a imposição ao pensamento, a força não o atinge e produz afastamento. Dai exemplo de desapego das coisas da Terra. Vossas verdades relativas são apenas pontos de vista progressivos e diferentes do mesmo Princípio único. 

O futuro não consistirá na exclusão recíproca, mas na coordenação de vossas aproximações da verdade. Não discutais, a convicção não se impõe com ameaças, mas difunde-se com o exemplo e com o amor.
 

À ciência digo que, enquanto não for fecundada pelo amor evangélico, será uma ciência de inferno. Inútil é o progresso mecânico que faz da Terra um jardim, se nesse jardim morar uma fera. A Terra é um inferno porque vós sois demônios. Tornai-vos anjos e a Terra será um paraíso.
 

Não temam os justos e os aflitos que olham, tremendo, a algazarra humana que busca glória, riqueza e prazer, porque se esta, por um momento, vence e goza, a Lei está vigilante, “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Digo-vos: 

jamais agridais, não sejais vós os agentes de vossa justiça, mas a Divindade; perdoai. 

Fazei sempre o bem e o fareis a vós mesmos; deixai a reação à Lei, não vos prendais ao ofensor com a vingança. 

Não espalheis jamais pensamentos, palavras, atos de destruição; não movimenteis as forças negativas da demolição, pois, de retorno, elas cairão sobre vós mesmos. Sede sempre construtivos. 

Em qualquer campo, seja vossa preocupação em apenas criar e jamais demolir; nada possui tanta força demolidora quanto um organismo completo em função. O velho cai por si, sem lutas de reação, porque todas as correntes da vida se precipitam para as novas formas.
 






Não vos rebeleis, mas aceitai todo o trabalho que vosso destino vos oferece. Este já é perfeito e contém todas as provas adequadas, mesmo se pequenas. Se é assim, não procureis alhures grandiosos heroísmos. Os pequenos pesos que se suportam por muito tempo, representam muitas vezes um esforço, uma paciência, uma utilidade maior. 

As provas implicam no trabalho lento de sua assimilação; a construção do espírito tem de ser executada em cada minúcia; a vida é toda vivida momento a momento, a cada instante há um ato e um fato que se liga à eternidade. 

Lembrai-vos de que o destino não é malvado, mas sempre justo, mesmo se as provas são pesadas. Recordai-vos de que jamais se sofre em vão, pois a dor esculpe a alma. 

A lei do próprio destino obedece a equilíbrios profundos e é inútil rebelar-se. Há dores que parecem matar, mas jamais se apresentam sem esperança; nunca sereis onerados acima de vossas forças. 

A reação das inexauríveis potências da alma é proporcional ao assalto. Tende fé, ainda que o céu esteja negro, o horizonte fechado e tudo pareça acabado, porque lá sempre está à espera uma força que vos fará ressurgir. 




O abandono e sua sensação fazem parte da prova, porque só assim podereis aprender a voar com as próprias asas. Mesmo quando dormis ou ignorais, o destino vela e sabe: 

é uma força sempre ativa na preparação de vosso amanhã, que contém as mais ilimitadas possibilidades.
 

Esses ideais foram ensinados na Terra. Mártires morreram por eles. Mas, o que não foi explorado pela hipocrisia do homem? 

Às vezes, os ideais, para serem divulgados, utilizam justamente esta sua capacidade de sofrer a exploração, tal como o fruto que se deixa devorar para que a semente seja levada para longe. 

Há a classe dos construtores e há a classe dos demolidores; dos parasitas que, pela mentira, operam uma contínua degradação de todos os valores espirituais.
 

Há quem construa à custa de tormentosos esforços e há quem utilize para si, pendurando-se como peso morto, para baixar tudo ao próprio nível. Um é espírito que vivifica, outro é matéria que sufoca. 

O princípio puro, então infecciona-se, adquire sabor de mentira:  

processo de degradação de ideais. Ai dos culpados, dos demolidores do esforço dos mártires!
 

Ai de quem faz da missão uma profissão e coloca o espírito como base de poder humano! Ai de quem mente e induz a mentir; de quem com o abuso, induza ao abuso; de quem dando exemplo de injustiça bem sucedida, proponha-a como uma norma de vida! Realizada uma ação, não podeis mais anulá-la até que se esgotem e sejam reabsorvidos seus efeitos.
 

Ai da sociedade que deixar esquecidos seus melhores elementos, não os colocando na posição que possam render em vista de seus merecimentos, e abandona seus valores mais altos à apatia e à incompreensão. 




São inúteis os reconhecimentos póstumos e tardio o remorso por um tesouro perdido. Ai das religiões que não cumprirem sua tarefa de salvar os valores espirituais do mundo! 

O espírito não pode morrer e ressurgirá alhures, fora delas. Ai dos dirigentes que não obedecerem ao Alto e não atenderem à voz da justiça que reside na própria consciência! Ai de quem desperdiçar seu tempo e não fizer de sua vida uma missão!
 

Um julgamento final vos aguarda a todos, não por obra de um Deus exterior a vós, a quem se possa enganar ou enternecer. Ele é uma lei onipresente no espaço e no tempo cuja reação não há distância nem demora que possa deter, de quem não se escapa, porque está dentro de vós e de todas as coisas. Pode evitar-se ou enganar a lei da gravidade? 

Assim não se evita nem se engana a reação da Lei, a justiça divina.
 

Deixo-vos. Minha última palavra a quem sofre. Esse é grande na Terra, porque regressa a Deus. Destruí a dor e destruireis a vós mesmos, “Felizes os que choram, porque serão consolados”. Não temais a morte, que vos liberta. Vós e vossas obras, tudo é indestrutível por toda a eternidade. Minha última palavra é de amor, de paz, de perdão, para todos.
 

Minha obra está terminada. Se durante anos e anos, uma humanidade diferente, muito maior e melhor, olhando para trás, pesquisar esta semente lançada com muita antecipação para ser logo fecundada e compreendida, admirando-se como tenha sido possível adiantar-se aos tempos, tenha ela um pensamento de gratidão para o ser humano que, sozinho e desconhecido, realizou este trabalho, por meio de seu amor e de seu martírio.
 

A sinfonia está escrita. O cântico emudece, para ressurgir em outras formas, noutros lugares. A voz apaga-se. 

O pensamento se afasta de sua manifestação exterior, na profundeza, para seu centro, no infinito.